Nuvens finas pairavam nebulosas no céu, bloqueando a luz de ambos os sóis, o maior e o menor, transformando a rua abaixo em uma paisagem crepuscular de sombras mutáveis e perigos incertos. Um vento soprava pelas passarelas, um turbilhão de folhas secas de outono girando em tons de laranja e marrom em suas garras. Apesar da penumbra, era meio-dia; a maioria das casas estava vazia, seus habitantes no trabalho ou na escola, deixando a rua descansar em um sono inquieto. O peso cinzento do inverno se aproximava, mas por enquanto era o outono frágil e mutável, alternando entre clemente e gelado em um instante.
Em sua maioria, as casas deste bairro residencial eram estruturas unifamiliares comuns, isoladas em seus pequenos lotes de terra, sozinhas na presença da comunidade. Seus quintais eram arrumados, suas janelas limpas — um lugar para pessoas que queriam desaparecer em seus arredores, absorvidas por sua comunidade. Três cores apareciam repetidamente nos exteriores das casas — bege, um tipo agradável de verde neutro e um cinza ardósia azulado. Tudo era claramente planejado, projetado para o conforto e a conformidade dos residentes.
Tudo, exceto a velha casa na esquina onde o bairro se aproximava da mata fechada. Esta era uma construção imponente de floreios ornamentais e excentricidades arquitetônicas. Gárgulas espreitavam dos caibros, e um terraço de observação circundava a cúpula no telhado, que se erguia levemente torta como um lembrete de que a entropia chegaria para todos, com o tempo. As janelas estavam cobertas por uma película de sujeira, como cataratas obscurecendo os olhos da casa, e o jardim era um emaranhado de ervas daninhas e sebes sem poda. Ninguém morava lá. Ninguém morava lá há bastante tempo.
Se o telhado de telhas pretas e a fachada de tijolos cinzas da casa não fossem tão deslocados em relação aos arredores, talvez fosse possível ignorar a pequena placa que havia sido colocada no quintal. Era um pedaço de madeira branca comum, com a palavra "VENDIDO" escrita em letras meticulosas pintadas de vermelho.
Uma carruagem de aparência moderna parou em frente à casa, conspícua por sua falta de animais de tração para puxá-la. Qualquer pessoa que pudesse pagar por um dos novos veículos de propulsão interna certamente se encaixaria neste bairro… se ao menos não tivessem parado em frente à maior vergonha da vizinhança.
As portas da carruagem se abriram, e uma pequena família humana emergiu na luz pálida da tarde, segurando malas nas mãos. Enquanto caminhavam pela calçada, as cortinas da janela frontal agitaram-se, como se uma brisa tivesse conseguido entrar na casa, e a porta se abriu por vontade própria, como se para lhes dar as boas-vindas. Os três moveram-se quase involuntariamente um em direção ao outro, brevemente inquietos por razões que nenhum deles conseguia articular.
"Os transportadores devem ter deixado destrancada", disse o homem, com uma nota de jovialidade aparentemente sincera em sua voz. "Vamos logo. Não vai ficar mais quente aqui fora."
Ele foi o primeiro a passar pelo portão para o quintal, e o primeiro a subir os degraus da varanda, sua esposa seguindo atrás com uma pequena careta de desgosto pelo estado dos canteiros de flores. Ela daria um jeito nisso em pouco tempo, dizia sua expressão. Ambos estavam vestidos para se adequar ao novo bairro, roupas sóbrias em cortes e cores respeitáveis. Sua filha adolescente, que caminhava lentamente atrás deles enquanto observava os arredores, combinava melhor com a casa em suas roupas elaboradas, quase antigas, e maquiagem de teia de aranha que se espalhava ao redor de seus olhos como uma mancha intrincada. Seus lábios pareciam fixos em uma curva permanente para baixo enquanto seguia seus pais para o saguão, entulhado de baús e caixas contendo seus bens mundanos.
Ela colocou sua mala no pé da escada e passou a mão pelo corrimão de carvalho polido, verificando os dedos em seguida em busca de poeira. Eles saíram cobertos por uma poeira brilhante, como as escamas das asas de uma mariposa, e ela os esfregou antes de limpar a mão na saia e continuar a explorar a casa, deixando seus pais para trás.
As portas pelas quais ela passava estavam fechadas, até que chegou ao porão. Aquela porta estava entreaberta, revelando uma fresta de degraus descendo para a escuridão. Ela parou ali, como se tivesse visto algo.
"Marina!", chamou sua mãe. "Venha escolher um quarto, precisamos decidir onde os móveis vão ficar antes que os transportadores voltem."
"Já vou, mãe", ela respondeu, relutantemente desviando sua atenção da porta aberta. O que quer que estivesse lá embaixo esperou até agora. Poderia esperar por ela por mais um pouco.
Ela não sabia o que era, mas já sabia que era paciente. Podia esperar.
Agora …
O céu nunca estava verdadeiramente escuro em Kamigawa, nem mesmo acima das nuvens, não quando Otawara estava por perto em toda a sua glória polida. Cada partícula de luz da lua acima e das cidades abaixo refletia na gloriosa fortaleza Soratami, transformando vidro e cromo em um farol imponente. A luz das estrelas refratava de esculturas de cristal e agulhas vítreas, magnificada em uma beleza impossível. Este era o auge da arte do povo da lua, e nem mesmo a devastação causada pelo Rompe-reinos fora suficiente para diminuir sua luz. Os reparos continuariam por anos, se não décadas, e ainda assim a cidade brilhava.
Uma sombra movia-se pelas ruas iluminadas, de alguma forma evitando os drones que varriam a cidade em arcos constantes. Phyrexia se fora, mas os Soratami, sempre focados em segurança, ainda não haviam relaxado suas medidas intensificadas. Pressionando-se contra a parede de um beco, Kaito Shizuki observou um drone passar e pensou, não pela primeira vez, que tudo isso teria sido muito mais fácil se os artefatos recuperados após a guerra tivessem sido guardados no Palácio Imperial, em vez de nos céus.
Mas o que estava feito estava feito, e ele não podia mudar isso. Tudo o que importava agora era a missão e levá-la à sua devida conclusão.
O antigo palácio de Oboro sofrera alguns danos durante a invasão. Embora permanecesse fechado para estrangeiros, muitos de seus tesouros haviam sido movidos temporariamente para uma fortaleza fortemente vigiada. Guardas permaneciam do lado fora enquanto outros patrulhavam os corredores e o telhado em intervalos regulares, a atenção voltada para fora, esperando por sinais de perigo. Kaito esquivou-se deles um por um, agarrando-se às sombras e movendo-se com um silêncio que a própria lua invejaria.
Finalmente, ele alcançou um nicho isolado de onde podia ver uma porta gradeada e vigiada refletida no metal polido de um traje de voo danificado na invasão, que estava exposto. Com a respiração silenciosa e constante, ele agachou-se ali, esperando enquanto os minutos passavam. Por fim, um guarda do povo da lua aproximou-se pelo corredor, dispensando os dois que flanqueavam a porta. A troca da guarda: era o melhor momento para agir, quase sempre, pois pequenas irregularidades podiam passar despercebidas diante do caos coreografado.
Deslizando para o aberto, Kaito moveu-se atrás do guarda e atingiu-o na nuca com o pomo de sua espada. O guarda enrijeceu e depois amoleceu. Kaito segurou-o antes que pudesse cair, baixando-o gentilmente até o chão. No ombro de Kaito, Himoto ajustou sua posição, descontente com o ataque a um cidadão de Kamigawa, mesmo compreendendo a necessidade.
Kaito verificou o pulso do guarda, verificando que não causara mais danos do que o pretendido, e então voltou sua atenção para a porta, estendendo uma lança de busca de energia telecinética. Ela deslizou para dentro do mecanismo de trava, onde ele girou e puxou até que a fechadura desse um clique suave, e a porta perfeitamente equilibrada se abrisse o suficiente para que Kaito entrasse.
A sala adiante era um depósito de tesouros Imperiais inestimáveis confiados ao povo da lua, protótipos de tecnologia que haviam sido julgados perigosos demais para permanecerem acessíveis, riquezas além de qualquer medida. Eles seriam levados de volta para Oboro e seriam impossíveis de alcançar sem ofender gravemente o povo da lua ao final do próximo ciclo lunar; ele precisava agir agora.
Escaneando as prateleiras enquanto se movia, Kaito entrou na sala, os olhos fixos em um pedestal iluminado ao fundo, quase em um canto. Um pergaminho de ferro repousava ali, aparentemente comum comparado às maravilhas ao seu redor. Com a atenção fixa no pergaminho, ele moveu-se rapidamente em direção a ele, uma mão estendida para reivindicar seu#linebreak prêmio—
Apenas para parar a trinta centímetros do pedestal, os olhos captando a camada final de segurança. Uma kami aranha pairava sobre o pergaminho em uma delicada teia espiritual, que se estendia para envolver o próprio pergaminho. Qualquer tentativa de tocá-lo romperia a teia e atrairia atenção indesejada.
"Himoto", ele sussurrou, a voz pouco mais que um sopro no ar parado, "você consegue desvendar esta teia?"
Ela assentiu e começou a avançar lentamente pelo braço estendido dele em direção à teia, pretendendo libertar o pergaminho. Ela estava quase lá quando um som quebrou o silêncio. Alguém limpando a garganta, logo atrás dele.
Kaito girou, a espada já montada e na mão, apenas para encontrar sua lâmina presa contra outra. A mulher de cabelos brancos parada atrás dele ofereceu um leve sorriso, sua espada ainda erguida para impedi-lo de completar o golpe. Um cão dourado e branco estava a seus pés, balançando a cauda, e Kaito quase sorriu ao ver Yoshimaru, finalmente alegre novamente na companhia de sua amada mestre.
"Olá, velho amigo", disse ela. "Você continua tão bom quanto antes. Mas quando se trata de esgrima, eu ainda sou melhor."
Kaito olhou fixamente. Perguntar à Imperatriz onde ela estivera era tolice, como ele sabia pelos encontros mais recentes; na ausência de sua centelha, ela estava finalmente livre para realmente conhecer o plano que era seu por direito de nascimento, não mais lançada pelas Eternidades Cegas sem escolha ou controle. Como tal, ela pedira a Pata-Leve para manter sua regência por enquanto, enquanto caminhava entre as pessoas que deveria liderar até entendê-las melhor. Então ele não perguntou. Em vez disso, respirou fundo, endireitou-se e baixou a espada.
"Eu — isso não é assunto Imperial", ele deixou escapar. "Isso era da Tamiyo. Nunca deveria ter sido confiscado."
"Não estou aqui para impedi-lo", disse ela. "Vim porque preciso da sua ajuda. Nashi está em apuros."
Kaito congelou. "E você acha que o meio de um roubo é a hora de me contar? Você precisa melhorar sua abordagem."
A Andarilha sorriu. "Termine seus negócios aqui rapidamente. Encontro você no telhado do palácio." Ela deu um passo para trás, afastando-se dele. Ela estava sempre se afastando dele. "Vejo você em breve."
Ela virou-se para sair da sala, deixando Kaito olhando para trás. Ele voltou sua atenção para o pergaminho enquanto Himoto terminava sua jornada até a teia e começava a desmanchá-la, peça por peça cuidadosa.
O vento estava frio enquanto soprava pelos telhados do palácio, perfumado com flores de cerejeira. Uma pétala rosa ocasional dançava na brisa. Kaito desviava-se delas quase sem pensar, o pergaminho de ferro um peso pesado em sua bolsa enquanto ele se movia pelas telhas polidas. Eles costumavam brincar aqui quando eram crianças, um menino e sua companheira, quando sabiam que seriam súdito e imperatriz um dia, no futuro, que era tão distante quanto a lua.
A lua não estava tão longe agora, e o futuro já havia chegado há muito tempo. Kaito saltou para um dos jardins baixos e semi-escondidos que pontuavam o telhado do palácio, pousando silenciosamente no chão de pedra coberto de musgo. A Imperatriz estava lá, sentada sob uma das cerejeiras com uma extremidade de uma corda de seda na mão. Yoshimaru puxava a outra extremidade, rosnando de brincadeira.
Ela olhou para cima quando Kaito se aproximou. "Você teve sucesso?"
"Tive." Kaito deu um tapinha em sua bolsa. "Genku terá o pergaminho de sua falecida esposa de volta na biblioteca amanhã de manhã. Você disse que Nashi está em apuros?"
"Não temos certeza absoluta, mas parece muito provável", disse a Imperatriz. "Ele está desaparecido. Vim procurar você porque precisamos de alguém que ainda consiga caminhar entre os planos sem assistência para montar uma equipe que possa resgatá-lo."
Kaito franziu a testa. "A última equipe de que fiz parte não se saiu muito bem. Você se lembra."
"Eu me lembro", ela concordou. "Mas isto é diferente. Isto não é Phyrexia. E você se saiu bem o suficiente para que ambos ainda estejamos aqui."
Kaito desviou o olhar. "Nem todos estão", disse ele.
Ela não teve resposta para isso.
Yoshimaru arrancou a corda das mãos dela e sacudiu-a para frente e para trás, quebrando o pescoço de qualquer pequeno oponente que imaginasse. Feito isso, ele soltou a corda na frente de Kaito e olhou para ele com olhos suplicantes de esperança.
Kaito suspirou e pegou uma ponta da corda, começando a brincar de cabo de guerra com o cachorro.
"Há quanto tempo Nashi está desaparecido?", ele perguntou.
"Três meses."
Kaito encarou a Imperatriz. "Isso não é — eu teria notado! Ou Genku teria me contado!"
"Eu sei que ambos nos sentimos responsáveis pelo Nashi", disse ela. "E, ao mesmo tempo, ele nos culpa pela morte da mãe dele, em graus variados, e acho que nós dois também nos culpamos. Tem sido fácil manter distância, pensando que era isso que ele queria. Quando foi a última vez que você foi vê-lo? Ou falou com Genku?"
Kaito fez uma pausa. Fazia… "Meses", admitiu ele. "Tenho estado focado em recuperar os pergaminhos da mãe dele. Eles nunca deveriam ter sido levados, e eu esperava que tê-los pudesse acalmar seu coração uma fração que fosse, mesmo sabendo que nunca seria o suficiente."
A Andarilha assentiu. "Está vendo? Estávamos todos sofrendo à nossa maneira, e ele escapou como ondulações na água. Três meses atrás, ele disse a alguns dos outros Acertadores que o pergaminho contendo a memória viva de sua mãe havia desaparecido. Ele estava perturbado."
"Ele deveria ter vindo falar comigo!"
"Ele era uma criança com o coração partido e, quando começou a ouvir a voz dela chamando para ir encontrá-la, ele atendeu. Ele seguiu o chamado dela até uma porta coberta de entalhes estranhos, uma que não tinha lugar em Kamigawa. Ele foi esperto o suficiente para enviar uma série de drones por ela antes de tentar entrar sozinho, e eles transmitiram imagens do outro lado antes de quebrarem, um por um. Foi quando ele reuniu alguns de seus amigos mais próximos e atravessou." A Andarilha fez uma pausa. "Eles nunca voltaram. Pior, a porta desapareceu assim que Nashi passou. Temos gravações de drones da área. Eu as analisei e fui até onde a porta deveria estar, mas não havia nada, apenas um sussurro no limite da minha consciência planar, como se algo terrível tivesse roçado nosso mundo naquele ponto.
"Ninguém em Kamigawa pôde me ajudar, então fui forçada a procurar mais longe. Viajei pelos Caminhos do Augúrio buscando o eco daquela porta e o encontrei em Ravnica, sendo vigiado por Niv-Mizzet."
"Então, ele controla o acesso a esta porta?"
"Sim."
"E você confia nele?"
"Não." O sorriso da Imperatriz foi breve e amargo. "Acredito que ele queira aprender os segredos daquela porta muito mais do que quer trazer Nashi para casa. Somos todos apenas peças de jogo para ele, coisas que ele pode convocar e sacrificar à vontade. Mas acredito que ele tem os recursos de que precisamos para fazer isso, e isso deve ser feito."
Kaito suspirou, cansado até os ossos. "Levarei o pergaminho para Genku esta noite e perguntarei se ele sabe de algo. Depois reunirei nossa equipe e encontrarei você…" Ele parou. "Onde devo encontrar você?"
"Há um Caminho do Augúrio estável perto de Eiganjo que me levará ao Décimo Distrito de Ravnica. Niv-Mizzet está nos esperando lá." Ela inclinou-se, pegando a ponta da corda da mão dele. "Você sabe para onde ir?"
Kaito assentiu sem hesitação. "Tenho uma boa ideia de onde começar", disse ele.
Tyvar Kell, príncipe elfo de Kaldheim, estava sem camisa na neve, os pés em uma postura de guerreiro, um largo sorriso no rosto enquanto encarava o lobo massivo à sua frente. Ele estava sozinho, sem matilha para ajudá-lo. Se fizesse parte de uma matilha, não estaria caçando na aldeia pelas últimas semanas, e ele não teria sido convocado para uma batalha gloriosa.
O lobo rosnou. Tyvar riu.
"E então, fera?", gritou ele. "Venha para cima!"
O lobo, que tinha facilmente o dobro do seu tamanho, saltou, e Tyvar desferiu um poderoso cruzado de esquerda na parte macia de sua mandíbula, a força de seu soco ampliada pelo seu corpo tornando-se pedra viva no meio do movimento. O lobo foi arremessado para trás na neve, caindo sem emitir som. Tyvar franziu a testa, seu corpo voltando à carne.
"Levante-se", disse ele. "Esta só é uma batalha de herói se você durar mais de um golpe."
"Tenho que admitir, ver você brincando de carrocinha não era o que eu esperava", disse uma voz atrás dele, acolhedora e familiar.
Tyvar virou-se, radiante mais uma vez. "Kaito!", exclamou ele, jubiloso como sempre. "O que o traz a Kaldheim, meu amigo? Em busca de grandes aventuras e perigos gloriosos?"
"Nem tanto", disse Kaito. "Não estou exatamente à procura de perigo, glorioso ou não. Eu esperava poder convencê-lo a vir me ajudar com um pequeno problema…"
Algumas horas depois, Tyvar e Kaito estavam sentados dentro do salão de banquetes, travessas de carne e queijo diante deles, canecas de cidra quente à mão. Os aldeões já haviam esfolado o grande lobo e levado seu corpo; as ovelhas que ele comera teriam vestido muitos deles por uma temporada. Agora, ele serviria no lugar dos membros perdidos do rebanho e aqueceria as pessoas através da neve do inverno.
Tyvar assentiu com profunda solenidade às palavras de Kaito, a testa franzida em concentração. "Então, você quer que eu viaje via Caminho do Augúrio para a cidade de Ravnica, para lá atravessar uma porta misteriosa rumo a uma possível perdição?"
"Basicamente isso, sim."
"Quando partimos?"
"Eu deveria montar uma equipe", disse Kaito. "Eu cuido da furtividade. A Imperatriz planeja nos acompanhar e ela pode cuidar da navegação. Nós dois somos bons lutadores, mas você é uma equipe de demolição de um homem só. Niv-Mizzet certamente vai querer que um de seus próprios homens nos acompanhe; isso nos dá uma cientista. O resto de nossa antiga equipe de ataque está…"
"A amiga Kaya viria, se soubéssemos onde encontrá-la, mas temo que ela tenha cansado de aventuras por enquanto", disse Tyvar. Ele não mencionou os outros. Não havia sentido. Pegando sua caneca, ele tomou um gole de cidra e perguntou em tom especulativo: "Quais necessidades ainda não foram preenchidas pelos dons entre nós?"
"Poderíamos usar alguém com habilidades defensivas", disse Kaito. "Alguém que seja melhor em proteção e combates à distância. Eu não posso ser nosso único lutador de longo alcance."
Tyvar olhou para ele com gravidade. "Você antecipa muitos problemas, então?"
"Melhor prevenir do que remediar."
Para sua surpresa, Tyvar soltou uma gargalhada. "Maravilhoso!", disse ele. "Mais problemas significam mais drama ao contar a história! Acho que tenho exatamente o herói de que você precisa — e o melhor de tudo, eles estão atualmente em Kaldheim, então você não terá que ir longe."
"Você garante por eles?"
"Garanto. E entre você e eu, eles precisam sair mais. Uma viagem para um lugar novo e aterrorizante, cheio de perigos desconhecidos, pode ser precisamente a solução para seu marasmo."
"É alguém que eu conheço?"
"Acredito que não." A boca de Tyvar torceu-se brevemente. "Niko Aris. Eles eram um Planeswalker, antes…"
Antes do que quer que tenha mudado. Antes de tantas centelhas se apagarem como velas em um vento forte, deixando seus antigos portadores tateando sem uma luz para ver. Antes de Phyrexia, antes do silex…
Antes de falharem.
"Tenho certeza de que serão um grande trunfo", disse Kaito. "Onde podemos encontrá-los?"
Tyvar apontou para um canto particularmente barulhento do salão de banquetes, onde um grande grupo de caçadores locais se formara. Eles tinham três alvos de madeira tosca apoiados na parede e alternavam o lançamento de pequenas machadinhas em suas marcas, errando com frequência e arrancando pedaços das vigas de sustentação do salão. Enquanto Kaito observava, um caçador particularmente corpulento, com a barba dividida em três tranças limpas e oleadas, deu um passo à frente, pesando um machado na mão, e lançou-o quase com indiferença em direção ao menor alvo.
Atingiu em cheio o centro, e os outros caçadores comemoraram.
"Niko?", perguntou Kaito.
"Não", disse Tyvar, rindo. "Aquele é Trygve. Sua habilidade com machados de arremesso é tão impressionante quanto sua habilidade com o arco não é. Ele é um caçador terrível, mas um excelente esportista." Ele indicou com a cabeça uma figura mais esbelta sentada em uma das mesas perto dos lançadores de machado. Metade de sua cabeça fora raspada; o cabelo que restava era longo, liso e escuro na raiz, clareando para prata na ponta. Enquanto os competidores rugiam com o arremesso de Trygve, a figura levantou-se, movendo-se suavemente pela multidão, e pegou um par de machados, um em cada mão.
Eles trocaram algumas palavras breves com alguém que Kaito supôs estar dirigindo o jogo, e então lançaram ambos os machados no alvo, um logo após o outro. O primeiro atingiu o cabo do machado de Trygve, partindo-o longitudinalmente. O segundo repetiu o truque, partindo o machado do estranho bem no meio.
Tyvar riu e acenou para a figura se aproximar, recebendo um dedo levantado sinalizando para esperar. Várias bolsas de moedas mudaram de mãos, e então o estranho dirigiu-se à mesa deles, parecendo indiferente à sua própria vitória impressionante.
"Kaito, meu amigo, este é meu amigo Niko Aris", disse Tyvar, assim que o estranho estava perto o suficiente. "Eles são originalmente de Theros e estão a cerca de três noites de jogo de fazer com que nós dois sejamos expulsos deste salão de banquetes."
"Apenas porque você insiste em se meter quando os locais se cansam de perder", disse Niko. "Eu sei lidar com minhas próprias lutas."
"Sim, mas quando você continua começando-as para mim, todas tentadoras e entusiasmadas, não consigo resistir a participar." Tyvar sorriu para Niko, que franziu a testa em resposta.
"Ah", disse Kaito, que não queria ficar preso no meio de uma briga, por mais que Tyvar pudesse ter gostado. "Você parece ter uma mira e tanto."
"Eu nunca erro." Niko tirou o que parecia ser um fragmento brilhante de magia do ar, segurando-o sobre a palma da mão. "A invasão não tirou isso de mim, pelo menos."
"O amigo Niko, assim como eu, não sente mais as Eternidades Cegas em seus ossos", disse Tyvar.
O cenho de Niko franziu-se ainda mais. "E suponho que você sinta?", perguntaram a Kaito, a voz afiada.
"Sinto", disse Kaito. "Eu, e alguém que conheço bem, precisamos da sua ajuda, em Ravnica. Você viria?"
"Encontramos o Caminho do Augúrio que nos levará até lá na semana passada", disse Tyvar, alegremente. "Venha, Niko! Você vai deixar esses oponentes indignos e me seguir em direção a um perigo certo?"
Niko olhou para o fragmento em sua mão, deu de ombros e lançou-o por baixo no maior alvo dos lançadores de machado. Ele cravou-se exatamente no centro, brilhando como uma lasca de luz estelar.
"Pode ser", disse Niko. "Não posso deixar os Planeswalkers ficarem com toda a diversão."
Kaito saiu do infinito para as ruas de Ravnica, olhando para o céu roxo-azulado, e perguntou-se — não pela primeira vez — por que mantivera sua centelha quando tantos outros não a mantiveram. Tyvar estava imperturbável e a Imperatriz aliviada, mas Niko estava claramente zangado, amargo em um nível que Kaito não conseguia compreender totalmente, nunca tendo perdido uma parte tão essencial de si mesmo. O antigo Planeswalker de Theros ressentia-se de ter sido tornado menos do que fora, mesmo que sua fascinante magia de fragmentos permanecesse intacta, mesmo que os Caminhos do Augúrio significassem que não estavam presos em nenhum plano. Eles confiaram nas Eternidades Cegas e foram traídos.
Kaito não podia culpá-los inteiramente, enquanto se virava lentamente, procurando por alguém a quem pudesse pedir para levá-lo a este "Pacto das Guildas vivo", o que quer que fosse. Ele parou ao ver uma jovem humana esbelta, mal mais alta que Nashi, parada na entrada de um beco próximo, mexendo em um pequeno dispositivo geométrico com uma frente de cristal que oscilava entre cores, como se estivesse de alguma forma lendo os níveis de energia locais. Kaito parou a alguns metros dela, franzindo a testa.
Depois de um momento, ela olhou para cima e deu um pulo. "Oh — oh! Olá! Você deve ser o Kaito! Estávamos esperando por você!"
Kaito assentiu. "Devo ser eu. E você é…?"
"Oh! Hum." Ela fechou o dispositivo, transformando-o em um disco e deslizando-o para o bolso antes de oferecer a mão a Kaito. "Sou Zimone. Sou estudante? Faculdade Quandrix, na Universidade de Strixhaven. Estou aqui para trabalhar com a Liga Izzet na minha tese de mestrado sobre espaços extraplanares teóricos. O dragão me pediu para esperar por você."
"Por quê?"
"Oh. Temos esperado por você." Zimone fez uma pausa, ajustando os óculos. Ela pareceu perceber que não era informação suficiente e continuou: "Devo levá-lo até ele."
"Teremos que esperar por meus companheiros. Eles estão viajando via Caminho do Augúrio."
Zimone olhou para ele educadamente, claramente sem entender por que isso era um problema, e Kaito percebeu que faltava a ela aquele certo olhar assombrado que ele associava aos antigos Planeswalkers. Para ela, o advento dos Caminhos do Augúrio fora o início de uma nova era brilhante, não o fim de uma era antiga e amada. Juntos, eles se viraram para observar a praça.
O tempo passou. Eventualmente, Tyvar veio saltando de outro beco, com o entusiasmo inabalável de sempre.
"Por que aquele homem não está vestindo uma camisa?", perguntou Zimone.
Kaito apenas riu.
Tyvar apressou-se para se juntar a eles. "Bem encontrado, querido companheiro! E rosto novo." Ele virou-se para Zimone, curvando-se levemente. "Com quem falo?"
"Zimone Wola", disse ela, soando mais nervosa do que lisonjeada.
Niko emergiu do mesmo beco, caminhando como se estivesse enjoado e prestes a desmaiar. Ligeiramente esverdeado com uma náusea inexplicável, aproximou-se para se juntar ao trio.
"Niko, esta é Zimone, de Strixhaven", disse Kaito. "Zimone, este é Niko. Eles são originalmente de Theros, mas atualmente vêm de Kaldheim."
"Um prazer", disse Niko.
Zimone bateu palmas. "Tudo bem, sigam-me", disse ela, e saiu apressada pelo beco. Os outros trocaram um olhar, deram de ombros e a seguiram.
O beco terminava em um pequeno pátio, dominado por um enorme dragão vermelho descansando do outro lado como um gato, asas maciças dobradas contra os flancos. Zimone levou-os direto até ele.
"Sr. Pacto das Guildas, encontrei a equipe de busca", disse ela, ao se aproximarem.
"Parece que sim", disse o dragão, levantando-se. "Excelente trabalho, Senhorita Wola. Kaito Shizuki, presumo."
"Sim, senhor", disse Kaito, curvando-se. "Estes são meus escolhidos para a equipe de resgate, Tyvar Kell e Niko Aris."
Niv-Mizzet assentiu, sua cabeça massiva gerando um breve vento ao se mover. "Muito bem. Sigam-me."
Uma linha de proteções brancas brilhantes apareceu à frente deles. Kaito parou. "Trabalho Azorius", disse Niv-Mizzet. "Eles nos deixarão passar."
"Maravilhoso", disse Tyvar, embora não estivesse claro se ele entendia o que aquilo significava. Então: "Você será nosso anfitrião? Sempre desejei falar com mais profundidade com um dragão."
"Se tivermos tempo, falarei com prazer com você", disse Niv-Mizzet secamente. "Vocês não são os primeiros aqui, é claro. A Andarilha voltou ontem, acompanhando outro de seus companheiros."
"Sim. Uma menina, mais nova que Zimone aqui, que se chama Aminatou. Ela disse que vocês precisariam da ajuda dela para ter sucesso."
Niko parou subitamente, olhando fixamente. Um a um, os outros pararam e se viraram para olhá-los. "Niko?", perguntou Tyvar.
"Aminatou?", perguntou Niko.
Niv-Mizzet assentiu. "Sim."
"A criança que tece casulos de destino."
Niv-Mizzet soltou uma fina fumaça, parecendo pensativo. "Isso se encaixaria com o que ela tem feito até agora, então acredito que sim."
"Eu não acredito em destino."
"Mas o destino acredita em você", disse Tyvar, batendo no ombro de Niko. "Venha, vamos desacreditar esta estranha cara a cara."
Eles continuaram caminhando. Kaito franziu a testa novamente ao notar um sinal na parede, marcado com o sigilo da Legião Boros, alertando sobre energia necromântica na área e ordenando uma evacuação. Niv-Mizzet viu-o olhando e soltou outra lufada de fumaça.
"Não há tal contaminação, é claro", disse ele. "Apenas precisávamos isolar a área para conduzir nossa pesquisa."
Eles atravessaram as proteções, que aqueceram suas peles por um momento antes de deixá-los passar sem danos. Niv-Mizzet continuou sem desacelerar até que uma mulher com roupas desprovidas de insígnias de guilda apareceu em uma rua lateral, acenando com um braço para chamar sua atenção.
"Aquela deve ser Madame Etrata", disse ele. "Ela e seu empregador têm cuidado da organização dos pesquisadores que permanecerão aqui, em Ravnica, enquanto vocês realizam seu trabalho." Ele os levou em direção à mulher, até que estivessem perto o suficiente para ela falar.
"Vocês estão atrasados", disse ela secamente, com nenhum do respeito que Kaito esperaria que ela demonstrasse a um predador voador massivo.
"Estou precisamente no horário, agora que nossa equipe de incursão está aqui", protestou ele, com um rosnado de aviso.
Etrata deu de ombros.
Niv-Mizzet soltou uma nuvem de fumaça. "Sabe, eu esperava que o seu nível de respeito influenciasse o Proft, e não o contrário."
O grupo continuou pela rua lateral de onde ela emergira, chegando a outro pátio. Este era maior que o primeiro e mais isolado. Pesquisadores em trajes de proteção, marcados pelos sigilos de Izzet e Simic, corriam de um lado para o outro, apontando dispositivos incompreensíveis para uma porta comum. Uma tenda fora montada nas proximidades, onde a Andarilha estava sentada com Proft, Yoshimaru e uma menina desconhecida que Kaito supôs ser Aminatou. Era estranho ver uma criança de verdade ali, mas ele já vira muitas coisas estranhas antes.
A Andarilha levantou-se quando se aproximaram, saindo da tenda para se juntar a eles. "Está na hora?", perguntou ela.
"Sim", disse Niv-Mizzet. "Venham."
Aminatou seguiu atrás dela, com Yoshimaru logo atrás, e Niv-Mizzet liderou o grupo através da multidão de pesquisadores até a porta. Placas a cercavam, declarando "PERIGO" e "MANTENHA DISTÂNCIA" em dezenas de idiomas, dos quais Kaito reconhecia apenas alguns. Niv-Mizzet gesticulou grandiosamente para a porta. "É por isso que estamos aqui", disse ele com importância sonora.
Tyvar franziu a testa. "Isto?", perguntou ele. "Mas é apenas uma porta."
De fato, não havia nada visivelmente especial na porta, que era feita de cerejeira tingida e decorada com um desenho intrincado de mariposas e galhos entalhados. Parecia perfeitamente inócua, não irradiando magia hostil nem nada do tipo.
E, no entanto, Aminatou arquejou e recuou quando seus olhos fixaram-se na porta. Por um momento, seu medo e repulsa fizeram-na parecer mais jovem do que sua idade real, como uma criança aterrorizada que não tinha nada que estar ali naquela situação. A Andarilha deu-lhe um tapinha tranquilizador no ombro, e Aminatou recuou contra ela, Yoshimaru postando-se à sua frente como que para defendê-la da porta.
"Ela nos ouve", sussurrou Aminatou. "Cuidado com suas palavras, ou ela conhecerá nossos planos."
Aquela era uma ideia perturbadora, pensou Kaito.
"Venham comigo", disse Niv-Mizzet. Ele os levou de volta um pouco, até a tenda. Foi um aperto com o dragão entre eles, mas conseguiram, espremendo-se em uma proximidade desconfortável.
"É um Caminho do Augúrio?", perguntou Niko.
Um homem em um longo casaco marrom, que se juntara a Etrata durante o retorno da porta, zombou. "Não tem nenhuma das marcas de um Caminho do Augúrio. Se for um, é inteiramente único. Nunca vimos nada parecido."
"Temos gravações do interior, Sr. Proft", disse Zimone, antes que Niko pudesse reagir ao tom do homem. "Os drones de Nashi enviaram as imagens antes de falharem. É uma casa."
"Uma casa?", perguntou Kaito.
Ela assentiu. "Apenas uma casa, perfeitamente normal, se precisasse de um bom serviço de limpeza. Um pouco decadente, possivelmente abandonada, e dotada de alguns ângulos muito estranhos. Acho que o espaço está distorcido lá dentro, de alguma forma." Ela fez uma pausa e então sorriu. "Mal posso esperar para ver mais de perto."
Kaito encontrou os olhos de Tyvar e assentiu. Esta era a pesquisadora que ele previra que Niv-Mizzet infiltraria entre eles. "Tudo bem, Senhorita Zimone", disse ele. "Mas não me sinto inteiramente confortável com Aminatou se juntando a nós, dada a sua idade."
"Eu não posso", disse Aminatou. "O que espera por vocês do outro lado daquela porta seria infinitamente mais perigoso se conseguisse colocar as mãos em mim. Não. Eu fico aqui. É aqui que vocês precisam de mim. É aqui que eu os ajudo."
"Como?", perguntou Niko.
Aminatou olhou para eles calmamente. "Sinto muito, chamado pelo destino; eu entendo por que você me odeia. Mas minha magia e a magia da casa se repelem, como a água repele o óleo. Por causa disso, posso enviá-los através da porta com mutadores de destino." Ela fez uma pausa.
"O que são esses?", perguntou Zimone.
Aminatou deu de ombros. "Fetiches, na verdade. Explosões do meu poder em forma física. Eles podem ser usados para evitar fins horríveis."
Niko endireitou-se, a raiva colorindo suas feições. "O quê?", exigiram. "Você pode fazer isso? Nossas vidas são apenas peças de jogo para você?"
A raiva deles pareceu saltar para Tyvar, embora não tão intensamente: "Se você tem o poder de nos mostrar essas respostas, por que nos deixou marchar contra Phyrexia sem elas? Por que perdemos tantos dos nossos em uma luta da qual você poderia ter nos poupado?"
"Porque não é assim que meu poder funciona", disse Aminatou. "Já foi difícil o suficiente fazer estes. Quando vocês fizerem uma escolha que levaria à sua morte certa, todos por perto que tiverem um fetiche verão o resultado, sentirão como se fosse real e então voltarão ao momento anterior à decisão, dando-lhes a chance de tomá-la novamente. Mas a visão é curta — não mais que um minuto — e só funciona uma vez para cada pessoa. Mesmo antes de minha centelha me deixar, meu poder não era sem limites. Não vou forçá-los a aceitá-los. Eu não tiro as escolhas das pessoas assim. Mas, se recusarem minha ajuda, pelo menos um de vocês não voltará. Isso é certo."
O grupo trocou olhares. Finalmente, a Andarilha deu um passo à frente.
"Somos gratos por sua ajuda", disse ela. "Apenas os tolos recusam ajuda dada livremente."
"Então peguem estes", disse Aminatou. Ela buscou em uma bolsa em sua cintura e retirou um punhado de figuras rudemente entalhadas, nenhuma maior que seu dedo indicador, e cada uma moldada para dar a vaga impressão do rosto e da forma de uma pessoa. Ela as distribuiu entre os membros da equipe, dando à Andarilha uma segunda. "Para o seu amigo."
"Obrigada", disse a Andarilha. "Você cuidaria do Yoshimaru para mim? O perigo não é lugar para um companheiro tão querido e leal."
Kaito, que pretendia caminhar com ela em direção ao perigo, levantou uma sobrancelha e nada disse.
"Peguem estes", disse Etrata, pegando um dispositivo quadrado de uma pilha de semelhantes e oferecendo-o a Niko. "Eles monitorarão as energias na casa e nos ajudarão a construir uma ideia melhor do que a torna tão diferente."
Um a um, eles pegaram os dispositivos de monitoramento e se aproximaram da porta. Ela se abriu quando a Andarilha estendeu a mão para a maçaneta. Do outro lado havia um saguão, algum tipo de corredor, mas vislumbrado através de uma membrana de uma estranha energia azul difusa. Um a um, o grupo entrou.
A última coisa que qualquer um deles viu antes de a porta se fechar com estrondo foi Aminatou, com uma mão agarrada aos pelos de Yoshimaru, parada com Etrata, Proft e Niv-Mizzet enquanto os observava partir. Eles pareciam estar muito mais longe do que deveriam estar. Então a porta se fechou, e a Mansão era tudo.
Arte de: Borja Pindado
19/08/2024 | Por Mira Grant
Bem-vindo ao Lar
Bem-vindos, atormentados — quero dizer, honrados — convidados. Ouvi a comoção que vocês estavam fazendo na sala de estar e esperava que chegassem até mim antes de se desentenderem com alguns de nossos residentes menos... civilizados. Estamos aqui há tanto tempo, vejam bem, e só recentemente conseguimos encontrar portas para qualquer outro lugar. Os modos se desgastam após muito tempo em isolamento, não acham?
Os meus também, ao que parece. Por favor, sentem-se. Vocês estão seguros aqui, por enquanto. Não posso prometer quanto tempo essa condição durará — a segurança é algo temporário aqui em Duskmourn — mas posso prometer-lhes o tempo de que precisam para recuperar o fôlego. Descobrirão que isso é melhor do que qualquer outra pessoa está oferecendo agora. Por favor, descansem.
Esta é minha sala de jantar. Eu a reivindiquei e a defendo dos outros residentes, e eles aprenderam a me deixar em paz, se souberem o que é bom para eles. Esta parte da casa é chamada de Porão das Caldeiras. Peço desculpas pelo calor. Diminuí-lo é impossível, mas, como poucos permanecem aqui tempo suficiente para sentir quaisquer efeitos negativos, é uma pequena complicação em um mundo feito delas.
Arte de: Ralph Horsley
Um mundo? Sim. Duskmourn. Oh, vocês achavam que esse nome se referia à Mansão? Sim, refere-se. A Mansão é o mundo, o mundo é a Mansão, e a palavra para ambos é Duskmourn, o luto do sol escapando de suas mãos, a chegada do frio e da tristeza.
Ah, nem sempre foi assim. Outrora, este era um plano como qualquer outro, seguro e perigoso, acolhedor e hostil. Tinha montanhas e mares, cidades e costas. Há imagens em alguns dos livros, se conseguirem encontrar uma biblioteca. Acredito que era belo.
Mas as pessoas estavam descontentes. A magia era um recurso escasso, controlado por pouquíssimos, e outros ansiavam pela facilidade que ela poderia trazer, pela maneira como poderia suavizar as arestas no gesso da vida. Buscaram encontrar formas de dominar o poder para si mesmos e, para seu grande e eventual arrependimento, encontraram-no.
As pessoas do que se tornou Duskmourn aprenderam a arte de invocar criaturas do vazio sem vida, seres de fome e força bruta. Não eram necessariamente maus, mas eram vorazes. Alimentavam-se de contratos e consentimento. Ansiavam por um convite e nada podiam fazer sem que ele fosse oferecido. Foi pequeno no início: criaturas para permitir que máquinas estranhas funcionassem, para facilitar vidas, para acender luzes e conservar alimentos. Talvez, se tivessem parado ali, Duskmourn pudesse ter sido um paraíso. Um paraíso construído sobre a inanição do vazio, mas um paraíso da mesma forma.
Mas, infelizmente, a ganância é um fato da vida inteligente, e as pessoas começaram a invocar seres cada vez maiores, sem nunca pensar no que aconteceria se esses seres se libertassem. E então, um dia, algo grande demais para ser controlado foi aprisionado aqui em uma casa perfeitamente comum nos arredores de uma cidade perfeitamente comum. Mesmo assim, as coisas poderiam ter sido muito diferentes. Mas alguém encontrou a criatura — o demônio, se preferirem — e quando ela lhe ofereceu um contrato, aceitaram. Pagaram seu preço, e ela estava finalmente livre para se alimentar.
Duskmourn nasceu de uma invocação, de um aprisionamento e de um contrato, de um massacre, de uma traição e de uma consequência. Este lugar tornou-se inevitável quando a primeira pessoa clamou por algo que não compreendia. A criatura fez o que foi feita para fazer. Consumiu, e manteve seu acordo. A Mansão estava segura. A Mansão foi preservada.
A Mansão era um cadáver inchado engolindo o resto do mundo, até que não houvesse mais nada para comer, e tudo o que restasse fosse a própria Duskmourn e os sobreviventes em suas paredes, como ratos.
Então, algo mudou. Não sabíamos o quê, apenas que, de repente, a Mansão podia abrir novas portas, em novos lugares. Podia estender a mão em busca de companhia onde antes não havia nenhuma. Podia banquetear-se com carne que não era nossa.
Oh, sim, é difícil levantar-se depois de ficar sentado por muito tempo. As cadeiras tendem a segurar o que lhes é dado, vejam bem, e vocês se sentaram voluntariamente. Contratos e consequências. Mas vocês recuperaram o fôlego há algum tempo, e essa foi toda a segurança que prometi.
A Mansão está faminta, vejam bem. E se eu conseguir convencer as pessoas a não lutarem contra ela por tempo suficiente para que ela dê as primeiras mordidas, ela me deixa manter meu pequeno espaço e meu pequeno fingimento de liberdade. Eu não quero morrer. Suponho que ninguém queira, mas fui astuto o suficiente para aprender a sobreviver aqui dentro, enquanto vocês parecem ter perdido essa lição em qualquer mundo de onde vieram. Deve ter sido muito mais gentil lá.
Deve ter sido menos faminto.
Mas eu ainda não tinha terminado, tinha? O que resta dizer? Duskmourn acordou, e Duskmourn sentiu fome, e cresceu para engolir todos aqueles outros pedaços do vazio, mantendo-os seguros dentro de suas paredes, todos aqueles pequenos apetites, comendo e comendo e nunca saciados. Eles servem à Mansão. Depois de tanto tempo, eles são a Mansão. Assim como vocês serão, em breve.
Oh, não gritem. É tão cansativo, e estávamos tendo uma conversa tão agradável antes de tudo isso começar. Mas se precisarem, que assim seja, e suponho que seja sua prerrogativa.
Duskmourn gosta do som de gritos.
Agora, então. É tão gentil da parte de vocês ficarem para o jantar. Mas fico encantado em dizer que não me juntarei a vocês por enquanto. Enquanto eu puder continuar alimentando meu salão de jantar, ele não sentirá a necessidade de se alimentar de mim. Então, é aqui que nos despedimos, suponho, a menos que seu fantasma volte para repetir o prato.
Estarei esperando, se ele voltar.
20/08/2024 | Por Mira Grant
Episódio 2: Não Dividam o Grupo
O corredor parecia não ter sido limpo há anos, teias de aranha sufocando os cantos e fuligem manchando o papel de parede desbotado. Cada passo levantava uma pequena nuvem de poeira de um tapete esfarrapado enquanto o grupo de resgate caminhava por ele, movendo-se com cuidadosa precisão tática. Kaito liderava o grupo, com a Imperatriz Errante logo atrás. Ambos estavam com suas espadas desembainhadas e prontas, olhos vasculhando o corredor em busca de sinais de Nashi. Zimone os seguia, seus próprios olhos fixos em um dos scanners de Niv-Mizzet, que ela agarrava com as duas mãos como algum tipo de estranho cobertor de segurança tecnológico. Tyvar e Niko fechavam a retaguarda, ambos preparados para algo saltar sobre eles.
Himoto emitiu um som de trinado e girou no ombro de Kaito, olhando para trás pelo caminho de onde vieram. O restante do grupo parou para ver o que ela estava olhando — todos exceto Zimone, que continuou caminhando com os olhos na tela e parou apenas quando esbarrou na Imperatriz Errante.
"— Hein? — ela perguntou, olhando para cima e piscando como uma coruja.
"— A porta sumiu — disse Kaito.
"— Isso é ridículo. Portas são estruturas estáticas, elas não podem simplesmente... — Zimone virou-se e fez uma pausa. — A porta sumiu.
"— Pisemos com cuidado daqui em diante, amigos — disse Tyvar. — Predadores que se escondem para caçar são mais perigosos do que aqueles que vêm diretamente até você.
Eles retomaram sua jornada pelo corredor, caminhando com ainda mais cuidado do que antes. O corredor se alargou em uma espécie de sala de estar, o papel de parede desbotado dando lugar a um veludo descascado com padrões de mariposas de asas largas destacadas em verde e cinza contra o fundo rosa pálido. Cada mariposa tinha múltiplos ocelos em suas asas, criando uma sensação perturbadora de estar sendo observado. Mais corredores ramificavam-se a partir dali, aberturas adornando cada parede, e quadrados mais pálidos nas paredes mostravam onde quadros haviam caído ou sido removidos.
Zimone franziu a testa, olhando de seu monitor para a sala e vice-versa. — Um dos drones de Nashi continuou transmitindo até o final do corredor — disse ela. — Esta não é a mesma sala que ele registrou. Como isso é...?
"— Os labirintos mais perigosos podem se rearranjar quando deixados por conta própria — disse Niko. — Nada diz que eles são exclusivos de Theros.
Kaito assentiu. — Não sabemos se ela só pode se mover quando ninguém está olhando. Ficaremos bem juntos. Alguém deve ser capaz de ver você o tempo todo, entendido?
"— Sim — disse Niko.
Himoto trinou.
Mantendo-se unidos e nunca virando as costas uns para os outros, o grupo começou a explorar a sala, procurando por algum sinal de que Nashi estivera ali — ou de que alguém estivera ali, na verdade.
Kaito moveu-se para o centro da sala, respirando fundo. — Me vigia? — ele perguntou à Imperatriz Errante. Quando ela assentiu, ele fechou os olhos.
Seu treinamento envolveu aprender mais do que ele consideraria possível sobre o movimento do ar. Braço-Veloz fora insistente de que entender o espaço tornaria mais fácil para esse espaço ser explorado para atender às necessidades de um guerreiro. Sob sua tutela, Kaito aprendera como entrar em uma sala e sentir, pela maneira como o ar se movia contra sua pele, se ele era o primeiro a perturbá-lo recentemente ou se estava caminhando logo atrás de alguém que havia escapado por outra porta.
Esta sala parecia o salão central da academia, o ar tão perturbado e distorcido que se movia em todas as direções ao mesmo tempo, nunca assentado, nunca parado. Kaito franziu a testa e abriu os olhos, encontrando a Imperatriz Errante observando-o atentamente, a não mais que alguns metros de distância.
"— Não sei se Nashi esteve aqui recentemente, mas alguém esteve — disse ele. — O ar está todo bagunçado.
"— O... ar? — perguntou Niko.
Zimone, enquanto isso, assentiu entusiasticamente. — É um fenômeno bem documentado. Você nunca entrou em uma sala e teve a certeza absoluta de que acabou de perder alguém?
Niko assentiu, de forma mais relutante. — Sim.
"— E você não costuma estar certo quando se sente assim? Bem, isso é porque seus instintos estão sintonizados com a presença de perigo em um nível que a mente consciente normalmente não consegue acessar. Eles podem dizer, pela maneira como o ar atinge sua pele, se ele foi perturbado recentemente. Algumas pessoas podem aprender a ler esse sentido em um nível consciente. Mas é muito incomum. Requer muito treinamento.
"— Esse é o nosso Kaito — disse Tyvar alegremente. — Mestre da sutileza.
"— Então por que eu gosto de você mesmo?
"— Porque nossos inimigos ficam tão preocupados com meu brilhantismo que isso torna seu trabalho mais fácil — disse Tyvar.
Zimone piscou para ele.
"— Ele é mais esperto do que aparenta — disse Kaito. — Mas sutil, ele não é.
"— Então alguém esteve aqui agora pouco — disse Niko. — Tentamos segui-los?
"— Isso pode ser imprudente — disse a Imperatriz Errante, pegando uma moldura que fora empurrada para trás de várias jarras de cerâmica vazias. A imagem que continha parecia impressa em vez de pintada, mostrando uma família de três — homem, mulher e uma filha adolescente — todos voltados para o pintor original. Os rostos dos adultos haviam sido riscados, reduzidos a crostas brancas no papel, enquanto a filha continuava a sorrir serenamente para as pessoas na sala. Com cuidado, a Imperatriz Errante colocou a imagem de volta na prateleira.
"— Não sei se queremos encontrar as pessoas que vivem aqui — disse Zimone.
Niko deu um passo à frente. — Quando fazíamos exercícios de labirinto em Theros, buscávamos em um padrão para nos certificar de que não perderíamos nada. Viramos à direita e continuamos seguindo à direita até e a menos que acabemos de volta onde começamos. Assim nunca nos perdemos, e sabemos o que ainda não olhamos.
"— Não queremos encontrar os locais, mas queremos encontrar Nashi — disse Kaito.
"— E queremos obter o máximo de dados possível para a equipe de pesquisa — disse Zimone, apontando seu monitor para o quadro. Ele apitou, aparentemente gravando algo, e ela deu um aceno satisfeito. — Curva à direita? Esta tática condiz com uma lógica fractal simples.
"— Fico feliz em ter sua aprovação — disse Niko, e indicou a porta à direita deles. — Por aqui.
Eles começaram a caminhar. O restante do grupo os seguiu, Kaito tenso enquanto esperava que a Mansão se transformasse novamente, ainda perturbado pela sensação do ar contra sua pele. A sala não parecia desocupada quando entraram, e não parecia desocupada agora. Todo o seu treinamento dizia que ele estava deixando um inimigo às suas costas.
Ainda assim, ele continuou andando.
Seguir a rota de Niko pela Mansão os levou através de um amontoado sem sentido de cômodos, conectando-se uns aos outros sem rima nem razão, cozinhas levando a quartos, quartos levando a estufas. Uma sala ecoante parecia ter sido construída para conter uma piscina interna que ainda estava meio cheia de água escura e turva, sua superfície florescendo com algas e lírios-d'água amplos e improváveis. Suas flores eram de um branco rosado arroxeado, como a carne de um marinheiro afogado, e Niko estremeceu ao olhar para elas, desviando o rosto.
Isso era o mais distante dos mares cor de vinho de Theros que podiam imaginar, e eles haviam visto muito durante suas viagens — sua imaginação era vasta.
Mal ampla o suficiente para abranger o próximo cômodo, que ficava além de um conjunto de portas de vidro altas com mariposas trabalhadas em suas molduras de metal. No vasto espaço do outro lado, um parque de diversões abandonado surgia acima de um campo de milho farfalhante e não colhido, espigas penduradas pesadamente em seus caules e apodrecendo onde caíam. O parque de diversões guardava pouca semelhança com os jogos itinerantes de Theros, mas as semelhanças eram suficientes para fazer com que as tendas e construções rudimentares de madeira e aço fizessem sentido. Nada se movia ali, exceto o vento.
"— Encontramos uma saída — disse Kaito, começando a dar um passo à frente. Zimone segurou seu braço. Ele parou para olhar para ela, e ela apontou para cima, para o céu sem luz.
"— Olhem — disse ela, e invocou uma pequena equação fractal, a matemática tornada mágica e manifesta. Ela saltou de sua mão, derramando luz azul e verde enquanto pairava no ar a alguns metros acima de suas cabeças.
A luz que ela emitia não era muita, mas brilhava em vidraças distantes, tornando óbvio que mesmo aquele lugar impossível era parte da Mansão. O farfalhar do milho pareceu subitamente sinistro. Se estivessem em um ambiente interno, não poderia haver brisa, e sem brisa, por que ele estava se movendo?
"— Vamos voltar — disse a Imperatriz Errante com firmeza.
"— Mas... — começou Niko.
"— Nós vamos voltar — ela repetiu.
"— A realeza fala em comandos, e os plebeus respondem em ação — disse Tyvar, de forma bastante amigável, e o grupo se afastou das formas imponentes e terríveis das diversões desertas, voltando para a sala com a piscina.
"— De onde eu venho, elegemos nossos líderes — resmungou Niko, e Tyvar riu.
A água não parecia menos perigosa em sua visita de retorno, e não menos provável de arrastar para o fundo qualquer um que chegasse perto demais. Mantendo-se próximos à parede, eles continuaram, voltando através de uma porta que deveria tê-los levado a uma despensa cheia de potes meio vazios e cestos de raízes apodrecendo. Em vez disso, encontraram-se atravessando um salão de baile ecoante, candelabros emaranhados em teias de aranha balançando no alto e rachaduras desenhando as janelas.
"— Ainda nenhum sinal de Nashi. — Kaito parou, olhando para as janelas. — Talvez uma vista do telhado fosse útil?
"— Não — disse a Imperatriz Errante, com absoluta firmeza. Kaito virou-se, com as sobrancelhas erguidas. Ela balançou a cabeça. — Foi você quem percebeu que tínhamos que permanecer sempre visíveis uns para os outros. Nenhum de nós seria capaz de segui-lo.
"— Eu talvez consiga — disse Niko.
"— Eu não confiaria em um 'talvez' em um lugar como este — disse a Imperatriz Errante.
"— Não importaria de qualquer maneira — disse Zimone. Eles se voltaram para ela. Ela havia pendurado seu monitor no quadril e produzido um caderno de papel de dentro de seu colete, o lápis movendo-se rápido enquanto ela escrevia seus cálculos. — A arquitetura deste lugar não faz sentido. Alguns dos ângulos medem de forma diferente dependendo se você os olha da esquerda ou da direita. Se você subisse até as janelas acima de nós, seria tão provável sair em um porão ou em um sótão — e você ainda estaria dentro da Mansão de qualquer maneira.
Tyvar zombou. — É apenas uma casa. Quão grande pode ser?
"— Grande — disse a Imperatriz Errante. Coletivamente, eles voltaram a atenção para ela. Ela pressionou uma das mãos contra a têmpora, balançando a cabeça. — Este lugar é... eu não posso mais caminhar pelos planos, mas ainda posso senti-los, da mesma forma que sentia quando me puxavam através das Eternidades Cegas sem o meu consentimento. Este lugar está errado . Parece encapsulado, como uma mariposa presa em âmbar, e apodrecendo por dentro. Não tenho certeza se resta algo do que um dia esteve aqui, exceto a Mansão.
"— Existem alguns fungos que engolem encostas inteiras se permitirem que cresçam sem controle — disse Tyvar, incerto.
"— Sim, como isso — disse a Imperatriz Errante. — Isso parece uma casca envolvendo tudo o que resta do que um dia foi, e temo que não tenha limites. Devemos voltar para onde perdemos a porta de volta para Ravnica e ver se não conseguimos encontrar uma maneira de abri-la novamente.
"— A porta desapareceu — disse Niko.
"— Somos bem espertos — disse Zimone. — Coletivamente, quero dizer. Aposto que podemos descobrir como fazer a porta voltar.
"— Então, vamos retroceder — disse Kaito. — Por aqui.
Eles começaram a se mover, mas haviam dado apenas alguns passos antes que alguém gritasse, mais fundo na Mansão, além de uma das portas à esquerda que eles vinham ignorando durante seu progresso metódico. Tyvar ficou alerta como um cão de caça ouvindo a trompa de um caçador. A voz gritou novamente.
"— SOCORRO ME AJUDEM OH DOCES SÓIS ME AJUDEM ! — uivou.
A fina coleira de Tyvar em seus próprios impulsos heróicos arrebentou, e ele saiu correndo, gritando: — Não temam! Eu irei salvá-los!
Os olhos de Zimone se arregalaram. Anos lidando com calouros Prismari impulsivos haviam refinado seus reflexos ao máximo. Quando alguém corria em direção ao perigo, muitas vezes cabia a ela puxá-los de volta, para que ainda estivessem vivos para puxar ela de volta quando ela começasse a vagar em direção ao perigo de uma maneira mais acadêmica. Ela correu atrás de Tyvar.
"— Volte! — ela gritou. — Tyvar, volte! Temos que ficar juntos! — Algo se estilhaçou no batente da porta ao lado de sua cabeça enquanto ela passava correndo, e então o salão de baile sumiu, e restavam apenas ela, Tyvar e o som de gritos.
Do outro lado da porta havia um corredor vazio. Não havia ninguém lá. Ninguém em perigo, ninguém gritando, apenas Tyvar, diminuindo o passo em confusão ao registrar a ausência de alguém precisando de resgate. Zimone o alcançou, colocando a mão em seu cotovelo.
"— Temos que voltar — disse ela.
"— Mas eu ouvi...
"— Todos ouvimos. Acho que a Mansão está pregando peças. — Ela olhou para trás por cima do ombro e então congelou, empalidecendo. — Isso, ou ela nos ouviu dizer que não queríamos dividir o grupo e pensou que tornaria a decisão mais fácil para nós.
"— Casas não pensam — disse Tyvar, rindo levemente enquanto se virava para seguir o olhar dela.
"— É, bem, aparentemente nem príncipes elfos pensam, porque aqui estamos nós — disse Zimone.
Atrás deles, onde a porta de volta para o salão de baile deveria estar, havia uma parede, forrada com papel azul desbotado e com o padrão de mais daquelas mariposas onipresentes e cada vez mais sinistras. Estas tinham caudas longas e curvas em suas asas traseiras, dando a impressão de que estavam derretendo no papel.
Tyvar deu um passo cauteloso à frente, estendendo a mão para tocar o papel de parede com as pontas dos dedos. Ele recuou assim que fez contato, fazendo uma careta. — Sólido — disse ele, olhando para Zimone. — O que fazemos agora?
Zimone balançou a cabeça. — Não sei. Mas vamos precisar descobrir.
"— Eu achei que você nunca errava! — disse Kaito, virando-se para Niko, que olhava para as próprias mãos em confusão. — Por que seu fragmento não a parou?
"— Eu... eu não erro — disse Niko. — Eu nunca erro.
"— E você não errou — disse a Imperatriz Errante. — O batente da porta se moveu quando Tyvar passou por ele. Não muito, mas o suficiente para desviar sua mira. Zimone já estava correndo, ela se ajustou sem pensar. Isso foi uma armadilha.
"— Como uma casa arma uma armadilha? — perguntou Kaito.
"— Não sei, mas tenho a sensação de que não temos muito tempo para descobrir.
Kaito havia partido atrás de Zimone assim que a garota começou a correr e agora estava parado a alguns metros de distância dos outros, sozinho em um mar de azulejos de mármore desbotados. Ele franziu a testa. — Eles vão voltar. Eles têm que voltar.
"— Têm? — perguntou Niko.
"— Eu confio em Tyvar.
"— O homem que acabou de correr para o perigo certo na primeira desculpa? — Niko balançou a cabeça. — Eu o vi tentar uma queda de braço com um gigante uma vez, porque ele achou que daria uma boa história. Ele pode não adorar Birgi, mas é um dos dela, sem dúvida. Eu gosto dele, mas confiar nele? Para escolher a segurança em vez da glória? Acho que não.
A porta permaneceu vazia.
"— Eu acho... — Kaito mordeu brevemente o interior da bochecha. — Eu acho que vamos atrás deles. Eles não podem ter ido muito longe.
"— Precisamos ficar juntos — disse a Imperatriz Errante.
Kaito virou-se para lhe dar um sorriso brilhante e convencido. — É por isso que eu disse 'nós', não foi?
Ele deu um passo em direção à porta.
O chão onde ele pisou abriu-se como a boca de uma lampréia, larga e circular e rodeada por dentes irregulares voltados para baixo. Kaito caiu, mal conseguindo cravar sua espada na fresta restante do chão antes de sumir completamente de vista. A Imperatriz Errante lançou-se em sua direção, gritando seu nome enquanto estendia a mão. Ele retribuiu o gesto, e as pontas de seus dedos quase se tocaram antes que o buraco no chão se alargasse ainda mais, desalojando sua espada, e Kaito caiu na escuridão, sendo os olhos de Himoto a única luz que rastreava sua descida.
Arte por: Billy Christian
A Imperatriz Errante tencionou os músculos como se fosse pular atrás dele, parando apenas quando Niko agarrou seu pulso. Ela olhou para trás para eles, incrédula, e eles balançaram a cabeça.
"— Não — disseram. — Nem mesmo pelo Kaito. Ele é o único de nós que consegue sair por conta própria. Ele vai dar um jeito.
Desesperada, ela olhou de volta para o buraco e descobriu que ele também havia sumido, substituído por um chão liso como se nunca tivesse existido. Ela arrancou o braço do aperto de Niko e caiu de joelhos, encarando o azulejo liso.
"— Mas ele está sozinho — disse ela. — Ele está sozinho nesta casa, onde tudo está errado e tudo está apodrecendo.
"— Então, nós o encontraremos — disse Niko, oferecendo-lhe a mão para levantar.
A Imperatriz Errante olhou para a mão estendida por um momento, inexpressiva, então a pegou e permitiu-se ser puxada de volta para cima.
"— Então, encontraremos todos eles — disse ela.
Tyvar martelou na parede com ambos os punhos, causando um estrondo terrível e trazendo cascatas de poeira da moldura no topo das paredes.
"— Kaito! Niko! Espadachim muito agradável sem nome! — ele gritou. — Conseguem nos ouvir?
"— Acho que não conseguem — disse Zimone. Ela estava com seu monitor fora novamente e estava de costas para a parede. — Tyvar...
"— O quê?
"— Problema.
"— Sinto que temos desses de sobra — disse ele, e virou-se.
Eles não estavam mais em um corredor. Ele havia sido substituído por uma biblioteca massiva e imponente de pelo menos três andares de altura, o teto acima deles aberto em uma espécie de formato de pátio central para mostrar os níveis acima. Grades de ferro forjado moldadas em asas de mariposa e galhos espalhados cercavam cada camada da abertura, presumivelmente para evitar que as pessoas caíssem para a morte. As paredes estavam repletas de prateleiras, cada uma gemendo sob o peso de livros empoeirados espremidos até que não sobrasse espaço.
"— Ela muda quando nenhum de nós está olhando — disse ele.
"— Sobreposição quântica — ela respondeu. Diante do olhar vago de Tyvar, ela explicou: — É o efeito do observador. É válido na física. Em algumas formas de magia, também. Algumas interpretações da Conjectura Vorzani dizem que o próprio Multiverso busca observação, na forma de pessoas capazes de vê-lo de múltiplas direções ao mesmo tempo — eu ainda não provei isso, mas eu postularia que isso é parte do motivo pelo qual a abertura de conexões entre os planos foi acompanhada por uma diminuição correspondente no número de pessoas que podem viajar por eles sob seu próprio poder. O Multiverso pode permanecer estável e observado sem esse investimento de recursos.
Tyvar não pareceu menos confuso.
Zimone suspirou. — Não pode mudar se estivermos olhando. Ou pelo menos não tanto.
"— Entendo. — Ele olhou de volta para a parede, aliviado por descobrir que ela ainda estava lá, não substituída por uma estante ou outro corredor interminável. — Existe alguma razão para pensar que esta parede é de suporte de alguma forma?
"— Não que eu possa ver — disse Zimone. — Por quê?
Em resposta, a pele de Tyvar ondulou, assumindo o brilho de madeira de lei do chão sob seus pés, e ele recuou o braço, golpeando a parede com o punho com força suficiente para enviar fraturas correndo pela madeira sob o papel de parede.
"— Ah — disse Zimone. — Violência.
Ela provavelmente deveria ficar e observá-lo lutar contra a parede. Ela sabia disso. Olhar para o lado era arriscar perdê-lo. Mas o som dele socando seu caminho para dentro do corpo da Mansão era alto e consistente o suficiente para que ela não estivesse particularmente preocupada com ele desaparecendo sem deixar rastros: às vezes ser o equivalente élfico de um movedor de pedras de Sapientia tinha suas vantagens. Então ela se virou e começou a vasculhar as prateleiras ao redor deles, tomando nota dos títulos que via representados ali, buscando padrões.
Houve um estrondo poderoso seguido pela declaração jubilosa de Tyvar: — Eu passei! E há uma escadaria do outro lado!
Zimone estalou os dedos, desenrolando uma espiral de energia em cascata. — Leve uma extremidade disso com você — disse ela, empurrando-a em direção a ele. — Eu ficarei com a outra e, com sorte, isso significará que não nos perderemos.
Ela deveria ir com ele. Ela sabia disso. Mas os livros — o conhecimento perdido de um plano inteiro, por mais perigoso que fosse, não era algo do qual ela pudesse se afastar facilmente. Segurando firmemente a ponta de sua fita de luz fractal, ela se aproximou da prateleira mais próxima, tentando decidir por onde começar.
Tyvar franziu a testa um pouco ao pegar a ponta do fio de Zimone, observando-a se aproximar dos livros. Ele reconhecia uma isca quando via uma. Muitos monstros as usavam para capturar suas presas. Dê a aparência de doçura e algo verdadeiramente desejado, e eles poderiam pegar coisas espertas demais para serem capturadas.
"— Zimone...
"— Apenas volte rápido. Há algo sobre a maneira como os andares estão dispostos aqui que me faz pensar que você não ficará fora por muito tempo.
Tyvar piscou. Então deu de ombros, voltando-se para as escadas. Ele havia tentado. Exceto por pegar a jovem no colo e carregá-la com ele, ou permanecerem presos onde estavam, ele realmente não via outra opção.
Ele amarrou o fio fractal em seu pulso, então passou pelo buraco que abrira na parede e começou a subir. As paredes da escadaria eram decoradas com retratos pintados de pessoas comuns, humanos e elfos, que se tornavam mais distorcidos e errados à medida que ele avançava. Dentes se transformavam em presas, mãos em garras e sorrisos tornavam-se largos demais para os rostos que os exibiam, até parecer que suas cabeças deveriam se partir em duas. Tyvar estremeceu e continuou caminhando.
Depois de Phyrexia, qualquer coisa que distorcesse o corpo sem o convite de seu dono transcendia o horror, tornando-se uma violação da ordem natural das coisas. É verdade que essas pessoas poderiam ter buscado suas transformações, mas havia um desespero brilhante em seus olhos pintados que o fazia pensar que elas não haviam feito tal coisa. Ele caminhou através de uma galeria de pesadelos e ficou satisfeito quando viu uma porta à frente no próximo patamar. Ele caminhou mais rápido.
O fio em volta de seu pulso se estendia para acompanhá-lo e, como não recuou para flutuar inutilmente contra sua pele, ele presumiu que Zimone ainda segurava sua ponta, segura na biblioteca que parecia ser seu ambiente natural. Tyvar continuou caminhando, passando pela porta e entrando em um corredor estreito entre estantes pesadamente carregadas. Elas estavam repletas de livros empoeirados e apertados. Ele estava de volta à biblioteca.
Seu estômago afundou. Ele continuou até o final do corredor, onde ouviu a voz de Zimone chamar: — Psst, Tyvar! Aqui!
Ele olhou para a esquerda. Lá estava Zimone, com a outra ponta do fio amarrada ao próprio pulso, acenando vigorosamente com a mão livre. Ele caminhou em direção a ela, desanimado.
"— Temo que possamos estar em perigo terrível, amiga Zimone — disse ele.
Ela assentiu. — Acho que você provavelmente tem razão. Venha me ajudar a mover a escada do arquivista. Preciso chegar às prateleiras de cima.
Ela puxou o fio, que se dissolveu em luz cintilante ao cair, e caminhou mais fundo na biblioteca. Não querendo perdê-la de vista novamente, Tyvar a seguiu.
Niko e a Imperatriz Errante tentaram refazer seu caminho através da mansão transformada e sempre mutante, fazendo as curvas que correspondiam às que haviam feito antes, movendo-se com um propósito sombrio através de cômodos sinistros e desconhecidos. Durante toda uma série de salas de estar e quartos luxuosamente decorados, o ar estava tão quente que suas roupas se tornaram quase insuportáveis, deixando-os miseráveis e suados. Isso foi seguido por um longo corredor com paredes de vidro que parecia ter sido construído para uma grande estufa real, uma passagem para os jardineiros usarem em seus trabalhos diários. Mas do lado de fora daquelas paredes de vidro não havia nenhum jardim verde, mas um mundo afogado de salas inundadas, cheias de móveis apodrecidos e flutuantes, e livros inchados que boiavam de um lado para o outro em correntes impossíveis.
"— Vou assumir uma postura ousada e dizer que não gosto daqui — disse Niko. — É bem horrível, na verdade.
A Imperatriz Errante esboçou um leve sorriso — o primeiro desde o desaparecimento de Kaito. — Acho que você encontrará concordância geral para essa posição.
"— Sinto muito pelo seu amigo. — Niko fez uma pausa e então acrescentou: — Aquele que viemos procurar.
"— Nashi, sim. A mãe dele era muito querida por mim, e devo à família dele uma grande dívida. Ela morreu na invasão.
"— Sinto muito em ouvir isso.
"— Eu senti muito em matá-la.
Niko balançou a cabeça. — Se ela morreu na invasão, você não a matou. Phyrexia matou. Você apenas garantiu que o serviço fosse concluído.
A Imperatriz Errante suspirou. — Se eu pudesse acreditar nisso, talvez dormisse mais tranquila. Devo minha vida ao povo de Kamigawa, e ela estava entre os melhores deles. Ela pode ter morrido pelas mãos de Phyrexia, mas vimos alguns perdidos daquela forma retornarem para nós. Se eu tivesse sido mais lenta em minha defesa, menos determinada, ela poderia estar conosco agora.
"— Ou Kamigawa poderia ter desaparecido.
A Imperatriz Errante piscou. Ela não havia considerado aquilo e, por um tempo, caminharam em silêncio, seus pensamentos ameaçando sobrecarregá-la.
Uma porta surgiu à frente deles, de metal pesado com dobradiças foscas, inteiramente fora de lugar na delicada parede de vidro. Ambos franziram a testa, mas foi Niko quem alcançou o trinco e abriu a porta, liberando uma lufada de ar congelante.
Cautelosamente, eles passaram, e a porta se fechou atrás deles, selando-os lá dentro.
Eles estavam em uma sala fria com chão de pedra, correntes de ferro pesadas penduradas no teto, os ganchos em suas extremidades cravados em enormes cortes de carne. A Imperatriz Errante vasculhou os corpos crus e esfolados, aliviada ao não ver nada que parecesse humano ou nezumi. A Mansão não os trouxera ali para regozijar-se com a morte de Nashi, pelo menos.
Ainda não. Niko e a Imperatriz Errante moviam-se em silêncio entre os cortes de carne pendurados, cuidadosos para não perderem um ao outro de vista. A Mansão já havia reivindicado três entre eles. Tudo o que podiam fazer agora para ajudar seus companheiros era voltar para Ravnica e pedir ajuda a Niv-Mizzet. Certamente ele tinha um plano sobre o que fazer se a primeira equipe desaparecesse. Certamente ele lhes daria os recursos para trazer seu povo de volta para casa.
Certamente.
A sala fria parecia quase interminável. Não havia paredes à vista, apenas carcaças penduradas e correntes esperando pela entrega da próxima matança. Abruptamente, Niko estendeu o braço, impedindo a Imperatriz Errante de prosseguir. Ela lhes deu um olhar azedo e eles acenaram em direção ao lado oposto da sala, onde podiam ver as correntes balançando de volta ao lugar, como se algo massivo tivesse empurrado as carcaças penduradas de lado.
A Imperatriz Errante desembainhou sua espada, assumindo uma postura de combate, enquanto Niko puxava vários fragmentos de magia do ar, girando-os acima das pontas de seus dedos. A dupla se preparou para la batalha que certamente viria e, como tal, estava inteiramente despreparada para as mãos que surgiram de trás deles e os puxaram com força para trás do behemoth esfolado pendurado mais próximo.
O que quer que tivesse sido em vida, assemelhava-se a algum tipo de bicho-preguiça, todo músculo sólido e membros longos terminados em garras perversas. Agora era uma parede útil.
Niko e a Imperatriz Errante viraram-se, prontos para lutar. O homem pálido de rosto estreito que os puxara para trás da besta recuou, com as mãos erguidas como se estivesse tentando afastá-los. Ele pressionou um dedo nos lábios, tirando uma folha de papel do bolso e estendendo-a para eles.
Lá, escrita em várias grafias, incluindo therana e kamigawana, estava a frase FIQUE EM SILÊNCIO. Não traduzia exatamente; o texto kamigawano dizia NÃO EMITA SOM. Mas o significado era o mesmo, não importa o quê.
A dupla olhou para ele em silêncio inquisitivo, e ele assentiu exageradamente antes de tirar um estilingue do outro bolso. Ele produziu uma bola do que parecia ser cabelo emaranhado com sangue do mesmo bolso, colocando-a no suporte do estilingue enquanto o puxava para trás e acenava em direção à sala atrás deles.
Niko e a Imperatriz Errante viraram-se para espiar pela borda da carcaça na penumbra repleta de correntes. Enquanto observavam, uma figura surgiu espreitando entre as carcaças, alta e magra. Cabelos selvagens e desgrenhados brotavam ao redor de uma máscara que cobria a parte superior de seu rosto, revelando apenas dois olhos loucos e inquisidores. Usava um avental de lona coberto de manchas inomináveis e carregava um cutelo.
O estranho puxou o suporte de seu estilingue ainda mais antes de soltá-lo, enviando a bola de cabelo sangrento voando para a escuridão além da figura. Ele errou. Ele errou, e a figura continuou a espreitar silenciosamente, ameaçadoramente em direção a eles.
Então, a bola de cabelo atingiu uma das correntes distantes, fazendo-a tilintar, e a figura virou-se com velocidade aterrorizante para encarar o som. Ela avançou em direção ao movimento, apenas para pisar em uma armadilha de urso que estivera oculta pela névoa no chão. Ela uivou, lutando para se libertar. O cheiro de sangue encheu o ar.
Arte por: Cristi Balanescu
O estranho guardou o estilingue antes de gesticular para que os outros o seguissem, com um olhar satisfeito no rosto enquanto deslizava silenciosamente entre as carcaças. Niko e a Imperatriz Errante o seguiram, incertos sobre o que estava acontecendo, mas não vendo solução melhor.
Finalmente, uma porta, esta polida com uma pequena janela na altura dos olhos. O estranho a abriu suavemente, e eles o seguiram até mais uma sala de estar, esta quente como que para compensar a sala congelante de onde haviam acabado de escapar. Um pequeno fogo estalava na lareira em uma das extremidades do espaço; as estantes estavam quase vazias, claramente saqueadas para alimentar o fogo.
"— Laminipercussores — disse o estranho. — Aqueles que você encontra nas Fossas de Inundação não estão acostumados a ouvir sons que não ecoem pela água. Você pode distraí-los, às vezes. Aquele era um dos grandes. Você não ia querer lutar com ele de frente. Você perderia.
Niko, enquanto isso, examinava francamente o recém-chegado. Ele tinha cabelos pretos espetados e desgrenhados e usava um longo e folgado colete-jaqueta sobre roupas que pareciam ter sido remendadas de uma dúzia de fontes diferentes; Niko tinha certeza de que algumas das peças haviam sido originalmente papel de parede. — Qual o seu nome? — perguntaram.
"— Winter.
"— E há quanto tempo você mora na Mansão, Winter?
"— Toda a minha vida — disse o estranho. Ele deu de ombros. — Não existe mais nada. A Mansão é o mundo, e o mundo é a Mansão, e uma vez que ela te pega, não há para onde ir. Você verá isso em breve, se já não viu.
"— Agora você pertence a Duskmourn.
21/08/2024 | Por Mira Grant
Crianças do Carnaval, Parte 1
Ninguém sabia de onde vinha o vento. Ele não deveria mais estar soprando: as paredes da Mansão eram altas e fortes, sem fendas ou frestas pelas quais um vento rebelde pudesse deslizar. As janelas estavam trancadas. A cada poucos anos, algum grupo de jovens colhedores convencidos decidia que todos antes deles estavam fazendo algo errado de alguma forma e pegavam tijolos, enxadas e o que mais pudessem encontrar, fazendo a longa jornada até a vidraça de cristal mais próxima, pretendendo estilhaçá-la e libertar o mundo.
Quando Duskmourn estava se sentindo caridosa, seus corpos seriam encontrados. Quando a Mansão estava se sentindo faminta — uma ocorrência muito mais comum — não haveria nada, nem mesmo ossos, para mostrar para onde eles tinham ido. Seus nomes seriam adicionados à história de advertência sobre por que é uma má ideia sair quebrando janelas, e seus pais chorariam em particular, tentando não deixar as crianças mais novas verem.
As crianças mais novas viam, é claro. As crianças sempre viam.
As crianças viam quantas pessoas deixavam as zonas seguras e não voltavam mais. Mais a cada ano. Os caminhos antes confiáveis pelo corpo de Duskmourn estavam se tornando cada vez mais perigosos; alguns deles tinham familiares que se mudaram para outras zonas seguras depois de espalharem promessas sobre a mesa como joias. "Eu sempre voltarei para visitá-los." "Esta sempre será minha casa." "Como alguém poderia trocar um carnaval por um Benefactório sem arrependimentos?"
E algumas das promessas tinham sido a verdade, e algumas delas tinham sido mentiras bem polidas, e tantas delas se resumiam à mesma coisa no final, quando aqueles que as faziam nunca mais voltavam. Dawn sentou-se no muro de pedra áspera que marcava a fronteira entre a segurança do carnaval e as rosas traiçoeiras a oeste, jogando lascas de pedra nas rosas para vê-las morder e rosnar.
Ela sabia que era melhor não chegar perto o suficiente para que elas afundassem seus espinhos nela. Esse era o problema das zonas seguras: você podia aprender as fronteiras delas, mas todo o resto também podia. Viajar fora das zonas seguras era ainda mais traiçoeiro porque a maior concentração dos monstros da Mansão podia ser encontrada logo após a fronteira. Eles espreitavam ali, esperando que alguém ultrapassasse os limites temporários que se formaram entre os lugares seguros e o resto da Mansão, esperando que os incautos se tornassem alvos.
Dawn recuou e lançou uma lasca de pedra particularmente grande em uma rosa amarela, que a abocanhou no ar e engoliu, o caule estufando conforme a rocha viajava em direção ao seu torrão de raízes. Se você pudesse alimentar um arbusto com pedras suficientes, poderia entupir as raízes e matar a coisa, embora também pudesse transformar o arbusto inteiro em uma espécie de estilingue, com as rosas cuspindo projéteis em qualquer um ao alcance. Os anciãos desaprovavam alimentar as rosas.
Dawn realmente não se importava. Ela não ia viver no carnaval a vida inteira. Mesmo que suas invenções nunca fossem suficientes para atrair a atenção dos Benfeitores, havia outras zonas seguras na Mansão — seu irmão tinha ido para um assentamento em um sótão, e um de seus primos estava na região do labirinto de sebes — e nenhuma delas teria os anciãos locais vigiando cada movimento seu. Oh, eles teriam seus próprios anciãos, mas esses anciãos a conheceriam como a adulta que ela era, não a criança que ela tinha sido. Estes anciãos a veriam para sempre como algo para proteger, conter, controlar, e ela estava bem cansada disso.
Mas ela não precisaria lidar com nada disso, porque ela ia construir as melhores armadilhas, os melhores sistemas de alerta, e os Benfeitores iriam reivindicá-la para se juntar a eles e ajudá-los a lutar contra a Mansão. Era tudo o que ela sempre quis.
Movimento na trilha segura após o jardim. Dawn levantou-se, com os pés plantados firmemente no muro, e esforçou-se para ver quem estava vindo. O deleite a invadiu e ela pulou para baixo — do lado protegido, não para as rosas decepcionadas — para correr em direção à abertura na cerca onde o caminho entregaria os viajantes ao pátio do carnaval.
O vento chicoteava seu cabelo enquanto ela corria, carregando o cheiro familiar de pipoca e massa frita. O carnaval era uma zona segura, mas a Mansão ainda reabastecia suas iscas, os cheiros deliciosos que atraíram os primeiros sobreviventes para as tendas remendadas e inclinadas. Todo o resto tinha que ser coletado, vagando pela zona segura para colher safras ou enviando grupos de busca para outros cômodos. Alguns dos refeitórios e cozinhas se reabasteciam regularmente, armando suas próprias iscas para prender sobreviventes.
Era melhor quando não precisavam coletar comida, é claro. Dawn podia citar meia dúzia de pessoas — pessoas fortes e astutas — que foram em viagens de coleta e nunca voltaram. Cada viagem para dentro da Mansão era uma viagem da qual você poderia não sobreviver. Então, ela correu em direção à cerca, pernas bombeando e coração disparado, para ver os coletores retornando.
Todos os três conseguiram voltar. Rill tinha um corte feio no braço, atravessando o tecido de seu casaco de lona e papel de parede, mas a carne que Dawn podia ver através do buraco ainda estava rosada e com aparência saudável, não cheia de farpas ou decorada com anzóis. Sunset estava andando como se seu tornozelo esquerdo o machucasse, apoiando-se em City e estremecendo toda vez que colocava o pé no chão.
City, é claro, parecia perfeitamente bem. City sempre parecia. Ele era o mais rápido e forte de seus coletores atuais, inteligente demais para a colheita, de longe; ele fazia incursões pelo corpo da Mansão desde o dia em que foi declarado maior de idade, assumindo riscos maiores do que qualquer um dos outros, e sempre voltando. Todos eles tinham nomes de coisas que existiam no mundo exterior, sonhos desvanecidos de liberdade e conforto transmitidos muito depois de terem perdido todo o sentido — Dawn tinha quase certeza de que seu nome e o de Sunset significavam a mesma coisa, e que um Rill tinha algo a ver com água, mas ela nunca tinha experimentado essas coisas por si mesma. Nem seus pais, nem seus avós, nem ninguém que ela já conheceu.
Antes da Mansão, muitos deles viviam em uma cidade. Tinha sido o lugar onde faziam suas casas e construíam suas criações maravhosas, onde teciam sua magia e passavam suas vidas com conforto e fartura. Nada como as vidas que levavam agora, revirando as sobras da Mansão, fugindo dos monstros da Mansão.
City era o melhor e mais poderoso nome que tinham, e só fazia sentido que aquele que o carregasse fosse o melhor de todos eles. City iria liderá-los um dia, Dawn sabia disso, e quando o fizesse, encontraria uma maneira de acabar com a lenta erosão das rotas seguras entre os assentamentos. Ele tornaria o mundo deles firme e estável novamente.
Uma vida feliz poderia ser vivida cercada por monstros, se você soubesse onde jogar suas pedras e onde pisar.
Dawn sabia essas duas coisas. Assim como sabia que não era certo que dois membros de uma equipe de incursão voltassem feridos quando o terceiro parecia completamente bem. Ela lançou a City um olhar inquieto enquanto se movia para apoiar Sunset, ajudando-o a tirar o peso de seu pé.
"O que aconteceu?"
"Emboscada enquanto estávamos limpando uma câmara fria", disse Rill. "Você deveria ter visto — mais peças de queijo do que você jamais vê em um só lugar. E geleia! Geleia de verdade, em potes!"
Os olhos de Dawn se arregalaram. Geleia em potes era o melhor tipo. Depois de engolir a doçura, você teria o vidro restante para usar na fabricação de armas, ou armadilhas, ou até mesmo o tipo mais básico de rastreadores, aqueles que mal dariam alguns segundos de aviso antes que uma cria do porão irrompesse da parede e começasse a tentar te arrastar para longe. Rastreadores melhores precisavam de material melhor. Alguns meses atrás, um dos grupos de incursão voltou ao carnaval com uma caixa inteira de prataria que ela conseguiu derreter para fazer fios.
"Seus detectores", ela disse abruptamente. "Eles não dispararam?"
"Não era uma cria do porão", disse Rill. Sua voz estava oca. "Estávamos no fundo das Sentinas da Caldeira, longe dos Bosques Assombrados, mas não era uma cria do porão."
"Então o quê?" perguntou Dawn.
"Povo-vime", disse Sunset.
Dawn conseguiu, por pouco, não recuar, seus olhos voltando-se para o corte no braço de Rill.
"Você limpou a ferida?" Apenas uma farpa, e ela poderia estar …
"Esta não foi nossa primeira incursão", disse City, com uma rispidez incomum. "Não aja como se você tivesse feito melhor. Nossos detectores não estavam calibrados para povo-vime. Não havia motivo para estarem. Então, fomos pegos de surpresa."
"Mas ainda conseguimos um pouco de queijo", disse Sunset, tentando parecer otimista. "Não foi uma perda total."
"Eu a limpei", disse Rill. "Não há nada alojado dentro. Eu só queria saber por que eles estavam caçando lá. Estava tão perto da rota segura..."
"E nada atacou vocês em terreno seguro?"
Rill balançou a cabeça. Dawn expirou.
Os caminhos seguros pela Mansão foram traçados com dificuldade, pagos com sangue e brutalidade ao longo dos anos. A Mansão não queria que eles estivessem seguros em lugar nenhum, é claro; ela precisava do medo deles, e uma cama onde nada tentaria te arrebatar debaixo das cobertas ia contra tudo o que ela defendia. Mas as pessoas precisavam de segurança para continuarem sendo pessoas . Elas precisavam de tempo para parar e respirar, antes que o estresse parasse seus corações e as deixasse apodrecendo, não sendo mais fontes tentadoras de terror para a Mansão colher.
Então, pouco a pouco, eles estabeleceram os tratados. Coisas não escritas, é claro, coisas que poderiam ser esquecidas ou transmitidas incorretamente, então sempre havia a questão de se o caminho em que você estava era realmente seguro, ou apenas parecia ser. Ainda assim, se você ficasse nos caminhos e vigiasse os sigilos, deveria ser capaz de se mover entre as zonas sem muito risco.
"Vimos outro daqueles grupos de estranhos", disse Sunset. "Eles estavam usando roupas como nada que eu já vi antes, e vagando por aí como se não tivessem ideia de que estavam em perigo. E todos eles tinham seus lampejos! Cada um deles!"
"Huh", disse Dawn.
Houve um grande tremor na Mansão alguns ciclos de colheita atrás, derrubando coisas das prateleiras e enviando poeira em cascata das vigas. E então passou, e tudo parecia normal — até que não estava mais.
Portas estranhas começaram a aparecer fora das zonas seguras. Portas aparecendo e desaparecendo de acordo com seu próprio capricho não era novidade, mas não na frequência com que estas pareciam surgir — mais e mais a cada semana, ao que parecia. Rill viu uma se abrir, e o ar que soprou pela porta era fresco e doce, tão doce que machucava a garganta, como se estivesse soprando de outro mundo. Mais estranhos começaram a aparecer depois disso. Nunca muitos ao mesmo tempo, mas um fluxo constante o suficiente para que todos soubessem a essa altura. Pessoas estavam desaparecendo das bordas das zonas seguras desde o início. Não foi até o surgimento das portas que elas começaram a desaparecer dos caminhos.
"Você não pode andar mais rápido?" exigiu City.
Dawn franziu a testa para ele. "Sunset está ferido. Ele está indo o mais rápido que pode. Você não está carregando nada tão urgente que nos obrigue a ter pressa."
"Desculpe", disse City, desanimando um pouco. "Eu só estou... cansado."
"Estamos quase lá."
Eles chegaram ao topo da colina baixa que dividia os terrenos do carnaval em dois, e lá estava diante deles: o lar. Um dos poucos lugares que Duskmourn nunca foi capaz de contaminar ou manchar, uma zona segura desde o início.
As tendas eram uma explosão de cores, paredes de lona remendadas ondulando na brisa e flâmulas estalando no alto. Luzes mágicas envolviam os mastros das tendas e se estendiam entre as próprias tendas, criando uma teia de santuário prometido. A fogueira central estava acesa; alguém estava tocando uma melodia de violino que soava como um estômago cheio e uma cama quente. Dawn expirou. Às vezes ela se irritava com a necessidade de ser um bom membro da comunidade, mas não podia negar a alegria que sentia ao avistar o lar.
Arte de: Josu Solano
Rill e Sunset pareciam sentir o mesmo. City, no entanto... o rosto de City estava frio e solene, sem um sorriso à vista. Ele se adiantou enquanto desciam a colina em direção à tenda principal.
"Sabe, Dawn", disse ele. "Seus detectores nos mantiveram seguros por anos. Sem você, teríamos morrido uma dúzia de vezes. É por isso que queríamos que você continuasse colhendo e criando artefatos até que os Benfeitores viessem buscar você, e não viesse conosco nas incursões de coleta."
"Eu sei", disse ela, intrigada. "Por que você está me dizendo isso agora?"
"Porque as coisas mudaram."
Dawn tropeçou.
City virou-se para olhá-la. Os olhos dele sempre foram tão azuis, tão brilhantes? Ou era apenas um truque das luzes do carnaval?
"Duskmourn nos deu segurança porque demos à Mansão o que era necessário mais do que tudo: demos a Duskmourn as pessoas para sustentá-la."
"Eu não..."
"Mas algo mudou. Algo lá fora. E agora, Duskmourn pode fazer o que temos feito o tempo todo. Agora a Mansão pode caçar ." City parecia genuinamente arrependido enquanto parava de andar e se virava completamente, tirando o casaco.
Por baixo dele, ele usava um tabardo bordado com as asas de uma mariposa vasta e colorida. Ele sorriu ao abrir os braços, e o sorriso era o sorriso de Duskmourn, e era terrível de se ver.
"Duskmourn não precisa mais de nós", disse ele, enquanto Rill arquejava de horror e Dawn e Sunset olhavam fixamente. "Mas há uma maneira de sobreviver, se você for astuto o suficiente para percebê-la. Ainda há um lugar para aqueles de nós que desejam servir ao Pai Devorador, entre o Culto de Valgavoth. Junte-se a mim, Dawn. Abra suas asas e voe em direção à luz dele."
Rill e Sunset foram feridos. Dawn foi a única que recuou, afastando-se da forma subitamente ameaçadora de seu amigo. Atrás dela, algo se quebrou. Ela olhou por cima do ombro. Um enorme navalhai estava derrubando a cerca, com o que parecia ser um exército inteiro de monstros de Duskmourn logo atrás.
Ela girou e correu.
O tempo de trégua havia acabado, mas talvez, se tivesse sorte, ela pudesse encontrar uma daquelas portas misteriosas. Talvez ela pudesse ser aquela que descobriria de onde vinha o vento.
Dawn correu, e o carnaval caiu, gritando, atrás dela.
22/08/2024 | Por Mira Grant
Episódio 3: Não Olhe Para Trás
Winter caminhou pela pequena sala de estar, movendo-se com um andar quase oscilante, como se estivesse atravessando o convés de um navio em movimento, e não uma casa imóvel. Niko observou seus pés, notando a maneira como os passos aparentemente descuidados do homem conseguiam evitar pisar em qualquer um dos motivos de mariposas tecidos no tapete desbotado. Olhando para cima novamente, eles estudaram seu novo conhecido por um momento. Nada sobre ele era tão casual quanto parecia, da maneira como andava às tiras de papel de parede trabalhadas em suas roupas; se ele ficasse imóvel na luz certa, perto o suficiente da parede certa, ele quase desapareceria.
Se nada sobre ele era coincidência, a presença dele na sala do freezer tinha sido uma coincidência? Ou ele havia planejado isso, da mesma forma que estava planejando sua caminhada pelo chão, pisando com precisão?
E isso importava de um jeito ou de outro? Se Winter os havia encontrado por acaso ou por design, ele os havia salvo da criatura que chamava de rasganato. Isso lhe rendeu um pouco de confiança, pelo menos até ele provar que não a merecia. Decisão tomada, Niko começou a segui-lo.
"Pare!" disse Winter, torcendo a cintura sem mover os pés; eles permaneceram plantados firmemente onde estavam, nos espaços em branco formados pelo design do tapete. "Não pise em nenhuma das mariposas!"
"As... mariposas?" perguntou a Errante educadamente.
"No tapete." Winter gesticulou para o quarto ao redor deles. O calor, que parecia tão reconfortante quando eles emergiram nele, estava rapidamente se tornando sufocante; quem quer que tenha alimentado o fogo por último o atiçou com um pouco de entusiasmo demais, e enquanto o frio se dissipava de seus ossos, estava sendo substituído por um calor desconfortável.
Niko acompanhou o movimento da mão de Winter, franzindo a testa ao notar que os motivos de mariposas no tapete continuavam pelo papel de parede. Alguns dos quadros emoldurados nas paredes eram diagramas entomológicos de mariposas que eles quase reconheceram, espécies que tinham visto esvoaçando ao redor dos braseiros do templo em Theros. O restante era desconhecido, unidos por suas asas de formato estranho marcadas por olhos observadores esboçados rudimentarmente. O quarto inteiro parecia estar observando-os, através das mariposas. Não havia janelas.
A Errante continuou a observar Niko, com uma expressão quase perplexa em seu rosto. "Você vai explicar por que não devemos pisar nas mariposas bem tecidas?"
Winter exalou, o fantasma de uma risada agarrado ao som. "Eu sabia que vocês eram novos, mas não pensei que fossem tão novos", ele disse. "Como vocês sobreviveram tempo suficiente para chegar aos Poços de Inundação? Duskmourn deveria ter pego vocês muito antes de conseguirem chegar tão longe. A menos que a Mansão não esteja com fome, mas se a Mansão não estivesse com fome, não estaria armando iscas."
"Do que você está falando?" perguntou Niko, um buraco frio se abrindo no fundo de seu estômago. Todo plano tinha seus caçadores de emboscada, os grandes pescadores que penduravam uma isca que parecia um verme ou uma aranha ou um corpo humano inteiro, usando-a para atrair a presa perto o suficiente para capturá-la.
"Vocês chegaram aqui por uma porta, não foi?" perguntou Winter. "Uma porta que nunca tinham visto antes, que não pertencia ao lugar onde a encontraram? E não estava trancada, e abriu facilmente quando tentaram, e a Mansão estava do outro lado, como um convite para a aventura. Como se quisesse que vocês entrassem e dessem uma olhada. Mas quando tentaram se virar e ir embora, a porta não estava mais lá. Vocês pertencem a Duskmourn agora."
"Você já disse isso antes."
"Vou dizer cem vezes se for o que for preciso para vocês entenderem."
"Duskmourn é a Mansão?"
Winter assentiu ferozmente. "Sim."
"E a Mansão é... consciente? Inteligente? Ela caça?"
"A Mansão é consciente; se é inteligente ou não, nunca importou o suficiente para nos preocuparmos. Você não pergunta à coisa que está tentando te engolir inteiro se ela entende o que está fazendo — se ela entendesse o suficiente para se importar, teria ouvido você gritar para que parasse."
Niko olhou ao redor da sala novamente. Parecia mais ameaçadora a cada segundo, o calor menos como um fogo crepitante e mais como o calor doentio que irradiava de uma carcaça fresca de dragão, algo vivo e iminente. Os olhos das mariposas nas paredes eram um peso contra a pele deles, deixando claro que não poderiam escapar da percepção mesmo se tentassem.
Instintivamente, eles buscaram o calor de sua centelha — não para fugir, não para deixar seus aliados para trás, mas para contê-la no oco de sua vontade, para sentir seu consolo e saber que seu destino ainda não estava selado. E, como sempre fora o caso desde a invasão, eles não encontraram nada onde aquela minúscula chama das Eternidades Cegas deveria estar, apenas o vazio, um receptáculo quebrado demais para conter qualquer coisa além de poeira.
Eles recuaram da sensação — não era uma coisa fácil quando o sentimento estava ancorado à sua alma — e voltaram sua atenção para Winter, que ainda estava observando a Errante de seu lugar perto do fogo. Como ele conseguia ficar tão perto sem superaquecer?
"Não viemos pela porta porque fomos atraídos," disse a Errante. "Viemos em busca de uma criança que se perdeu, embora ele não me agradecesse por me referir a ele como tal. A mãe dele estava—ela também se perdeu, de uma forma diferente. Eu tenho uma responsabilidade para com ele, e quando descobri que ele havia entrado em sua 'Duskmourn', não tive escolha a não ser seguir. Meu amigo aqui concordou em vir comigo."
"Apenas vocês dois, caçando neste lugar amaldiçoado por uma única criança?" Winter zombou. "Sabe, há maneiras mais fáceis de morrer."
"Pare com essa conversa," disse Niko. "Nossos destinos não estão selados. Temos aliados na Mansão, e assim que os encontrarmos novamente, seremos capazes de sair daqui." Kaito ainda era um Planeswalker, seu receptáculo intacto, e mesmo que não fosse, a caixa quadrada que Niko havia recebido de Niv-Mizzet ainda estava pendurada sobre seu ombro, zumbindo contentemente para si mesma. Pequenas luzes piscavam em um canto. Estava transmitindo informações de volta para Ravnica. A ajuda estava chegando.
A ajuda estava chegando, e eles estavam longe de serem indefesos, mesmo neste lugar estranho, com suas regras desconhecidas. Winter os observava como se tivessem cometido o maior erro que o mundo já conheceu ao vir para cá, mas eles não tinham chegado por engano: estavam procurando por Nashi. Um inocente, que precisava de ajuda. Niko não conseguiu recusar mais do que eles conseguiriam cruzar as Eternidades Cegas com seu próprio poder.
Winter zombou novamente, apenas para congelar quando a Errante de repente estava na frente dele, tendo cruzado o chão com passos rápidos e graciosos que evadiram as mariposas tecidas no tapete aparentemente sem esforço. A espada dela, que estava presa na cintura, de repente estava em suas mãos, a lâmina a centímetros do rosto de Winter.
"Não seria sábio ameaçar um novo aliado," disse a Errante. "Portanto, isso não é uma ameaça. Apenas uma promessa. Não nos provoque sobre coisas que não temos como saber. Nos entendemos?"
Winter assentiu lentamente, os olhos fixos na lâmina brilhante da espada da Errante. Ele não começou a relaxar até que ela abaixou a arma e a devolveu à bainha.
"A Mansão é uma caçadora, você diz, mas desta vez, pode ter mordido mais do que consegue mastigar," disse ela.
"Você não será a primeira a pensar isso," disse Winter, ainda parecendo inquieto, mas menos a cada segundo que passava. "Duskmourn engoliu heróis e vilões sem uma pitada de hesitação. Vocês acham que sabem como sobreviver aqui, porque sobreviveram seja lá de onde vieram. Bem, vocês não são heróis experientes aqui. Vocês são carne temperada. Vocês dizem que têm aliados na Mansão? Vocês foram separados, um por um, por coisas impossíveis?"
A Errante fez uma careta. "O chão se abriu e engoliu nosso companheiro," ela disse.
"Isso foi depois de ouvirmos alguém gritando por ajuda à distância, e dois de nossos companheiros correram atrás disso," disse Niko. "Eles passaram por uma porta para um corredor, e quando tentamos segui-los, havia uma parede lá. Nós não a vimos aparecer, mas não pode estar lá quando eles saíram."
"Isso é Duskmourn, separando vocês de seus amigos," disse Winter. "É um dos truques favoritos da Mansão. Ela quer vocês isolados e com medo. Quanto mais assustados vocês estiverem, mais a Mansão os deseja. Vocês devem ter atingido o limite de medo que ela precisava para começar a enviar rasganatos atrás de vocês, lá no freezer. Ela sabe que vocês estão aqui agora, se já não sabia antes."
"O que era aquela coisa?" perguntou Niko.
Winter deu de ombros. "Um sobrevivente uma vez, muito provavelmente. Duskmourn repara e reconstrói as pessoas que captura, da mesma forma que um estofador pode cobrir novamente um sofá. Ela seduz aqueles que conseguem sobreviver no território dos rasganatos até que se percam e deslizem para uma pele de matadouro. Se vocês tiverem sorte, quando eles os pegarem, eles os matam. Se não tiverem sorte, vocês se juntam a eles. Não sei o quanto eles entendem do que são, mas podem ser espertos, e são implacáveis quando sentem o seu cheiro. Aquele quase lá atrás foi mais por pouco do que vocês pensam."
"E é assim que essa mansão caça?"
"Não apenas os rasganatos," disse Winter. "A Mansão tem muitas mãos, e não vai parar de tentar pegar vocês até conseguir."
"Ou nós escaparmos," disse a Errante.
Winter olhou para ela como se não tivesse ideia do que ela estava dizendo. "Claro," ele disse, com voz seca. "Escapar."
"Eu pensei que estávamos sendo educados agora," disse Niko.
"Sim, desculpe, desculpe," disse Winter. "Olha, vocês são basicamente faróis para tudo o que tem fome nesta mansão, enquanto estão tão esperançosos e seguros de si mesmos. Fiquem comigo se quiserem permanecer vivos, e talvez tenhamos sorte o suficiente para encontrar seus amigos."
"Mas você acha que não vamos," disse Niko.
"Eu já vi isso acontecer vezes demais para pensar que vocês terão um final feliz," admitiu Winter. "Ainda assim. Fiquem juntos; não confiem que nada que virem vai permanecer do jeito que acham que é; não toquem nas mariposas, mesmo quando forem apenas desenhos de giz ou alguém pintando com o dedo usando o sangue de outra pessoa."
"Eu não tocaria nisso mesmo que você não tivesse dito nada," disse Niko.
Winter abriu um sorriso com isso. "Movam-se rápido e tentem não se demorar em áreas abertas," ele disse. "Presumam que tudo é hostil e tem potencial para lhes causar dano. Tudo menos aqueles." Ele esfaqueou o dedo no ar, indicando um ponto próximo à Errante. Ela piscou, depois se virou.
Lá, flutuando a vários pés acima do chão da sala, pairava um dragão dourado feito inteiramente de luz, movendo-se em uma curva sinuosa enquanto ficava suspenso no lugar. A Errante engasgou. "Kyodai?" ela perguntou, depois se corrigiu: "Não. Eu não desejaria que ela estivesse aqui. Este espírito é pequeno demais para ser minha querida. O que é isso?"
"Seu brilho," disse Winter. "Todo mundo em Duskmourn tem um. São suas esperanças e sonhos — ou o que sobrou deles, de qualquer maneira. Eu acho que a Mansão os cria. Ninguém sabe de verdade."
"Onde está o seu?" perguntou Niko. "Onde está o meu?"
Winter apenas deu de ombros.
"Minha Kamigawa," suspirou a Errante.
Niko não disse nada.
"Não deveríamos ficar mais tempo aqui," disse Winter. "As únicas tréguas que Duskmourn oferece são breves. Mas se seguirmos o brilho dela, deve nos guiar por um caminho relativamente seguro."
"Ele pode nos levar até Nashi?" perguntou a Errante.
"Só há um jeito de descobrir," disse Winter.
A Errante se inclinou em direção ao espírito flutuante. "Por favor," ela disse, e o brilho começou a nadar pelo ar em direção a uma porta na parede oposta.
Os outros a seguiram.
Kaito caiu sem emitir som, usando cada grama de seu treinamento para permanecer o mais calmo possível enquanto caía na escuridão. As garras de Himoto cavaram em seu ombro enquanto ela se ancorava, recusando-se a ser separada dele, e a queda foi longa o suficiente para permitir um lampejo de diversão: Ele poderia ser o único que havia caído, mas ainda não estava sozinho na Mansão. Himoto estava com ele, como sempre estava, como sempre estaria.
Justamente quando parecia que ele estava destinado a cair para sempre, sua descida terminou com um forte impacto no que parecia ser o chão de uma floresta. Rochas e raízes cravaram em seu quadril e lado, e o cheiro de argila úmida encheu suas narinas, denso e terroso. Ele piscou, então se sentou, esfregando os olhos enquanto se avaliava em busca de ferimentos.
Considerando o quão longe ele havia caído, ele deveria ter quebrado vários ossos, ou no mínimo ter ficado inconsciente. Em vez disso, ele doía como se tivesse acabado de fazer uma longa sessão de treinamento contra um oponente superior sem nenhum equipamento de proteção. Foi chocante. Não que ele quisesse sentir dor, mas as implicações eram perturbadoras.
Quanto controle a Mansão tinha sobre o que acontecia dentro dela? Ele se levantou com cuidado, ainda cercado por escuridão total, e começou a respirar fundo, inspirando e expirando, tentando usar seus sentidos restantes para se orientar. O cheiro de argila dominava tudo, uma camada espessa sobre o cheiro de uma floresta de pinheiros em decomposição, suas árvores quebradas e morrendo na ausência do sol. Havia uma umidade fria no ar, e um cheiro agudo de petricor misturando-se com as árvores; névoa, então, o tipo de névoa espessa que cobria todo o chão da floresta e a tornava traiçoeira mesmo sob as melhores circunstâncias.
Enquanto ele inalava a floresta, a escuridão começou a se dissipar. Não foi uma melhoria. Revelada, a floresta era tão desagradável quanto Kaito havia presumido; as árvores mais próximas estavam apodrecidas e encostadas umas nas outras, dando a impressão de que estavam apenas esperando uma desculpa para cair. As árvores que não estavam à beira de cair pareciam doentes e apáticas, se apatia pudesse ser atribuída a uma árvore; seus galhos pendiam, e manchas de líquen pontilhavam sua casca, cinza e escabrosas.
Kaito estremeceu e olhou em volta, Himoto mudando de posição em seu ombro para direcionar os olhos junto com os dele e fornecer um pouco de luz extra.
"Como uma mansão tem uma floresta sob seu salão de baile?" perguntou Kaito.
Himoto guinchou.
Antes que Kaito pudesse decidir qual das muitas direções pouco promissoras parecia a menos desagradável, uma sombra passou sobre ele, e ele ficou tenso, agachando-se e olhando para cima ao mesmo tempo. Fosse o que fosse, estava alto demais para ser visto no escuro — embora a floresta não estivesse mais coberta pela escuridão absoluta, ainda estava quase tão clara quanto uma noite sem lua, sem sequer estrelas para a fonte da sombra bloquear. A sombra passou novamente, desta vez acompanhada por uma explosão brilhante de chamas que iluminou a besta inteira que estava circulando no alto. O fogo mastigou as árvores apodrecidas, transformando-as em cinzas, enquanto o dragão batia as asas e circulava para outra passagem.
Kaito olhou freneticamente em volta, o caminho agora iluminado pelo fogo devorando as árvores. Não havia para onde ir. Ele poderia ir mais fundo nas árvores, mas as árvores estavam queimando.
Era melhor do que ficar parado esperando para ser assado vivo. Ele começou a caminhar o mais rápido que ousou pelo chão coberto de raízes retorcidas, os pés escondidos pela névoa. Ele não tinha ido muito longe antes que o dragão passasse novamente, desta vez direcionando seu fogo para o movimento no chão da floresta. Kaito teve apenas um momento para perceber a profundidade de seu erro, e então o fogo do dragão estava passando sobre ele, abrasador, escaldante, tornando o mundo branco e dourado com as chamas —
E então acabou, e ele estava no meio de uma planície fumegante e coberta de cinzas, cercado pelos restos da floresta queimada. Algo naquele momento parecia errado, da mesma forma que quando Teferi usava sua magia de tempo, e junto com a sensação de alívio veio a sensação de que tudo isso tinha acontecido há muito tempo, se é que havia acontecido; era uma apresentação encenada para o benefício de Kaito — ou para a Mansão.
O fogo havia queimado a névoa. Dragões rodopiavam pelo céu acima, dezenas deles, sua atenção fixada em uma cidade em chamas. Ocasionalmente, um ou mais disparavam em direção ao inferno, adicionando outro fluxo de fogo aos danos já causados. Não que restasse muito para queimar. Nada se movia, exceto os dragões e as chamas. Se a cidade tivesse sido ocupada, seus ocupantes não estavam mais lá agora. O céu ainda estava escuro, cheio de pesadas nuvens cinzentas que estalavam com raios, enchendo o ar com o cheiro de ozônio.
Himoto guinchou. Kaito colocou a mão nas costas dela, confortando a ambos, e esperou que os dragões retornassem.
Houve um som como de alguém cortando um shoji com uma espada mal limpa, áspero, irregular e irritante, e a paisagem começou a piscar e desaparecer, entrando e saindo da visibilidade como se estivesse se transformando ao seu redor. O som de papel rasgando ficou mais alto e depois parou tão abruptamente quanto havia começado. A floresta tinha sumido.
Arte de: Mirko Failoni
Em vez disso, ele parecia estar de pé em um quarto subterrâneo com paredes de pedra rústica e uma escada em um canto, levando para cima, para um destino não visto. Pilhas de móveis e pertences em caixas forravam uma parede, e a única luz vinha de um candelabro tremeluzente pendurado no centro do teto. Suas velas estavam quase queimadas; em breve, o quarto retornaria à escuridão.
E ele não estava sozinho.
A dissertação de Zimone sobre o movimento do ar não estava errada; o treinamento dele havia envolvido aprender como saber quando alguém estava por perto apenas pelas mudanças na atmosfera ao seu redor. Ele ficou tenso, mais preocupado agora do que estivera por uma floresta misteriosa cheia de dragões fantasmas. Isso era algo físico, algo que poderia potencialmente lhe causar dano.
Algo que estava se movendo para perto, tentando ficar quieto, mas ainda se aproximando.
Kaito se tensionou ainda mais, controlando a respiração para mantê-la leve e suave, e quando a sensação de presença chegou muito perto, ele se virou rapidamente, desferindo o punho direito bem no rosto do homem esbelto e de cabelos escuros que vinha caminhando atrás dele.
Jace soltou um som de grasnido indigno e cambaleou para trás, batendo a mão sobre o nariz, que já estava jorrando sangue. "Olá para você também!" disse ele, a voz abafada pela mão e pelo ferimento.
Kaito piscou e se endireitou, sem abaixar os punhos ainda. "Jace?"
"Você esperava outra pessoa?"
"Eu não estava esperando—o que você está fazendo aqui?"
"Não está feliz em ver um velho amigo?"
Kaito o encarou. "Um velho amigo?" perguntou. "A última vez que te vi, estávamos tentando nos matar em Nova Phyrexia!"
"Onde você me impediu de deter a invasão phyrexiana antes que ela pudesse começar. Eu diria que estamos mais ou menos empatados."
"Eu fiz isso para salvar Kamigawa do sylex que você estava tentando ativar."
Jace deu de ombros, o gesto tão irrefletidamente desdenhoso que os punhos de Kaito se fecharam mais. "Teria funcionado se tivéssemos sido mais rápidos, ou se não tivéssemos sido separados."
"Você é o motivo de termos perdido Nahiri!"
"Eu perdi a mim mesmo ao mesmo tempo, caso você tenha esquecido."
Kaito estreitou os olhos. "Eu não esqueci de nada," ele disse. "Onde você esteve?"
"Isso importa? Eu estou aqui agora."
"Sim, vou dizer que importa. Importa muito."
Jace suspirou, tirando a mão do nariz e limpando o sangue na capa. "Acho que não quebrou, se isso importa para você."
"Quer que eu tente de novo?"
Himoto guinchou, quase como se estivesse encorajando Kaito a dar outro golpe.
Antes que ele pudesse fazê-lo, um som de gemido soou pelo porão, parecendo jorrar das próprias paredes. Jace e Kaito ficaram rígidos, instintivamente se posicionando de costas um para o outro enquanto se preparavam para o perigo que se aproximava.
"Lutamos depois?" perguntou Jace.
"Lutamos depois," Kaito concordou. "Mas nós vamos lutar."
"Estou ansioso por isso."
A biblioteca continuou sendo uma biblioteca, para a alegria de Zimone e a decepção de Tyvar. Ele não tentou as escadas de novo, preferindo ficar onde pudesse vigiar Zimone. A acadêmica parecia ter esquecido que estavam em perigo possivelmente mortal; ela estava vagando feliz de prateleira em prateleira, retirando uma sucessão infinita de livros e entregando-os a Tyvar para que ele os levasse até a grande mesa de estudo que ela havia reivindicado para sua pesquisa. Na verdade, era como vê-la em seu ambiente natural — um ambiente que ele presumia ter muito poucos predadores, já que ela estava completamente à vontade agora que havia aceitado os arredores.
Ele estava esparramado na cadeira ao lado da dela, com o cotovelo apoiado na mesa e a bochecha descansando nos nós dos dedos. Ele ficaria feliz em explorar, se isso não significasse deixá-la fora de sua vista. Neste lugar, ele não confiava que ela estaria lá quando ele voltasse — fosse por perfídia da Mansão ou porque ela simplesmente se afastou para as prateleiras mais profundas, ele não saberia dizer.
Tyvar Kell não era um homem muito adequado para um ambiente acadêmico. Cada centímetro dele gritava que eles estavam no meio de uma grande e terrível aventura, cheia de perigos e a chance de glória. Mas "o que é este lugar" e "como isso está acontecendo" não eram inimigos que ele pudesse socar. Tudo o que podia fazer era ter certeza de que Zimone estava a salvo, ou o mais perto disso que qualquer um deles poderia estar nesta casa terrível.
Zimone franziu a testa para algo no livro que estava lendo, depois o empurrou para longe e puxou outro para si, os olhos disparando pelo texto com notável rapidez.
"Isto é uma casa," ela finalmente anunciou.
Tyvar franziu a testa para ela. "Eu pensei que isso já estava estabelecido."
"Estava, mas isso não significava que continuaria estabelecido. Às vezes, quando você testa uma coisa, descobre que não é o que você pensou no início. Chama-se camuflagem."
"Estou ciente," disse Tyvar. "Temos conceitos assim em Kaldheim."
As bochechas de Zimone ficaram vermelhas. "Eu não quis dizer—estou apenas animada, só isso. Isso é uma casa, foi construída, a arquiteta original viveu aqui com sua família, há muito, muito tempo atrás, pelo menos se eu estiver lendo isso corretamente. Parece que o lugar teve pelo menos uma dúzia de donos. Eu tive que encontrar um dos primeiros para confirmar a arquiteta."
"Isso é um pouco de alívio," disse Tyvar. "Coisas feitas à mão muitas vezes são mais fáceis de superar do que aquelas feitas pela natureza."
"Não sei se você notou, mas esta biblioteca é bastante focada. Há alguma história local — nenhum dos nomes é familiar, mesmo do Biblioplex; acho que este não é um lugar onde nenhum de nós esteve antes — mas, em sua maioria, é ocultismo e o tipo de magia que faz a Professora Vess recomendar que você repense seus objetivos acadêmicos."
"Magia ruim?"
"A magia não é inerentemente boa ou ruim, não mais do que uma equação matemática, mas parte dela é tão baseada em entropia e obrigação transformada em arma que 'magia ruim' é provavelmente a melhor maneira de descrevê-la." Zimone olhou de volta para o livro, balançando a cabeça. "Não sei por que alguém ia querer estudar essas coisas, mas olha, alguém estudou muito."
Tyvar olhou, prestativo. O livro que ela estava olhando agora tinha extensas notas nas margens, escritas em tinta escura com uma caligrafia estranhamente efervescente, como se quem as fez tivesse tratado isso como um jogo maravilhoso. "Você acha que essa... magia academicamente desagradável é a razão pela qual a Mansão está se comportando da sua maneira atual?"
"Eu ficaria chocada se não estivessem relacionados," disse Zimone. "Alguns desses feitiços são do tipo de coisa que pode distorcer o espaço e o tempo se você os conjurar na ordem certa, e eu não tenho muita certeza de como alguns desses rituais sequer funcionariam."
O dispositivo de monitoramento que ela recebera de Niv-Mizzet apitou, o som brilhante e deslocado na biblioteca. Zimone deu um tapinha na caixa com uma mão e continuou lendo.
Um som carnudo e rasgado, úmido e visceral, ecoou do corredor de estantes mais próximo, não parecendo ficar mais silencioso enquanto se afastava de sua fonte. Tyvar se endireitou, a atenção se voltando para o som. "Zimone?"
"Acho que se você drenasse toda a força vital de uma pessoa, poderia ser capaz de—"
"Zimone!"
Ela levantou a cabeça. "Hmm?"
"A sua educação na faculdade não está preparando você adequadamente para a sobrevivência," disse Tyvar, derrubando sua cadeira ao se levantar e encarar o som. As estantes de livros estavam começando a... torcer, quase, deformando-se em formas estranhas e assimétricas. Os livros estavam se deformando com elas, tornando-se algo totalmente novo. Doía os olhos de ver, e por isso ele não se permitiu desviar o olhar. Algo que distorcia o mundo ao se aproximar era algo que queria que você desviasse o olhar. Ele não ia torná-los alvos mais fáceis.
Zimone deu um gritinho e se pôs de pé rapidamente, movendo-se parcialmente atrás de Tyvar enquanto ele dava um passo à frente, em direção à porção do espaço em distorção.
"Fique atrás!"
"Não me aproximo mais do que o necessário," ele garantiu a ela, mesmo enquanto algo terrível se rasgava para fora do buraco torcido e se lançava contra o peito dele.
Era tecnicamente bípede, com a pele da cor de argila velha e seca que ficou exposta aos elementos por anos demais. Não tinha pelos e não usava roupas, mas tinha seis olhos, agrupados no rosto como os olhos de uma aranha, e uma boca que abria demais para ser funcional, eriçada de dentes como cacos de vidro quebrado. Seus membros se dobravam em muitos lugares e se moviam com uma horrível graça de aranha.
Bateu no peito de Tyvar, as garras cravando fundo nos ombros nus enquanto ele girava para arrancar a garganta dele. Ele torceu ao mesmo tempo, usando o próprio momento da criatura contra ela mesma, ao jogá-la por cima de seu ombro, abrindo feridas profundas em sua própria pele no processo, mas deixando sua garganta intacta.
"Tyvar!" gritou Zimone.
"Fique onde está," ele gritou de volta e se jogou atrás da criatura. Ela rugiu e se preparou para enfrentá-lo, seus membros estranhamente articulados movendo-se com facilidade para encontrar apoio nas prateleiras ao redor. A distorção da qual havia emergido estava quase desvanecida agora, as estantes de livros lentamente voltando ao normal, mas as prateleiras onde tinha se ancorado estavam começando a se deformar. A torção era uma função da criatura, então, e algo a se observar.
Zimone agarrou seu monitor da mesa, abraçando-o contra o peito. A cabeça da criatura virou-se bruscamente, a atenção capturada pelo movimento, e seus olhos fixaram-se nela. Suavemente, começou a virar na direção dela.
Bustos de mármore de humanos e elfos haviam sido empurrados em alguns dos espaços nas prateleiras, servindo como aparadores de livros e adicionando uma qualidade assombrada à biblioteca da qual Tyvar facilmente poderia ter prescindido. Ele agarrou o mais próximo deles, sentindo a estrutura da pedra sangrando em sua pele, e arremessou o busto com toda a força que conseguiu contra a cabeça da criatura. Esse não era um arremesso amigável, ou sequer o tipo de arremesso que ele miraria num lobo que se afastou para muito perto do rebanho da vila: este era um arremesso planejado para causar o máximo de dano possível.
O busto explodiu contra o crânio da fera, e ela perdeu o interesse em Zimone imediatamente, virando-se rapidamente para voltar a rosnar para Tyvar. Ele bateu as mãos, a pedra ainda se espalhando pelos seus braços, até revestir as feridas de seus ombros e estancar o sangramento.
"Uma centelha de Planeswalker é demais para um único coração suportar; isso te deixa complacente," ele retrucou. "Eu tenho trabalhado na minha lenda desde que a minha se apagou."
A criatura rosnou novamente e saltou em direção a ele.
Desta vez, ele estava preparado. Ele a agarrou pelos pulsos e a balançou, jogando-a contra o chão antes de chutá-la na lateral da cabeça. Ela chiou e rosnou. Ele plantou um pé no centro do peito dela, mantendo-a onde estava.
"Ela não é para você machucar," ele cuspiu.
A criatura rosnou de novo. O som era de alguma forma oco. Tyvar ergueu o pé, a pedra se espalhando pelo seu corpo, e quando sentiu que ela fechou sobre seu tornozelo, ele pisou com toda a força, empurrando o pé através do esterno da criatura. Lascou-se e quebrou como uma tábua apodrecida, e a fera ficou flácida. Tyvar sorriu desdenhosamente, soltando os pulsos dela, e virou-se para caminhar de volta para Zimone, a pedra desaparecendo de sua pele.
"Isso... como...?"
"O mundo natural responde ao meu chamado," ele disse. "Eu costumava precisar de um fragmento do material por perto para transmutar minha pele, mas agora eu posso carregar a memória com igual proximidade."
"Bem, isso é ótimo, mas olha."
Zimone apontou atrás dele, com as mãos tremendo. Tyvar se virou.
A criatura estava se juntando novamente, o peito expandindo, o sangue se formando e rolando de volta para o corpo, onde derramava de volta nas feridas que se selavam rapidamente. Com um resmungo ganido, ela ficou de pé e rosnou para eles.
Tyvar empalideceu.
Zimone agarrou o braço dele, puxando. "Talvez devêssemos correr," ela disse.
"Atos de bravura só carregam honra quando recontados," disse Tyvar, e juntos eles viraram as costas e fugiram para o fundo da biblioteca, para longe da criatura rosnante, para dentro das sombras das estantes.
23/08/2024 | Por Mira Grant
Crianças do Carnaval, Parte 2
Dawn correu, e o carnaval que era o único lar que ela já conhecera queimava atrás dela, criaturas e monstros saltitando nas chamas, sobreviventes se dispersando enquanto corriam por suas vidas. Ela tinha sido uma das primeiras a fugir, graças a ter encontrado City e os outros no caminho de volta de sua missão de coleta; os monstros de Duskmourn ainda estavam se posicionando. Ela fugiu, e os sobreviventes que correram atrás dela morreram gritando, abatidos por pesadelos ou enredados por povo-de-vime espreitadores que haviam sido espertos o suficiente para deixá-la passar em favor das presas mais ricas que ainda estavam por vir.
Ela corria, e toda vez que um grito era interrompido atrás dela, ela se sentia um pouco pior por estar correndo. Ela deveria ter visto os sinais de perigo mais cedo do que viu, deveria ter percebido que algo estava errado quando eles voltaram cedo, e pelo caminho de rosas às vezes imprevisível, não pela rota mais estável atrás da roda gigante infantil. Havia tantos sinais, e ela tinha deixado todos passarem, e agora a sua casa estava queimando.
Com os pulmões doendo como se ela tivesse levado um soco no peito, Dawn parou e olhou para trás para o fogo, para as formas fugindo diante dele, e para as formas maiores saltitando na destruição. Ela tentou gravar o momento na memória, escrevê-lo em negrito e permanente em seus pensamentos. Ela sabia que os detalhes iriam desaparecer, mas ela pelo menos poderia tentar.
Com a respiração presa, ela se virou para retomar sua fuga, e gritou quando City surgiu da floresta à sua frente, o rosto torcido em um ricto de um sorriso, dentes brancos demais e olhos brilhantes demais, mãos se estendendo para agarrá-la.
"O Pai Devorador ainda está com fome", disse ele, e não havia mais lugar para ela fugir, nenhum lugar para ela ir—
Dawn acordou gritando, chutando o cobertor fino — na verdade, uma tira de cortina coletada — que ela vinha usando para se proteger contra o frio do sótão. Os guardas em serviço no alçapão que descia para o andar de baixo se viraram para olhar para ela com desinteresse irritado.
"Shh", disse um, enquanto o outro apenas balançou a cabeça e se voltou para sua vigília.
Encolhendo-se de vergonha, Dawn gesticulou um pedido de desculpas e se levantou, dobrando cuidadosamente seu cobertor de cortina de lado. Outra pessoa dormiria ali agora que ela estava acordada, e quem quer que fosse provavelmente apreciaria a consideração. Havia um certo conforto indefinível em desdobrar um cobertor para dormir debaixo dele, como se aquele pequeno ato de destruição tornasse o sono muito mais doce.
Isso feito, ela pegou sua única muda de roupa e se arrastou em direção ao vestiário.
Encontrar um túnel desguarnecido para o acampamento do sótão tinha sido pura sorte, uma chance em um milhão que nunca deveria ter dado certo. Ela havia chegado machucada e arranhada de sua fuga precipitada para a floresta, mas, fora isso, sem ferimentos, e tinha sido capaz de alertar os líderes do acampamento sobre o que havia acontecido com o carnaval antes que os monstros começassem a martelar na porta do sótão.
Se não fosse pelo fato de que o ataque viera do lado oposto da sala da chegada de Dawn, ela teria suspeitado de si mesma por liderar as forças de Duskmourn direto para eles. Como estava, embora lhe tivessem oferecido abrigo, a maioria dos sobreviventes da sua idade a tratava com suspeição. Sua fuga do carnaval tinha sido muito conveniente, especialmente considerando o momento do ataque que se seguiu.
Quase todos no sótão haviam perdido alguém em um daqueles dois ataques. A Mansão nunca fora um lugar seguro para se viver, mas de repente havia se tornado hostil, até mesmo para seus próprios padrões aterrorizantes. Cada assentamento e local de encontro com o qual eles ainda tinham contato havia sido atacado nas últimas semanas; vários haviam desaparecido completamente. Era como se a Mansão, depois de anos tratando as vidas deles como um recurso a ser cuidadosamente guardado, de repente tivesse descoberto que eles não eram necessários afinal. E isso era aterrorizante.
Viver em Duskmourn — não que qualquer um deles tivesse escolha no assunto, não que qualquer um deles tivesse escolhido ficar se tivessem escolha no assunto — nunca foi uma coisa fácil. A Mansão era uma paisagem predatória cheia de monstros, e abateria os incautos no tempo que levava para puxar o fôlego e gritar. Ainda assim, tinha sido a paisagem predatória deles até recentemente, e agora que não estava mais lhes dando tempo para recuperar o fôlego entre os ataques, não estava nada claro quanto tempo mais qualquer um deles seria capaz de suportar.
Dawn entrou no vestiário vazio, acendendo uma lanterna e balançando-a para verificar as sombras antes de começar a trocar de roupa. Tradicionalmente, a Mansão não atacava aqui em cima. Mas seus pesadelos e proles do porão podiam vir de qualquer lugar, mesmo das paredes do sótão, e "tradição" era uma palavra que estava desmoronando rapidamente sob o peso da realidade.
Nada saltou para reivindicá-la. Dawn prendeu o cabelo em um rabo de cavalo áspero e saiu da sala, de volta para o sótão escuro e em grande parte silencioso. Noite e dia eram conceitos que ela conhecia apenas de livros e velhas histórias; às vezes os quartos ficavam mais claros ou mais escuros, mas não havia um grande ciclo, nenhum padrão previsível para os caprichos da Mansão. Ainda assim, havia momentos em que a Mansão estava ativa. Era melhor coletar logo após um grande ataque, quando os monstros estariam saciados e dormindo, e dormir depois disso, enquanto os guardas vigiavam contra qualquer coisa que pudesse não ter encontrado uma refeição grande o suficiente mais cedo.
Dawn acenou para os guardas ao passar por eles novamente, desta vez indo para uma porta na parede mais distante. Uma espiada rápida mostrou que sua oficina ainda estava do outro lado, ainda não levada embora pela Mansão, e então ela passou escorregando e se sentou na bancada de trabalho que ela havia catado para si mesma de tábuas quebradas e pedaços de móveis incompatíveis, alcançando seu projeto atual.
Começara como algum tipo de utensílio de cozinha, quadrado e retangular, com duas fendas na parte superior e uma bobina de aquecimento dentro. Dawn não conseguia imaginar para que teria sido usado, ou como deveria funcionar, mas a bobina ainda era uma excelente condutora, e ao conectá-la a uma bateria, ela tinha certeza de que poderia fazer algo que daria um choque desagradável em qualquer coisa que tocasse.
Ela não tinha amigos no acampamento do sótão, não de verdade. Ela não conhecia seus padrões ou suas tradições, e eles não confiavam o suficiente nela para deixá-la ir em expedições de coleta. Embora eles trouxessem de volta as coisas que ela pedia — de má vontade, mas com confiabilidade suficiente para que ela pudesse retomar a única coisa que lhe trazia alegria verdadeira e genuína, a única coisa que a Mansão não podia tirar, não importava quantas vezes atacasse.
Ela estava de volta ao trabalho.
Sob suas ferramentas e dedos hábeis, pedaços de sucata e lixo eram transformados em armadilhas para fantasmas de pane, laços que podiam desacelerar — não parar, mas ainda assim, alguns segundos podiam ser a diferença entre a vida e a morte — um membro da Estirpe da Navalha em investida, até mesmo cuspidores de fogo que parariam um povo-de-vime em seu caminho. Seus pequenos dispositivos eram pouco mais que brinquedos, e ainda assim. Às vezes, brinquedos eram tudo o que você tinha.
O sótão tinha acesso a matérias-primas diferentes das que o carnaval tinha, tanto em sentidos bons quanto ruins. Havia menos porcas e parafusos para se encontrar aqui, mas mais tubulação de cobre; não tantos pregos, mais pedaços de vidro intactos. Ela estava se adaptando. Arrancando o fundo de seu retângulo de metal, no qual ela já estava começando a pensar como uma caixa de choque, ela tateou em busca do compartimento onde colocaria a bateria.
As baterias eram raras e ficavam mais raras a cada estação. Eram artefatos dos dias lendários antes de Duskmourn se tornar o mundo, produtos da cidade perdida criada durante aquela era de paz e abundância impossíveis. Podiam ser recarregadas por pessoas com o talento mágico para canalizar energia para o metal, ou pendurando-as em um lugar frequentado por fantasmas de pane, embora baterias penduradas dessa forma nem sempre fossem recuperadas.
O compartimento da bateria ficava encostado em um dos lados da caixa, fácil de não se notar, mas vital. Dawn tateou desajeitadamente atrás da bateria com sua mão livre, deslizando-a para o lugar, e empurrou-a para dentro com um clique que pareceu reverberar até seu cotovelo. Recolocando a tampa, ela pressionou o interruptor que iria — ela esperava — ativar sua mais recente criação.
Começou a zumbir, e o pequeno "espeto" de madeira que ela anexara a uma extremidade com uma corda de cobre trançado estalou, transmitindo o fato de que agora era perigoso ao toque. Dawn sorriu para si mesma, pensando no quão impressionada Rill ficaria quando visse que um dos chocadores finalmente se concretizara, que Dawn dera a eles uma nova arma, mesmo que fosse uma que exigisse estar muito mais perto do inimigo do que a maioria deles preferia.
Seu sorriso desapareceu. Rill nunca iria ver. Rill estava morta se tivesse sorte, e viva, mas levada, se não tivesse, transformada pela Mansão em um de seus muitos horrores. Doce e séria Rill. A imagem dela despedaçada por proles do porão era quase preferível ao pensamento de que ela pudesse ter ficado presa dentro da pele tecida de um povo-de-vime, silenciosa e insensível para sempre —
Um estrondo alto vindo do outro lado da porta puxou sua atenção para longe de sua bancada de trabalho. Dawn olhou em volta, com a caixa ainda nas mãos, antes de se levantar lenta e deliberadamente.
Ninguém passava a vida inteira em Duskmourn sem aprender os sinais de perigo. Ninguém havia gritado, ninguém estava choramingando ou lamentando.
Ninguém estava respirando também.
Havia uma certa qualidade no silêncio absoluto que descendia sobre um cômodo cujos ocupantes haviam sido mortos. Dawn se afastou da porta, recuando os ombros contra a parede, e tentou pensar no que ela poderia ter que pudesse usar para se defender. Algumas armadilhas de fantasma meio terminadas, alguns laços, e sua varinha de choque. Isso era tudo. Nem perto do suficiente contra algo que poderia eliminar um acampamento inteiro em um só golpe.
Por um longo tempo, o único som foi o batimento de seu coração, o sangue correndo em seus ouvidos, sua respiração raspando em sua garganta. Então, do outro lado da porta, ela ouviu passos.
Eles se moveram em direção à sua oficina, mas pararam antes de alcançá-la. E uma voz familiar, outrora amada, disse, calma e serena de uma maneira que ele nunca havia sido quando estavam juntos no carnaval:
"Ele deixou você ir, sabe. Eu pedi a ele por sua vida, e ele a concedeu a mim, nosso Pai Devorador fazendo um favor glorioso para seu novo acólito mais amado. Mas eu não tenho mais favores para cobrar até que eu os ganhe, em sangue e osso e terror. Eu não tenho um jeito de te salvar novamente. Venha até nós no Vale da Serenidade. Venha com as mãos abertas e um coração disposto, e nós a conduziremos além do limiar para a sua paz, para sempre. Ou fique como você está, desprotegida e sem escolta, e saiba que você morrerá como todos os outros. A escolha é sua, Dawn. Eu apenas rezo para que você escolha corretamente."
Os passos de City se afastaram depois disso, e o silêncio retornou. Dawn lentamente afundou no chão, as costas permanecendo pressionadas contra a parede o tempo todo, e olhou para o dispositivo em suas mãos, desejando que ele se refizesse em algo que pudesse mudar o mundo, que pudesse fazer com que, quando ela abrisse a porta, o acampamento do sótão não estivesse perdido.
Nada mudou.
Eventualmente, ela se levantou com as pernas trêmulas e se moveu para abrir a porta do sótão. A cena do outro lado era como ela esperava, e não era, tudo ao mesmo tempo. Havia muito poucos corpos. Aos que restavam faltavam pedaços, peles principalmente, mas membros também; a Estirpe da Navalha estivera aqui. Dawn parou para arrancar um facão de um dos mortos enquanto caminhava para o alçapão, com a varinha de choque ainda na mão.
Ela desceu as escadas, e nada a atacou. As sombras, por uma vez, estavam inteiramente vazias e permaneceram assim enquanto ela caminhava pelo corredor, movendo-se dos ecos inquietos dos Brejos Mudos para o frio gotejante dos Fossos Inundados. Ela ouvira rumores de que os Benfeitores seriam encontrados lá.
Ela não tinha outro lugar para ir.
Ela estava caminhando por um corredor de retratos quando uma forma trêmula e defeituosa se puxou de um caco de vidro e se esticou para ela, um terrível vazio de cor e o nada eterno. Ela apontou sua varinha de choque para ele e pressionou o botão que deveria aumentar a voltagem, e em vez de uma faísca, um feixe cintilante de luz estilhaçada irrompeu, envolvendo o fantasma de pane em uma névoa de relâmpagos. Dawn cambaleou para trás, mantendo o botão firmemente pressionado, e esperou que o fantasma se quebrasse antes que a bateria morresse.
As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo, o fantasma se estilhaçando em um milhão de partículas de luz, assim que a bateria estalou e expirou. Subitamente indefesa, exceto por seu facão roubado, ela piscou para o lugar onde o fantasma estivera, depois para a varinha em sua mão, como se tivesse esquecido o que era.
Mãos a agarraram por trás, e ela foi puxada através de uma porta antes que pudesse gritar, para dentro de um teatro empoeirado e em desuso, onde um círculo de sobreviventes em roupas meticulosamente remendadas se virou para olhar para ela.
"Bem-vinda aos Benfeitores", disse aquele que a puxou para a segurança duvidosa da companhia deles. "Ouvimos dizer que você estava nos procurando."
Dawn riu, começando a chorar ao mesmo tempo. O círculo se fechou ao redor dela, e então mãos pegavam sua varinha de choque, duas pessoas estudando-a antes de dizerem que tinham baterias novas e perguntarem se ela se importaria se as instalassem. Ela estava segura aqui. Eles estavam seguros aqui, ou tão seguros quanto qualquer um poderia estar com a Mansão mudando ao redor deles por nenhum motivo que ela pudesse ver.
E ainda assim as palavras de City ecoavam em seus ouvidos.
A escolha era dela.
As mortes, também.
26/08/2024 | Por Mira Grant
Episódio 4: Não Desista
A sombra dourada e reluzente de Kyodai os guiava adiante — embora "guiava" pudesse ser a descrição errada. Não estava claro se o minúsculo dragão sabia que estava sendo seguido ou se entendia para onde estavam indo. Ele havia começado a se mover quando a Errante pediu que ele os ajudasse a encontrar Nashi, mas ele não havia respondido a nenhum pedido desde então, nem mesmo quando ela pediu para que ele fosse mais devagar.
O bruxuleio podia se mover pela Mansão sem medo. Inverno disse que bruxuleios se apagavam às vezes, ou eram extinguidos, mas não como ou por que isso acontecia, e não se havia algum monstro na Mansão dedicado especificamente a apagar esperanças. Se houvesse, ele se movia nas sombras, e ninguém nunca o viu atacar. O bruxuleio continuou no mesmo ritmo, mesmo enquanto ondulava por salas cheias de névoa contorcida, passando por coisas enormes com peles como pontas irregulares de obsidiana que rasgavam e despedaçavam os restos de algo azarado o suficiente para chamar a atenção delas, passando por massas de carne sem olhos e massas rastejantes de olhos. Todos aqueles horrores o ignoravam, deixando-o seguir pacificamente em seu caminho.
Inverno, Niko e a Errante seguiram o bruxuleio, movendo-se com menos confiança descuidada de sua própria sobrevivência, pois eles tinham que cruzar todas as salas pelas quais ele passava a pé e sem atrair atenção. Durante um dos raros momentos em que nada horrível estava por perto, Inverno murmurou com amargura: "Algo já deveria ter pulado na gente a esta altura."
"Não vamos procurar problemas," disse Niko.
"Não estou," disse Inverno. "Se a Mansão está nos deixando passar, isso apenas significa que ela tem algo planejado."
"Então ficamos alertas," disse a Errante, e o grupo continuou se movendo, seguindo o bruxuleio dela para dentro de uma longa galeria cheia de espelhos com molduras de ouro. Metade deles estava quebrada, com cacos de vidro espalhados pelo chão. A outra metade refletia uma distorção estranha e irregular.
Niko esteve em Kaldheim tempo suficiente para ter visto os arco-íris dançantes das fitas de Esika refratados através da névoa congelada, despedaçados em mil pontinhos individuais de luz e cor. Isso era parecido com aquilo, mas … sem vida. Era tão brilhante, tão deslumbrantemente hipnótico, mas, ao mesmo tempo, estava morto.
Inverno continuou avançando até perceber que seus dois companheiros haviam parado para encarar os espelhos. Apenas então ele parou e voltou para ver o que eles estavam olhando. Kyodai o seguiu, demonstrando consciência da situação pela primeira vez desde que a jornada deles começou. Inverno enrijeceu quando viu a cor tremulante refletida no vidro. Xingando baixinho, ele agarrou Niko pelo braço e tentou arrastá-los para longe do espelho que eles estavam encarando.
"Precisamos nos mover," ele disse. "Estamos muito expostos aqui, não podemos ficar parados esperando que terminem de se manifestar."
"Quem?" perguntou Niko.
"Os fantasmas de falha," disse Inverno. "Eles usam superfícies reflexivas para entrar na Mansão. Por muito tempo, pensamos que isso era a prova de que em algum lugar encontraríamos um monte de espelhos que na verdade eram janelas e que nos deixariam sair, mas não. Acontece que você só pode entrar e sair se for alguém que morreu fora da Mansão e de alguma forma ficou tão preso quanto o resto de nós."
Como se convocada por sua explicação, uma entidade trêmula começou a se arrastar para fora da moldura do espelho, a luz mutável e refratada se movendo junto com ela conforme se resolvia em uma forma humanoide e se esticava para Niko. Ecos de seus membros a acompanhavam logo atrás, criando uma nuvem tremulante de distorções meio esboçadas, como se a figura estivesse existindo em todos os tempos ao mesmo tempo, simultaneamente se espalhando pelas probabilidades. Ela não parecia sólida, mas parecia letal do mesmo jeito.
A vaga impressão de um rosto se formou na frente lisa de sua "cabeça", e sua nova boca se escancarou, se esticando na direção de Niko mesmo enquanto continuava a estender a mão.
Os olhos de Niko se arregalaram. "Não," disseram, saindo de sua fuga momentânea. "Não, não acho que faremos isso." Alcançaram o ar vazio ao seu lado e puxaram um estilhaço reluzente de força mágica com tons de azul, girando-o na palma da mão antes de atirá-lo na entidade.
Ele atingiu sem atingir, envolveu sem envolver. O estilhaço atingiu a entidade, e a entidade se foi, enquanto o estilhaço permaneceu, agora preenchido com uma película dançante e multicolorida de luz em constante mudança.
O espelho ficou opaco, não refletindo Niko, mas também não estava mais cheio de luz. Niko pegou o estilhaço no ar e o girou mais uma vez enquanto estudavam seu ocupante, então o abaixou, segurando-o perto do quadril.
Viraram-se e encontraram Inverno os encarando. Ergueram uma sobrancelha. "Sim?" perguntaram.
"Isso foi … você não pode lutar contra um deles," disse Inverno. "Eles pegam você e você morre. Ou você usa um apanha-fantasmas para bani-los lá para fora, de onde eles vieram em primeiro lugar. O que você acabou de fazer não é possível!"
"Acho que ninguém contou isso à coisa do espelho," disse Niko.
O bruxuleio dourado de Kyodai ainda era visível no final do corredor, com a Errante logo atrás. O bruxuleio aparentemente havia conseguido tirá-la de sua própria fuga, e ela estava de volta a segui-lo pelo caminho que, com sorte, os levaria até Nashi. Niko e Inverno se apressaram atrás deles, e os quatro continuaram a avançar Mansão adentro.
Era difícil chamar o que eles estavam fazendo de "ir mais fundo", porque não havia senso de começo ou fim no labirinto de salas e corredores que se espiralavam ao redor deles. As tentativas de Niko de usar a lógica para entender a arquitetura já haviam desmoronado e virado pó há muito tempo, impossíveis de manter diante da recusa teimosa da Mansão em aderir a regras consistentes. Depois do salão de espelhos, eles cruzaram um salão de baile vazio e ecoante cujo teto estava oculto por uma massa sólida de teias de aranha que pulsavam e tremiam como se algo invisível se movesse acima, ciente deles, mas ainda sem atacar.
Aquela sala não dava para outro espaço claramente fechado, mas sim para o que parecia um pedaço de floresta envolto nas paredes de vidro e filigrana de metal de uma estufa. Elas se erguiam mais altas até do que as árvores, formando uma cúpula pontuda acima, e o ar, embora cheirasse a terra e a coisas verdes crescendo, era tão estático e estagnado quanto qualquer coisa em ambientes fechados.
"Ainda estamos do lado de dentro," disse a Errante.
Inverno franziu a testa para ela. "É claro que estamos," ele disse. "Tudo está do lado de dentro. Você ainda não percebeu? Não sobrou nenhum lado de fora. A Mansão pegou tudo anos atrás, e agora tudo está do lado de dentro, exceto pelos fantasmas de falha e o vazio de onde eles vêm."
"Alguém deve ter construído este lugar," disse a Errante. "Eles não podem ter feito isso se já estivessem presos dentro dele."
Inverno zombou.
O bruxuleio os estava guiando em direção às árvores. O trio se aproximou enquanto o seguia, sentindo-se pequeno e inconsequente à sombra daquela floresta cativa. Havia algo tão profundamente antinatural naquela cena que fez com que seus nervos já inquietos ficassem à flor da pele, e Niko teve que lutar para não criar um novo estilhaço, apenas para ter uma arma na mão. A Errante sacou sua espada enquanto caminhava, segurando a lâmina baixa e preparada à sua frente.
O bruxuleio parou abruptamente e começou a girar em círculos no ar, seu brilho iluminando as árvores ao seu redor. A Errante parou, franzindo a testa, então caminhou em direção a ele com a mão livre estendida, a palma virada para o que deveria ser o céu.
O bruxuleio parou de girar e pousou, por apenas um momento, na mão dela. Então ele subiu e esvoaçou para pairar sobre seu ombro. Ela olhou mais fundo nas árvores e cambaleou para trás, mal conseguindo engolir um engasgo.
"O que é isso?" perguntou Inverno, com voz baixa.
Ela balançou a cabeça ferozmente enquanto se virava para encarar seus companheiros, então fez um gesto brusco com a mão livre. Eles a olharam com expressões vazias. Ela fez o gesto de novo, então suspirou e sussurrou: "Adiante. Não façam nenhum som."
Juntos, os três se agruparam para olhar através da fenda nas árvores e contemplaram um pesadelo.
Um fogo frio queimava no centro de uma clareira aparentemente natural, com as bordas irregulares e cravejadas de pedras e raízes. As faíscas que voavam das chamas tomavam a forma de flocos de neve em vez de cinzas, brilhando em branco-azulado enquanto caíam no chão.
Gaiolas de vime em formato de barril cresciam ao redor do "fogo", parecendo terem sido plantadas em vez de construídas; seus troncos levavam a raízes grossas que perfuravam o chão como pregos. Havia sete ao todo, quatro delas ocupadas por ratos humanoides que se esquivavam das barras que os cercavam, rosnando e estalando os dentes como os prisioneiros aterrorizados que eram. Do lado de fora das gaiolas, seus captores dançavam e saltitavam.
Os prisioneiros eram fáceis de classificar — povo-rato não era algo com o qual Niko fosse familiar, mas não eram nenhum grande exagero quando comparados aos sátiros e centauros de seu lar. Pessoas com aspectos animais eram tão comuns em Theros que era um pouco mais surpreendente que não houvesse povo-rato. Os captores eram outra questão. Esqueléticos e estranhos, eles pareciam mais com constructos de vime e gravetos amarrados do que com qualquer outra coisa. Alguns eram decorados com flores, imitando cabelo ou outra ornamentação; um estava usando o que parecia quase como um vestido tecido de urzes espinhosas. Eles se moviam de forma rígida, como convinha a criaturas feitas de madeira, e enquanto passavam pelas gaiolas, eles esticavam as mãos para chacoalhá-las, fazendo seus prisioneiros correrem para o outro lado.
"Nashi," suspirou a Errante, com os olhos fixos no menor do povo-rato, que estava sentado no fundo de sua gaiola, com os braços ao redor dos joelhos. Ele não rosnou enquanto os dançarinos passavam por sua gaiola, apenas os encarou com fúria silenciosa, observando cada um de seus movimentos. Era quase como se ele estivesse tentando memorizá-los para mais tarde, qualquer que fosse o bem que isso fosse fazer.
Os outros três do povo-rato estavam menos contidos. Um deles investiu contra a mão que chacoalhava sua gaiola, mordendo o ar a apenas alguns centímetros dos "dedos" de gravetos e emaranhados da criatura. Em resposta, a criatura parou de dançar e começou a estalar, um som de clique estranho e terrível que mesmo assim forneceu uma pequena cobertura enquanto Inverno sussurrava: "Povo-vime. Deveríamos ir. Seu amigo já está perdido."
"Nós já ouvimos isso antes, sobre outros amigos, em outros lugares," sussurrou a Errante, com a espada erguida e pronta.
Na clareira, o povo-vime abriu a gaiola e esticou a mão, agarrando a pessoa-rato pelo pulso e cravando seus dedos profundamente na carne da pessoa-rato ao mesmo tempo. O rato gritou, um som terrível e uivante, mas não mordeu a mão ofensora. Era mais como se estivesse aterrorizado com ela.
O povo-vime soltou e deu um passo para trás, deixando buracos escancarados no braço da pessoa-rato. Buracos que não sangraram, mas que exsudaram uma seiva lenta e cor de âmbar por apenas um instante antes que novos brotos verdes irrompessem da ferida.
A pessoa-rato gritou de novo. A Errante, que foi a única a reconhecer os brotos como bambu verde de Kamigawa, cobriu a boca com a mão. Os brotos continuaram a crescer, cada vez mais rápido, se enrolando ao redor da pessoa-rato até que ela fosse completamente obscurecida. Houve um triturar final e repugnante, e os gritos pararam. A pessoa-rato havia desaparecido, deixando um boneco de vime tecido para trás, sem vida e inerte.
Até que ele começou a se mover, de forma trêmula e rígida, e saiu da gaiola para se juntar aos outros dançarinos ao redor do fogo congelado. Era mais baixo do que a maioria das outras criaturas — mas não de todas, Niko percebeu com um horror crescente. Outras três eram baixas e esguias, com "caudas" feitas de raiz retorcida ou urze emaranhada que imitavam a anatomia do povo-rato.
A dança foi retomada, mais rápida agora, como se tivessem sido revitalizadas pela adição de mais um de sua própria espécie.
Niko começou a se virar para a Errante, apenas para vê-la pular, de espada na mão, em direção às figuras dançantes. Ela gritou algo enquanto aterrissava entre eles, uma visão rodopiante de morte vingativa. Sua espada brilhava em prata à luz do "fogo", cortando membros e cabeças das criaturas, que pararam de dançar para avançar sobre ela como os pesadelos que eram.
Ela usou sua lâmina para cortar a parede da gaiola de Nashi e estava girando de volta para seus oponentes quando ela congelou, com a boca se abrindo em um grito silencioso. O sangue começou a florescer na frente de seu tabardo antes que galhos de árvore irrompessem de sua caixa torácica, consumindo-a rapidamente enquanto Nashi observava com horror, ainda preso dentro de sua gaiola. A espada caiu de sua mão quando a fraca luz dourada de seu bruxuleio morreu, extinguida pela Mansão. A criatura que tinha sido a Errante começou a se virar em direção aos seus antigos aliados, ainda ciente de sua localização, mas não mais sua companheira —
E a visão se despedaçou enquanto a Errante engasgava, levando a mão ao bolso onde ela havia guardado o alterador de destinos de Aminatou. Ela encarou Niko, que a encarou de volta silenciosamente, nenhum dos dois certos do que poderia ser dito sobre uma escolha quase feita e evitada por pouco.
Inverno olhou entre eles, franzindo a testa. "O que há de errado com vocês dois?" ele perguntou. "Este não é um lugar seguro para parar e ficar olhando. Nós deveríamos ir."
"Isso … não é como eu achei que essas coisas funcionassem," disse Niko.
"Não," disse a Errante. "Eu não acho que vou fazer isso."
"Bem, você vai ter que fazer alguma coisa!" disse Inverno, parecendo aterrorizado.
Niko e a Errante se viraram para olhar de volta para a clareira. As criaturas não estavam mais dançando. Em vez disso, elas haviam virado suas "cabeças" para o trio, observando-os sem olhos. A quietude delas dava a impressão de um movimento prestes a entrar em erupção, da pausa antes do ataque.
"Certo," disse Niko, e puxou um estilhaço limpo do ar, segurando o estilhaço vazio em uma mão e o estilhaço cheio da névoa branco-azulada mutável do fantasma de falha cativo na outra. Movendo-se rapidamente, eles mergulharam para frente e arremessaram os dois estilhaços no mesmo movimento. O estilhaço ocupado atingiu a criatura líder e explodiu, envolvendo-a na forma uivante do espectro de luz despedaçada.
O segundo atingiu Nashi, envolvendo-o enquanto voava para frente, através das barras da gaiola. Ele se incrustou em uma árvore próxima, a uma distância segura do círculo, com Nashi lá dentro.
Arte por: Jarel Threat
Inverno se agachou, tentando se esconder, enquanto Niko e a Errante avançavam em direção à clareira. O fantasma ainda estava consumindo a criatura líder, fazendo um som terrível, como pregos enferrujados sendo arrastados sobre estanho. As outras criaturas pareciam confusas, atacando sem nenhum propósito discernível.
A Errante se esquivava delas facilmente, movendo-se para cortar as outras gaiolas ocupadas. Os nezumi cativos caíram, levantando-se apressadamente e pegando pedras para usar como armas improvisadas. "Fogo", ofegou um deles. "Eles temem o fogo."
"Fogo, é?" perguntou a Errante. Niko estava se defendendo, arremessando estilhaços e pedras com igual força, acertando seu alvo todas as vezes. Ela se afastou da luta, correndo para a árvore onde o estilhaço contendo Nashi havia pousado. Soltando-o, ela continuou correndo, contornando a batalha até onde Inverno estava agachado.
"Você tem alguma fonte de fogo?" ela exigiu. "Você mencionou ferramentas — há alguma entre elas?"
Inverno tateou no cinto por um momento antes de encontrar um pequeno retângulo preto do tamanho de sua palma. Ele o ofereceu a ela. "Você aperta o botão vermelho em cima," ele disse. "Nós usamos para acender pavios e fazer luz."
"Segure isso."
Ela entregou o estilhaço de Nashi a ele com toda a reverência que conseguiu reunir, depois se virou e mergulhou de volta na briga.
As criaturas caíam conforme Niko as cortava, mas se levantavam de novo com uma velocidade notável e terrível. Apenas as que eles trancavam em estilhaços eram verdadeiramente removidas da luta, e ela não sabia qual era o limite daquela magia. Agarrando um punhado de grama áspera da borda do círculo, ela segurou a caixa preta próxima e apertou o botão.
Uma chama minúscula saiu, e a grama se acendeu, queimando como um farol. Ela jogou o feixe no meio das criaturas, que entraram em pânico, abandonando suas tentativas de atacar Niko e os nezumi em favor de correr mais fundo na floresta. A Errante voltou para Niko, que estava verificando se tinha ferimentos.
"Você é uma oponente feroz," ela disse.
"Eu nunca erro," disse Niko. "Você também não é nada mal nisso."
Eles voltaram para Inverno, com os dois nezumi seguindo a uma distância cuidadosa. A Errante devolveu a caixa dele, pegando o estilhaço em troca.
"Você pode soltá-lo?" ela perguntou.
Niko concordou com a cabeça, pegando o estilhaço e o dispensando. Nashi de repente estava ali, parecendo perplexo por apenas um momento antes de a Errante o puxar para um abraço. Ele se afastou e ela deu um passo para trás, parecendo decepcionada.
"Você veio," ele disse, com os bigodes tremendo.
"É claro que eu vim," ela disse. "Eu só queria que você tivesse vindo até mim. Eu teria ajudado."
"Nós ajudamos os nossos," disse um dos outros nezumi.
A decepção da Errante apenas cresceu. "Entendo," ela disse.
"Estou procurando por minha mãe desde que cheguei aqui," disse Nashi. "Acho que sei onde ela está. Mas acabamos de perder a maior parte da equipe que trouxe comigo. Se vou encontrá-la, preciso de sua ajuda."
O gemido continuou a jorrar das paredes, sem fim, ecoando e rangendo de um jeito que não deveria ter sido possível para um simples som. Jace e Kaito ficaram costas com costas, tornando mais difícil para que algo os emboscasse. A parede começou a ondular como lama espessa, até que alguma coisa terrível, informe e com tentáculos começou a rastejar para fora e para dentro do quarto onde os dois estavam.
Parecia algo que seria encontrado no fundo do mar, mole e sem forma, incapaz de suportar o próprio peso. Claro, não precisava; ela flutuava acima do chão enquanto se libertava, a frente do seu manto gelatinoso se abrindo numa boca cheia de dentes irregulares, na qual as formas flutuantes de cabeças fantasmagóricas podiam ser vistas. Pareciam ser feitas de fumaça, ou névoa, algo insubstancial e fino.
"O que é isso?" perguntou Kaito.
"Parece … mas não pode ser," disse Jace. Seus olhos brilharam em branco-azulado enquanto ele voltava sua magia mental para a coisa, então retornou ao normal. "Ela não tem mente. As cabeças dentro de sua boca, elas têm mentes, mas não estão conscientes da coisa. Isso é um pesadelo que ganhou substância."
"Um pesadelo pode nos machucar?"
"Melhor presumir que pode do que presumir que não."
"Ótimo."
O pesadelo os atacou com dois longos tentáculos. Kaito não esperou para ver se eles atingiriam. Ele moveu a mão em um movimento de corte, e as pequenas lascas de pedra que cobriam o chão se ergueram em uma parede de detritos que bloqueou o ataque, desviando-o. Os detritos não caíram de volta. O pesadelo a observou e continuou a avançar.
"Como se luta contra um pesadelo?" ele exigiu.
"Você tira os sonhos dele," disse Jace. "Mantenha-o ocupado por um momento."
Sua silhueta borrou, e então ele pareceu desaparecer, bloqueando-se da vista. Kaito xingou e se esquivou, rolando para fora do caminho de outro ataque daqueles tentáculos.
Com Kaito sendo o único alvo visível, o pesadelo se concentrou nele, perseguindo-o pelo porão enquanto Jace fazia o que quer que fosse fazer. Kaito se esquivou e rolou, ocasionalmente desviando um tentáculo com sua espada, mas principalmente tentando evadir.
E então, com um gemido gutural, o pesadelo explodiu em uma névoa nublada. O gemido parou. A parede voltou ao normal. Os restos do pesadelo flutuaram para o chão, onde se dissiparam. Kaito se virou para encarar, incrédulo, a sala.
Jace reapareceu, com os olhos brilhando, parecendo sem fôlego.
"O que você fez?" perguntou Kaito.
"Um pesadelo não pode viver sem o medo que o alimenta," disse Jace, parecendo levemente convencido. "Entrei nos sonhadores que senti dentro dele e tirei seus medos."
Kaito continuou encarando.
"O que foi?"
"Tudo nesta mansão quer te matar! Você não acha que eles podem precisar ter um pouco de medo?"
"Eu não tirei todo o medo deles, ou a capacidade deles para o sentimento. Apenas o medo específico que estava tentando nos matar. De nada, a propósito."
"Lembra como seu nariz não estava quebrado antes?"
"Sim …"
"Ainda podemos tentar de novo."
Jace suspirou. "Não estou aqui para lutar, Kaito. Sinto muito por ter desaparecido depois da invasão. Não direi que não tive escolha, mas das escolhas que tive, afastar-me por um tempo foi a correta."
"Se você não está aqui para lutar, por que está aqui?"
"Estive viajando com Vraska e nossa nova companheira. Eu as perdi, e acho que elas podem estar em algum lugar nesta mansão. Tenho que encontrá-las.""Sim, você nunca conseguiu deixar Vraska desacompanhada, não é?"
"Eu sei que você quis dizer isso como um comentário sobre a minha necessidade da companhia dela, e não sobre a capacidade dela de cuidar de si mesma, mas não, eu não gosto de deixá-la sozinha. Eles precisam de mim. Então, se você pudesse parar de me bater, nós poderíamos trabalhar juntos para encontrar todos os nossos amigos desaparecidos."
Kaito o encarou. "Depois do que aconteceu em Nova Phyrexia … nós ainda não somos amigos, Jace."
"Eu posso conviver com isso. Mas isso significa que nós dois temos que viver."
Juntos, eles se moveram mais fundo no porão.
A criatura não estava mais os seguindo.
De alguma forma, isso era pior do que a perseguição dela. Pelo menos aquilo tinha sido previsível. Mas ela havia parado vários corredores atrás, deixando-os fugir sem nada do que fugir. Zimone estava sem fôlego e continuava voltando para recuperar livros derrubados. Finalmente, ofegante, ela desabou contra uma parede e deixou sua cabeça cair para frente.
"Amiga Zimone?" perguntou Tyvar. "O que você está fazendo?"
"Eu preciso respirar," ela disse. "Apenas me dê um segundo."
Relutantemente, Tyvar se moveu para ficar ao lado dela, olhando para trás pelo caminho que eles tinham vindo. A Casa havia continuado a se rearranjar durante a fuga deles; olhar para trás nunca mostrava a sala em que eles estiveram um momento antes, mas algo inteiramente novo.
Tyvar quase apreciou as transformações constantes. Isso os impedia de ficarem complacentes, de esquecerem que este lugar era o inimigo deles. Parecia que eles estavam correndo através do intestino de alguma criatura vasta, algo na escala de Koma, vasta demais para compreender ou raciocinar. Tudo o que eles podiam fazer a partir daqui era sobreviver.
A parede na frente deles começou a pulsar e torcer de uma forma que Tyvar estava começando a reconhecer. Ele se endireitou, preparando-se para combater a criatura de volta novamente, quase aliviado por retornar ao padrão familiar de ataque e defesa. A torção continuou, e o que se soltou não foi o atacante esguio e terrível, mas uma elegante mulher elfa com seu cabelo puxado em um nó alto no topo de sua cabeça, óculos emoldurando olhos inteligentes, e uma aparência geral vagamente transparente.
"Zimone," ela disse. "Aí está você, garota travessa. Você tem estado ausente das minhas aulas por semanas."
A cabeça de Zimone se ergueu bruscamente, olhos se arregalando. "D-Decana Kianne?" ela perguntou. "Mas você — eu vi você —"
"Phyrexia? A invasão? Eu deixei eles me levarem, querida. Eu tinha que provar minhas teorias de transformação e reflexão de mana, e eu provei tanto. A completação destrancou as portas finais na minha pesquisa, e eu finalmente entendo tudo. Como você entenderia, também, se apenas você tivesse continuado vindo para a aula."
"Não, mas você … quando Phyrexia foi derrotada, você morreu. Nós perdemos você, e você morreu."
"Nada que é lembrado morre, querida. A memória é uma forma de magia, e a magia existe para ser usada." Ela estendeu uma mão de dedos longos em direção a Zimone. "Venha aqui, e eu lhe mostrarei."
Zimone fungou, e começou a dar um passo em direção a ela, apenas para a mão de Tyvar em seu ombro puxá-la para parar. Ela lançou-lhe um olhar afiado.
"Me solte. Essa é a Decana Kianne."
"Que você viu completada," ele disse. "Que você viu morrer. Por que ela estaria aqui? Por que ela estaria tentando convencer você a ir até ela?"
A sombra de Kianne estreitou seus olhos, encarando-o. "Você interfere onde não tem negócios, estranho."
"Eu tenho todos os negócios. Sem ela, eu nunca vou sair desta casa. Eu me recuso a deixar minha história terminar aqui, inacabada e não contada."
"Então você interfere por egoísmo."
Tyvar franziu a testa para ela, ainda segurando Zimone para trás. "Eu interfiro porque você é um truque! Uma armadilha! Ela verá a sua verdade quando se recuperar do choque."
"Verá?"
"Você não pode ser a Decana Kianne," disse Zimone, voz tremendo. "Ela … ela morreu. Eu gostaria que ela não tivesse, mas ela morreu."
"Oh, é assim que vai ser?" O rosto de Kianne perdeu seus últimos traços de gentileza. "A pequena acadêmica presunçosa só acha que pode sobreviver porque ela tem um 'herói' para alimentar o moedor de carne, mas eles estão sempre morrendo para proteger você, não estão, Zimone? Quanto do seu próprio colégio não sobreviveu porque eles pensaram que a fraca, doce e pequena Zimone deveria ser poupada de Phyrexia?"
"Isso não é justo," gemeu Zimone.
"Não é justo que você esteja viva," rosnou a decana fantasmagórica, e avançou para ela. Zimone gritou e se esquivou, escondendo-se atrás de Tyvar, que manteve sua posição.
O contorno da Decana Kianne ondulou enquanto ela se movia, e Tyvar deu um meio passo para trás, ainda protegendo Zimone do ataque dela. A mão com garras da criatura que estava os atacando antes apareceu através do peito translúcido da decana de Quandrix, pegando Tyvar na sua seção intermediária desprotegida, fatiando através de pele e músculo com facilidade. Tyvar cambaleou para trás, sentindo coisas chapinharem e se soltarem, escorregando para fora das feridas abertas.
"Tyvar!" gritou Zimone, enquanto Tyvar caía, olhos abertos encarando o nada —
E o momento se despedaçou como o gelo na beira de um rio em uma manhã de inverno, deixando Tyvar ofegante, uma mão indo para o alterador de destino que ele havia guardado em seu cinto. A Decana Kianne ainda não havia se movido. Não havia sinal da criatura.
"O que eu fiz de errado?" ele perguntou. "Aminatou disse que eles deveriam nos reverter quando nós fazemos algo errado."
"Você ficou e lutou," disse Zimone. "Essa não é a Decana Kianne. Nós temos que correr!"
"Não," disse Tyvar. "Quando isso me cortou, eu senti …" Ele ajustou sua postura, olhando desafiadoramente para a Decana Kianne. "Lute comigo, se você ousa, fantasma."
Ela rosnou e avançou novamente. Desta vez, ele deu um passo para trás, e quando a garra da criatura apareceu do peito dela, ele agarrou seu pulso antes que pudesse fazer contato, seu conhecimento da luta que ele não tinha realmente perdido ainda dizendo-lhe exatamente onde e como ficar. Ela uivou. Ele apertou seu aperto no pulso dela, enquanto o que parecia reboco começou a rastejar por suas mãos, engolfando seus braços. Ainda assim ele segurou, a transmutação se espalhando mais e mais rápido, até que seu corpo inteiro estivesse da cor da pele da criatura.
Ele a soltou. Ela não balançou para ele de novo. Em vez disso, ela se virou para Zimone, um rosnado dividindo seu rosto enquanto a falsa Decana Kianne flutuava de volta para a parede. Tyvar avançou para Zimone. Assim fez a criatura. Zimone gritou quando Tyvar envolveu seus braços ao redor dela, puxando-a para um abraço que não era menos aterrorizante por vir de um aliado. A magia dele banhou sobre ela, e ela sentiu sua própria pele começar a mudar.
Abruptamente, a criatura se virou e começou a correr pelo corredor, deixando-os.
"O que …?" perguntou Zimone.
"A criatura — besta — o que quer que seja — ela não pode ser morta porque ela não vive," disse Tyvar. "Não da forma que nós reconhecemos a vida. Ela é da Casa. Assim é a imagem da sua amiga perdida. Elas são feitas da Casa, madeira e reboco para uma, poeira para a outra."
Zimone franziu a testa. "O que você quer dizer?"
"A carne delas é a carne da Casa, e agora … nós também somos."
Zimone piscou. "O que?"
"Até eu liberar a magia, nós somos feitos da Casa, e a Casa não nos vê como invasores. As defesas naturais dela devem nos deixar em paz."
"Eu … oh." Zimone reuniu o resto de seus livros e se levantou, tentando não olhar para suas próprias mãos transformadas e inquietantes. "Por quanto tempo você pode fazer isso?"
"Agora mesmo, eu sinto que posso fazer isso para sempre."
Zimone decidiu não questionar isso. O corredor à frente deles estava reto e limpo, e então ela acenou para que ele a seguisse enquanto ela voltava a caminhar.
A Casa não parecia mais ciente deles, ou se importar para onde eles iam. Nada mudou ou se deslocou enquanto eles caminhavam, e portas que tinham estado fechadas levavam aos mesmos quartos quando abertas novamente. Eles continuaram em frente, até que alcançaram uma câmara circular com um corredor de cada lado cheio de portas de madeira de cerejeira. Cada uma delas era entalhada de forma ornamentada da maneira que a porta em Ravnica tinha sido, mas em motivos sutilmente diferentes.
"Isso parece com o embelezamento na ala de estudos de Quandrix," disse Zimone, olhando para uma porta.
"Este é o design no salão de banquetes do meu irmão," disse Tyvar, olhando para outra porta.
"Está se espalhando," disse Zimone. "As portas … está montando iscas em lugares onde pode ser capaz de atrair mais pessoas."
"Mas por que?" perguntou Tyvar, olhando para outra porta, esta gravada com mariposas e edros, meio bloqueada por tábuas marteladas através da sua moldura, como se esta porta entre todas elas não tivesse permissão para abrir. Zendikar poderia estar do outro lado. A perigosa, deliciosa Zendikar, pronta para ser devorada.
Espere. Devorada? Ele parou, franzindo a testa. "A Casa está … com fome," ele disse.
"Casas não podem ter fome."
"Esta tem. Ela vai se espalhar, e capturar, e engolir tudo mais fraco que ela mesma. Ela será tudo. Não haverá mais nada."
"Tyvar? Isso não … você não soa …" Zimone parou enquanto percebeu que ele também não soava inteiramente errado. Havia algo de atraente na ideia de rasgar o Multiverso inteiro em dois, de pegá-lo e puxar os pedaços macios, os deliciosos centros doces …
Flashes da invasão phyrexiana encheram seus pensamentos, monstros se espalhando através do seu amado campus, monstros que tinham sido amigos e colegas de classe e professores apenas momentos antes. Ela arranhou para raspar sua própria pele dura como reboco, lembrando das transformações de porcelana deles. Isso era realmente tão diferente? Isso era apenas outra forma de Phyrexia?
Havia qualquer caminho de saída? Enquanto o retumbante não ecoava através dos seus pensamentos, ela gritou e caiu no chão, o corpo quebrando de dentro enquanto florescia em uma nova, menor versão da criatura de antes, finalmente consumida, finalmente em casa —
E ela estava olhando para a porta de Strixhaven, seu alterador de destino um carvão em brasa contra sua pele. Ela se virou rapidamente, agarrando o braço de Tyvar.
"Deixe a camuflagem ir," ela implorou.
"Mas por que? Ela nos protege, nos mantém fortes—"
"Ela está nos comendo!"
Tyvar franziu a testa. Um herói a protegeria, e ainda assim ele queria devorá-la. "…sim," ele disse, relutantemente.
O reboco sangrou para fora das peles deles até que eles fossem eles mesmos novamente. Zimone exalou em alívio. "Ok," ela disse. "Nós temos que parecer como parte da Casa, ou ela nos ataca, mas nós não podemos ficar dessa forma para sempre, ou ela nos ataca de uma forma diferente."
"Sinto muito," disse Tyvar, soando aflito. "As coisas que eu estava pensando em fazer com você — sinto muito. Um herói nunca deveria."
"Venha." Zimone agarrou o braço dele, apressando-se pelo cômodo em direção à saída. Havia um longo corredor além, muito parecido com todos os outros que eles tinham visto. "Você ainda pode nos esconder: nós só não podemos manter isso por muito tempo. Nós precisamos enganar a Casa de outras formas." Ela mudou seus livros para segurar debaixo de um braço e pegou um dispositivo quadrado do chão onde havia caído, pendurando-o sobre seu ombro. "Encontre algo que você possa carregar — ou melhor, vestir. Talvez se nós parecermos que somos deste lugar, ela não vai nos querer tão desesperadamente. Você poderia usar uma camisa ou algo assim."
Tyvar vasculhou ao redor do conjunto mais próximo de prateleiras, puxando um colete esfarrapado. Ele o vestiu. "Isso serve?"
Zimone olhou para ele, seu peito e abdômen ainda expostos, e engoliu um suspiro. "Está ótimo," ela disse. "Vamos continuar."
Não mais ocultos dos muitos olhos da Casa, eles começaram a se mover novamente, para longe do quarto das portas, indo para um destino desconhecido.
Nashi liderava o caminho, com o resto do grupo logo atrás, a forma cintilante de Kyodai flutuando sobre o ombro da Errante enquanto eles caminhavam. Niko ficou para trás, mantendo o passo com Winter, a quem eles assistiam cautelosamente.
"Você tem estado sozinho aqui todo esse tempo?" eles perguntaram.
Winter franziu a testa. "Quanto tempo você quer dizer?" ele respondeu. "Eu não sou daqui. Não originalmente. Minha melhor amiga e eu, nós caminhamos através de uma daquelas portas anos atrás. Nós passamos muito tempo navegando na Casa por conta própria. Ela … ela se foi agora."
A dor na voz dele era impossível de ignorar. Niko fez uma careta solidária, desviando o olhar. "Sinto muito," eles disseram. "Isso deve ter sido difícil. Mas você está conosco agora. Nós vamos encontrar um caminho para fora daqui, e nós vamos te levar conosco, se você estiver pronto para deixar este lugar."
"Eu estive pronto desde que cheguei aqui," disse Winter.
Na frente do grupo deles, a Errante virou-se para Nashi. "Eu gostaria que você olhasse para mim," ela disse.
"Por que?" ele perguntou. "Eu sei como você é. Nós vamos por aqui." Ele se virou, e o resto deles seguiu.
"Porque eu gostaria de ver o seu rosto enquanto nós discutimos o que será feito a seguir."
"Não há nada para discutir. Esta casa levou minha mãe. Nós vamos trazê-la de volta."
"Nashi …"
"Phyrexia levou minha mãe, e ela veio para casa. Então você levou minha mãe, e ela voltou. Ela não me deixa. Isso significa que eu não a deixo."
"Nashi—"
Um dos nezumi restantes tocou o braço dela. Ela olhou. "Nós tentamos. Quando nós percebemos que a porta era uma isca, e isso era uma armadilha, nós tentamos. Ele não vai ouvir você. O luto dele não acabou ainda."
A Errante olhou para Nashi, lábios pressionados em uma linha fina, e não disse nada enquanto o grupo continuava.
Não mais pesadelos tinham vindo para atacar Jace e Kaito. Isso era uma coisa boa. O porão parecia continuar para sempre, rastejando o seu caminho mais fundo e mais fundo na terra. Escadas desciam mas nunca subiam. Nenhuma janela apareceu.
O porão deu lugar a sala de caldeiras a armazenamento subterrâneo a um átrio vazio cujo teto de vidro olhava para um céu salpicado de estrelas não familiares a uma grande caverna que teria parecido natural se não pelos remendos de tijolo nu aparecendo através da pedra quebrada. Havia uma porta na extremidade oposta. Jace e Kaito começaram a ir em direção a ela e estavam no meio do caminho quando o chão cedeu debaixo de seus pés e eles caíram, não para o nada, mas para um poço preenchido com alguma substância espessa, gelatinosa que ardia suas peles e agarrava seus membros, tornando difícil de mover.
Degraus em qualquer parede do poço pareciam oferecer um caminho de saída. Kaito trabalhou seu caminho em direção ao mais próximo deles, Himoto guinchando encorajamento no seu ouvido, o gel retardando-o para um rastejar. Esforçando-se, ele conseguiu escovar as pontas de seus dedos contra o metal e gritou quando ele sentiu algemas se apertarem ao redor de seus tornozelos.
Jace ofegou, e Kaito olhou para ele. "Isso apenas agarrou você?" ele perguntou.
"Grilhões," disse Jace. "Nós estamos devidamente presos."
"Talvez." Havia folga o suficiente no que quer que fosse que os estava segurando que Kaito foi capaz de trabalhar o seu caminho de volta até Jace, então olhar para baixo, usando a sua telecinese para empurrar o gel para longe e formar um túnel estreito. Ele estava ofegante quando os pés do outro homem apareceram na visão.
"Isso é … tudo que eu posso … Eu não consigo segurar o gel e trabalhar nas fechaduras," ele disse. "Mas Himoto consegue."
O drone correu pelo braço dele para saltar na perna de Jace enquanto as correntes nos tornozelos deles solavancavam para baixo, puxando-os mais fundo. Mais alguns puxões como esse e eles se afogariam.
Himoto começou a trabalhar nas fechaduras nos grilhões de Jace, manipulando os tambores até que eles clicaram abertos. Jace puxou seus pés para cima, agarrando pelo degrau mais próximo na parede. Desta vez, nada veio agarrar por ele. Ele estendeu a mão para trás, oferecendo a Kaito o seu braço. "Eu vou ajudar a segurar você para cima," ele disse. "Mantenha o seu foco, e nós vamos tirar a nós dois daqui … de …"
Sua voz desapareceu enquanto ele encarava alguma coisa acima. Kaito inclinou a sua cabeça para trás, seguindo o olhar de Jace.
Lá, projetada no teto, estava Vraska, protegendo uma pequena criatura de pelo laranja com seu corpo enquanto ela se esquivava de um grupo de criaturas que pareciam ser feitas inteiramente de lâminas.
"Eu não posso," disse Jace. Ele olhou de volta para Kaito. "Eu sinto muito. Ele é importante demais."
Antes que Kaito percebesse o que estava acontecendo, Jace começou a escalar. Toda vez que ele tocava em um degrau além do primeiro, as algemas no tornozelo de Kaito sacudiam-no ainda mais para baixo.
"Jace! Volte aqui, você—" ele uivou, antes que ele fosse puxado para o fundo.
Ele sentiu Himoto se prender em sua perna. As algemas deram outro empurrão, puxando-o mais fundo. Ele não podia abrir os seus olhos sem colocar o gel neles, e ele não conseguia respirar.
Eu sinto muito, meus amigos; eu deveria ter quebrado o nariz dele quando eu tive a chance, ele pensou, e planinavegou para longe, de volta para Ravnica, de volta para o começo, onde ele poderia ainda sobreviver.
27/08/2024 | Por Mira Grant
Mantenha-os Vivos
Crescido agora, criança, forte e sólido e pronto para enfrentar os horrores dos salões. Deixe-me dar uma olhada em você, a visão antes de você ir.
O casulo foi gentil. Nem sempre é. Quatro pernas boas e dois braços bons, dentes e garras tão afiados. Oh, você será um bom protetor, uma forte defesa contra o pesadelo errante e o perigo invisível! Você servirá muito bem, protegerá muito habilmente e será uma linha bem desenhada no mural da nossa história!
Você está pronto, não-mais-criança, para entender o seu propósito aqui. Venha comigo, e eu lhe direi o que você é, o que você será, enquanto o levo ao seu começo destinado.
Nascidos somos da Mansão, como todas as coisas boas devem nascer da Mansão — como todas as coisas perversas também devem nascer, pois a Mansão é tudo. Existem lendas de um tempo antes de a Mansão ser tudo, quando era apenas um sussurro carregado nas asas das mariposas, nos dizendo o que um dia poderia vir a ser, mas essas são apenas lendas; elas não mudam nada do nosso viver de agora. Nessas histórias antigas, no entanto, éramos como os mantenha-vivos; existíamos fora da Mansão. Então as paredes se fecharam ao nosso redor, e os casulos vieram, e nos casulos, nós fomos primeiro renascidos, embora não fôssemos crianças como você era quando a doce seda se fechou ao seu redor. Éramos criaturas crescidas e diferentes do que somos agora, como você era diferente antes do seu próprio encasulamento. Esse é o caminho da Mansão. O que existe aqui é mudado, tanto para a sua própria segurança quanto para a diversão da própria Mansão.
Claro que falo da Mansão como uma coisa viva. Qualquer um que caminhe por aqui pode vê-la como uma coisa viva, ver a maneira como ela se move, responde e reage. A Mansão se move com intenção. A Mansão compreende o que acontece com seu corpo, pelo menos até certo ponto. Sua consciência é questionável. Sua vida não é.
Assim como a nossa não é.
Quando o primeiro de nós emergiu de nossos casulos para o esplêndido horror da Mansão, vagamos sem compreensão do nosso propósito. Por que seres como nós deveríamos existir? Não tínhamos a fome voraz das crias do porão, ou a malícia perversa dos pesadelos. Tínhamos garras e chifres e presas, mas não podíamos rasgar e despedaçar como faziam os parentes-navalha, nem reivindicar e transformar como fazia o povo de vime. Nós sozinhos no corpo da Mansão caminhávamos sem propósito. Nossos dias eram longos e nossas noites inquietas, pois tínhamos inteligência demais para ficarmos ociosos e motivos de menos para nos mantermos ocupados.
Naqueles dias, vivíamos todos como uma matilha, grandes e desajeitados, um alvo para os ocupantes mais perigosos da Mansão, e parecia que o nosso propósito poderia ser a simples sobrevivência. Mas isso era tão pouco, e tínhamos em nós o potencial para ser tão grandes; parecia injusto que fôssemos tão limitados. E nosso líder, lá no passado bem no começo, era uma grande e terrível fera que se autodenominava Spindlewight. Seis pernas ele tinha, e três braços, e garras suficientes para cortar a pedra. Chifres como lanças, dentes como facas e uma bela e espessa pelagem azul e verde, com manchas em formato de rosetas como os olhos nas asas de uma enorme mariposa.
"Eu saberei o nosso propósito", ele declarou, e nos deixou, deixou sua matilha e seus parentes, para caminhar pelo corpo da Mansão.
Fundo e mais fundo ele foi, longe dos sótãos e dos salões altos onde fazíamos nossas casas, e muitos perigos ele encontrou, perigos profundos, perigos terríveis, horrores que nunca havíamos imaginado - Horrores até para os horríveis, coisas das quais as outras crianças da Mansão fugiam com medo. Ele travou muitas batalhas, afiou suas garras em ossos e conheceu a si mesmo como um predador terrível. Para proteger seus olhos, ele moldou para si uma máscara de osso quebrado e sucata roubada. Isso importará, criança, lembre-se disso.
Em frente ele caminhou, o maior da nossa espécie, mascarado e terrível. E então, em uma biblioteca claramente arruinada por alguma grande batalha, onde ele rondava com a confiança fácil de um predador, ele ouviu um som novo. Um som terrível, que criou uma dor em sua cabeça como farpas na pele. Não parava, e então ele se moveu em direção a ele, chamado e repulsado ao mesmo tempo.
Nós conhecemos esse som muito bem agora. É chamado de "choro", e é uma coisa terrível e maravilhosa. Terrível, pois significa dor. Maravilhosa, pois significa vida.
Ele afastou uma estante caída, e lá encontrou três criaturas, uma grande e duas muito menores, agarradas umas às outras nos destroços. Havia o cheiro de sangue e carne fresca e intocada, e se ele estivesse com fome naquele momento, antes que o acordo fosse selado, nosso mural seria pintado de forma muito diferente, de fato.
Mas ele não sentiu fome, e a curiosidade o aproximou das criaturas. Elas não tinham pelos nem garras, sem chifres e com peles macias, seus rostos combinavam com seus corpos e não eram separados, como os nossos são. Elas não tinham caudas, não tinham presas, mas se vestiam com retalhos de tecido. Por isso, ele sabia que eram inteligentes, pois deviam ter moldado seus falsos pelos da mesma maneira que ele havia moldado sua máscara, e ele sentiu um respeito mútuo pelo fato de ambos, sem saber, terem dado passos para se parecerem mais um com o outro. Eles cobriam sua calvície para se adequar às sensibilidades dele, e ele havia coberto o rosto para se adequar às delas, tudo antes mesmo de se verem. Que milagre foi aquele encontro. Que momento. Que misericórdia.
Os dois menores estavam chorando, aninhando-se contra a maior como filhotes se aninham na toca antes da época do casulo. Spindlewight se aproximou em sua curiosidade, e a maior se afastou, juntando os pequenos perto. Ele parou, olhando para eles, e esperou para saber o que aconteceria a seguir.
Tanto tempo ele esperou que os ecos da batalha que havia destruído aquele lugar desapareceram da memória da Mansão, e uma cria do porão se puxou da parede, com a mesma fome que a Mansão sempre teve. Ela veio em direção às coisas estranhas, atraída por seu choro como Spindlewight havia sido, e Spindlewight a atacou, afastando-a da sua descoberta, do seu grande mistério, que deve ser estudado, que deve ser compreendido.
Para trás e para trás ele a levou, e ela lutou, mas ele lutou mais ferozmente, e no final, ela foi derrubada pelo poder e pela persistência dele, e ele retornou para as criaturas.
As duas menores estavam chorando mais forte do que nunca, enquanto a maior estava imóvel, com um pedaço de madeira afiada saindo de seu meio. A madeira havia se soltado durante a luta contra a cria do porão e voado invisível para perfurar e prender. Havia sangue, mais sangue do que nunca, e embora a criatura ainda respirasse, não tinha mais força para chorar.
Spindlewight se aproximou, farejando-a, tentando decidir o que aconteceria a seguir, e a criatura abriu os olhos. Ela moveu sua boca em uma forma chamada "sorriso" — você verá o seu primeiro sorriso logo, e isso o iluminará por dentro como iluminou ele, recolorirá seu mundo com um novo brilho, como você nunca sequer sonhou antes! Eu tenho inveja de você por esse primeiro sorriso, de verdade, pois o meu foi há muito tempo, e aquele que o usou não existe mais.
"Você ... nos salvou", disse ela.
Spindlewight bufou em reconhecimento.
"Ou você ... tentou", disse a criatura, o sorriso desaparecendo. "Ah. Eu não acho que você tenha ... salvado a todos nós. Mas você salvou o que importa. Eu não posso ficar muito ... infeliz."
A criatura falou a língua da Mansão, a língua às vezes murmurada pelos parentes-navalha e pelos pesadelos. Spindlewight entendeu o suficiente para saber que a maior estava morrendo, e ele ficou triste, pois queria saber mais.
Mas então a criatura maior empurrou as duas menores na direção dele, enquanto choravam e tremiam.
"Por favor ... " disse ela. "Um último ... favor. Por favor ... os mantenha vivos."
Ela fechou os olhos então, e deixou a Mansão da única maneira que qualquer coisa viva pode. Spindlewight envolveu seus primeiros dois braços ao redor das criaturas menores enquanto choravam e se agarravam aos seus pelos, e ele sabia o que eram, pois foram nomeadas pela mais velha quando o cuidado delas foi passado a ele:
Eles eram mantenha-vivos, e ele faria exatamente isso. Ele os manteria vivos, pelo tempo que pudesse.
Arte por: Andrey Kuzinskiy
Spindlewight voltou para nós com seus novos protegidos e nos disse que nosso propósito havia sido encontrado. E assim, aprendemos muitas coisas.
Primeiro, que uma fera está no seu melhor quando tem um mantenha-vivo para proteger e cuidar. Não podemos roubá-los de sua própria espécie, mas podemos cortejá-los, oferecer-lhes presentes e amizade até que nos deem sorrisos em troca. Uma vez que um mantenha-vivo sorriu para você, você será deles para todo o sempre, mesmo depois que tiverem deixado a Mansão para trás ou sido levados para onde você não pode seguir. Eles nos dão presentes iguais aos que oferecemos, e mais, pois nos dão uma bondade pela qual ansiamos no fundo dos nossos ossos.
Segundo, que os mantenha-vivos têm pavor dos nossos rostos verdadeiros. Toda a gentileza que podemos oferecer, toda a amizade que passou antes de nossas máscaras saírem, nada disso importa, pois se eles nos virem de verdade, nos temerão, e fugirão. Um mantenha-vivo em fuga nunca mais pode se tornar um amigo novamente; eles estão perdidos. Estamos divididos, como uma matilha, sobre como lidar com essas perdas. Alguns dizem que eles devem ser mortos de uma vez, piedosamente abatidos antes que os outros ocupantes da Mansão possam tê-los. Outros dizem que nunca é certo matar um amigo, e simplesmente deixá-los ir, mesmo sabendo que eles não sobreviverão por muito tempo.
Aqueles dois primeiros, eles nos deram o mural. Eles o pintaram nas paredes do sótão com suas próprias mãos, com a tinta que Spindlewight havia lhes presenteado de uma sala de jogos bem abaixo, roubada sob a vigilância dos pesadelos e da cria do porão. Eles pintaram um belo mundo que nunca tínhamos visto, e o preencheram com a gente, com grandes criaturas peludas que zelavam por eles benevolentemente e por bondade. Continuamos a adicionar a ele, nos pintamos nos campos que desenharam para nós, esboçamos nossos contornos nos espaços que restam. É a nossa história, a nossa casa e o nosso maior tesouro, e lutaríamos contra a própria Mansão para protegê-lo.
Eles nos deram o mural, e eles nos deram as lições. Um cresceu alto, forte e inteligente sob a guarda de Spindlewight, ficando com ele por tanto tempo quanto sua história segue. O outro viu os sem-máscara e fugiu para os salões, para nunca mais ser visto. A perda daquele mantenha-vivo partiu o coração de Spindlewight, e ele não nos liderou mais.
Sem sua pata pesada para nos guiar e moldar, nos dividimos nas matilhas que ocupamos hoje. O mural foi declarado terreno neutro, compartilhado entre nós, precioso demais para arriscar sua proteção a uma única matilha, e nos espalhamos pela Mansão.
Spindlewight e seu mantenha-vivo continuaram juntos. Eles tiveram muitas aventuras, até que enfim não tiveram mais; até que seu mantenha-vivo voltou ao mural com sua máscara na mão, quebrada ao meio, e chorou e lamentou e não sorriu mais. Ele não aceitou outro guardião, mas seguiu o caminho de seu irmão para dentro da Mansão, para nunca mais ser visto.
Os ossos de Spindlewight dormem em algum lugar na Mansão, despercebidos e profundamente lembrados.
O seu mantenha-vivo está lá também, já esperando por você, embora não saiba disso. Molde uma máscara com estas coisas que juntamos, vista-se com coisas tanto coloridas quanto agradáveis aos olhos, e vá em frente para encontrar seu companheiro. Temos um propósito nesta Mansão, um prazer.
Mantenha-os vivos. Eu acredito em você, não-mais-criança, e Spindlewight acreditaria em você também, se ainda estivesse aqui. Você cresceu forte e inteligente, você sobreviveu ao seu próprio casulo, e você está pronto para ser um companheiro glorioso para alguém que precisa de você.
Você não vai ter sucesso. Nenhum de nós tem, não para sempre, e quando você falhar, você retornará aqui, para adicionar suas histórias ao nosso mural, para se reunir com sua própria espécie por um tempo, para cuidar dos casulos como eu fiz. E então você irá novamente, pois sabemos por que estamos aqui, e sabemos o que devemos fazer, e sabemos que um dia, se formos espertos, teremos sucesso.
Mantenha-os vivos.
Nada mais é necessário.
28/01/2024 | Por Mira Grant
Episódio 5: Não Ceda
Para a magia de transmutação de Tyvar, a substância do chão e das paredes era idêntica à carne do monstro que os havia atacado. Era enervante pensar que eles estavam andando através do corpo de algo vivo e hostil. Ainda assim, enquanto Tyvar os envolvia no corpo da Mansão, eles eram capazes de cruzar salas e navegar por corredores sem serem atacados. Ele abandonava a camuflagem sempre que um deles começava a sentir emoções não familiares puxando no fundo de suas mentes, mantendo-os livres da transformação.
Zimone tinha que admirar a habilidade com a qual ele os camuflava e descamuflava, andando na linha tênue entre segurança e perda de si mesmo. Durante uma pausa, ela perguntou como ele sabia o que fazer, e observou enquanto a expressão dele se tornava dolorida.
"Durante o ataque a Nova Phyrexia, eu assisti muitos dos meus aliados se perderem para sempre", disse ele, com voz oca. "Após meu retorno para casa, para minha bela Kaldheim, eu vi esse mesmo destino recair sobre muitos. Eu vi a Árvore do Mundo queimar. Koma, a quem eu havia reverenciado, cujo favor eu havia buscado, caiu para aquela transformação cruel. Eu a senti se espalhar, através de dois mundos, e eu sei qual é a sensação do processo para a magia das minhas próprias mudanças. Eu simplesmente espero sentir que o mundo está acabando, e quando sinto, eu deixo a magia ir."
"Sinto muito", disse Zimone. "Eu não queria—"
"Mas, nós deveríamos ir andando", disse ele, jovial mais uma vez. Ele colocou uma mão contra a parede e a outra no ombro dela, e a carne da Mansão fluiu sobre eles, e a tristeza, o luto e a perda estavam subitamente distantes, escondidos atrás de um véu de pesadelos.
Eles seguiram em frente, através de salas mutáveis e galerias de retratos, passando por outra biblioteca, esta com prateleiras vazias e pedaços de papel espalhados pelo chão como confetes manchados de sangue. Zimone ainda olhou para ela com saudade, como se quisesse parar e remontar as histórias massacradas deste lugar morto a partir dos corpos que eles haviam deixado para trás.
Tyvar piscou a ocultação deles para desligar e ligar de novo, ganhando tempo para eles, e eles seguiram em frente, para uma sala impossível:
Era grande e aconchegante, equipada com vários pequenos sofás e cadeiras grandes e estofadas, os estilos de mobília aparentemente escolhidos para borrar as linhas entre os dois. Prateleiras alinhavam-se nas paredes, cheias com uma mistura de livros e bugigangas, e quadros agradáveis estavam pendurados nas paredes cor de creme. Não havia cheiros estranhos ou sombras improváveis, sem manchas de sangue ou pesadelos. Era apenas... agradável, o tipo de lugar em que qualquer um deles estaria perfeitamente disposto a cochilar por uma tarde.
A luz do sol fluía através das duas janelas fechadas, banhando a garota adolescente que sentava em um dos sofás maiores, um diário aberto em seu joelho. Ela escreveu uma linha, então pausou, enfiando a ponta de sua caneta na boca enquanto olhava pensativa pela janela para a rua de aparência tranquila lá embaixo. Ela tinha um copo de líquido âmbar cheio de pedaços de gelo, chá talvez, descansando em uma mesa baixa próxima, e parecia tão pacífica quanto estava deslocada. Esta sala não pertencia a este lugar. Era antitética à Mansão ao redor dela, e não deveria ter existido.
Zimone ofegou, agarrando o braço de Tyvar em sua surpresa. Ele virou para olhar para ela, franzindo a testa levemente.
"Eu a conheço", sussurrou Zimone. "Ela estava na foto que eu encontrei na primeira sala de estar, lá atrás quando nós entramos pela primeira vez! Mas aquela foto era muito antiga... ela é mais jovem do que eu. Como..." Ela tateou por seu detector, erguendo-o e varrendo-o na frente dela como se estivesse escaneando a área. "Não há mágica temporal ativa aqui. Como ela pode ser mais jovem do que eu?"
"Talvez ela seja um fantasma?" sugeriu Tyvar. "Um espírito de algum tipo? Ela não parece estar ciente de nossa presença, e mesmo envolto no corpo desta mansão, eu sou difícil de não notar."
Zimone olhou para ele incrédula. "Você está se gabando de quão atraente você é? Tipo, agora mesmo ?"
"Eu estou simplesmente afirmando fatos — e olhe. Ela está saindo."
A garota, que ainda não os tinha notado, levantou-se, levando bebida e diário com ela ao sair da sala. A transformação foi terrível e rápida. Nuvens imediatamente sufocaram o céu lá fora, engolindo a luz do sol; o papel de parede começou a descascar; e conforme as cortinas deslizavam se fechando através das janelas agora escuras, sangue começou a borbulhar do chão, marcando suas pegadas.
"Isso não parece bom", disse Tyvar.
"Não, não é", disse Zimone. "Vamos lá." Ela disparou atrás da garota, e desta vez foi Tyvar quem foi forçado a seguir.
Eles a alcançaram na próxima sala, um pequeno jardim de inverno que estava ganhando vida ao redor dela, plantas mortas ficando verdes e se erguendo retas, vinhas ambiciosas soltando seu aperto em paredes e mobílias enquanto recuavam para seus vasos. Zimone assistiu a tudo isso com olhos de águia.
"Eu acho que entendo", disse ela, lentamente. "O que quer que ela seja, ela está repelindo a Mansão. Ela não consegue tocá-la. Eu só não sei o porquê — e acho que é por isso que ela não consegue nos ver. Se a Mansão não pode atacá-la nesta sala, devemos estar seguros aqui. Desfaça a transmutação."
Tyvar assentiu e desfez o feitiço. Os dois retornaram à carne comum, e Zimone limpou sua garganta. "Olá?" ela chamou.
A garota se virou, parecendo vê-los pela primeira vez. Confrontada com uma mulher estranha vestindo roupas não familiares e carregando um scanner em forma de caixa, e um elfo sem camisa e descalço, ela fez a única coisa razoável: ela deixou cair sua bebida e gritou.
"Oh, não!" gritou Zimone. "Nós não estamos aqui para te machucar! Nós só queríamos falar com você."
"O que vocês estão fazendo na minha casa?" exigiu a garota.
"Vagando perdidos, tentando evadir uma morte quase certa, e procurando por nossos amigos, que foram separados de nós por uma parede que apareceu maliciosamente", disse Tyvar.
A garota apenas pareceu mais confusa.
"Sinto muito", disse Zimone. "Nós estávamos seguindo um fenômeno não explicado, e nós viemos parar aqui. Eu sou Zimone. Você é...?"
"Marina", disse a garota. "Marina Vendrell. A menos que vocês estejam aqui para me matar, e então eu estou prestes a correr lá para fora para gritar pela guarda."
Arte de: Magali Villeneuve
"Um nome adorável", disse Tyvar. "Ambos. Eu sou Tyvar Kell, príncipe de Skemfar. Nós não estamos aqui para matá-la. Podemos conversar?"
"Eu... suponho", disse Marina. "Como vocês entraram aqui?"
"Pela porta", disse Zimone. "Nós precisamos saber o que aconteceu com a Mansão."
"Como assim, o que aconteceu com a casa?" Marina franziu a testa, aparentemente confusa. "É a casa, igual como sempre foi. Vocês estão bem?"
"A Mansão sempre teve monstros pulando de suas paredes e tentando comer pessoas?" perguntou Zimone, horrorizada.
Marina a encarou. "O quê? Não!"
"Eu encontrei um livro na biblioteca sobre a história deste lugar, e não mencionava os monstros, também", disse Zimone. "Então, algo claramente aconteceu."
"Oh, você quer dizer Um Relato Arquitetônico ? Aquilo foi começado pela última pessoa a viver aqui. Um pouco esquisita, segundo todos os relatos — ela sentia que uma casa deveria ser tratada com o respeito que você mostraria a uma coisa viva. Ela viveu aqui por muitos anos. Morreu aqui, também. Quando compramos o lugar, a corretora de imóveis nos pediu para atualizá-lo — foi uma das condições de venda, que nós mantivéssemos o livro em dia com nossa ocupação. Mamãe e Papai acharam que era bobagem, mas eu achei de certa forma doce. Tudo merece ser respeitado pelo seu lugar no mundo."
"Esse é o livro", disse Zimone.
Arte de: Denys Tsiperko
"Era aquele com a magia academicamente desagradável anotada nas margens?" perguntou Tyvar.
Marina corou de vermelho. "Eu estava apenas fazendo anotações", disse ela.
Zimone franziu a testa. "Aquela era você ? Marina, aquele tipo de magia é — bem, é perigosa. Pessoas poderiam ser seriamente machucadas, ou pior, se você usasse qualquer coisa como aquilo. Você usou algo como aquilo? Foi isso que aconteceu com a Mansão?"
Marina respondeu como uma criança muito mais jovem sendo informada de que ela tinha sido travessa: ela apertou as mãos sobre as orelhas e fechou os olhos com força, cantando: "Você não é real, você não está aqui, você não é real, você não está aqui."
Enquanto o quadrado do chão diretamente debaixo de seus pés permaneceu inalterado, o resto da sala começou a se distorcer e torcer, as paredes se abrindo em buracos dos quais rastejavam feras de pesadelo pustulentas, seus membros longos e multiarticulados alcançando Tyvar e Zimone. Zimone deu um passo brusco em direção a Marina, estendendo a mão para a garota, apenas para ser parada por Tyvar agarrando a parte de trás da sua camisa. Ele correu, puxando-a com ele.
Mais fundo na Mansão eles foram, as feras em perseguição, até que eles conseguiram virar rapidamente uma esquina e se achatar contra uma parede, deixando a carne-da-Mansão se arrastar sobre eles enquanto a magia de Tyvar se firmava de novo. Ofegantes, eles se soltaram e espiaram de volta para o corredor, assistindo enquanto a cria-da-mansão trovejava furiosamente por eles.
"A Mansão a protege", disse Tyvar.
"Parece que sim", disse Zimone. "Ela tem algo a ver com o que quer que tenha acontecido aqui, eu sei que ela tem. E nós temos a prova."
Tyvar franziu a testa. "Prova?"
Zimone ergueu o livro pequeno e esfarrapado que ela havia agarrado antes de ser puxada para fora do jardim de inverno.
"Eu peguei o diário dela", disse ela.
"Normalmente, eu veria isso como uma invasão maciça de privacidade", disse Zimone. Tinha levado três salas para eles encontrarem uma mesa intacta onde eles poderiam se acomodar para revisar a descoberta dela. "Eu olhei o diário de Rootha uma vez, e ela partiu para esse pequeno monólogo inteiro sobre como as pessoas queimam facilmente. Eu nem tenho certeza de que ela estava tentando me assustar no final. Ela estava na maior parte apenas se tranquilizando, e o fogo a mantém calma. De qualquer forma, diários devem ser ultrassecretos, não olhe, nunca, mas acho que nossas circunstâncias são um pouco únicas."
"Você parece estar tentando convencer a si mesma disso", disse Tyvar.
"Vocês têm diários em Kaldheim?"
"Entre meu povo, se uma coisa não é para ser repetida, ela não deve ser escrita", disse ele. "Histórias e sagas são para compartilhar, e segredos são para engolir, para mantê-los a salvo de outros olhos."
"Oh. Bem, é uma coisa boa para nós que ela mantenha um diário, porque nós precisamos saber", disse Zimone, e abriu o pequeno livro no começo.
A caligrafia de Marina era nítida e razoavelmente clara. Zimone começou a ler.
Eu não quero me mudar, mas o que eu quero não importa, porque nós estamos nos mudando. É "melhor para o trabalho do Papai", e eu vou para "uma ótima nova escola" onde eles têm certeza que eu vou fazer "tantos novos amigos maravilhosos".
É. Porque dezesseis anos em nossa vizinhança velha com apenas os outros esquisitos para mostrar com certeza me prepararam para ser a borboleta social de um novo ambiente escolar. Eu sou mais uma mariposa social. Fico nas sombras, fora do caminho, e espero não ser esmagada antes que eu possa encontrar uma lanterna para me imolar. Não que eles fossem notar, o que, por mais que eles estejam tentando fingir que eu não estou aqui…
"Continua assim por algumas páginas", disse Zimone, folheando para frente. "Eu acho que Marina era muito solitária, e meio assustada com a mudança, então ela fingia que não se importava. Mas espere, aqui..."
Ela começou a ler novamente.
A presença que eu senti no porão quando nós nos mudamos, eu a senti de novo, então eu desci para ver o que eu poderia encontrar. Desta vez, ela falou comigo! O nome dele é Valgavoth — Val — e ele foi convocado aqui e aprisionado por um dos donos antes de nós. Eles pensaram que ele seria como os pequenos espíritos de serviço que as pessoas chamam para fazer tarefas simples, e quando eles perceberam o quão grande ele era, o quão poderoso, eles entraram em pânico e correram, mas não o libertaram. Ele esteve aqui esse tempo todo, sozinho. Ele diz que pode me dar uma lista de livros que podem me ajudar a descobrir como libertá-lo…
"E eu acho que é aqui que ela começou a fazer a pesquisa academicamente questionável", disse Zimone. "Há algumas coisas realmente densas aqui, sobre demonologia e necromancia e aprisionamento de espíritos, e tudo isso resulta em más notícias. Mas este Valgavoth era cativo, e para a Mansão estar tão ativa, ele ainda deve estar aqui."
"Até agora?" perguntou Tyvar, aparentemente fascinado. "Continue lendo, escaldo, e me conte a história."
"Você é muito estranho", disse Zimone.
Eu li os livros, e eu acho que poderia deixá-lo ir, mas eu… eu não quero mais, de verdade. A escola continua terrível, e talvez seja maldade da minha parte, mas Val é o único amigo de verdade que eu fiz desde que nos mudamos para cá. Eu não quero perdê-lo. Além disso, ele foi trancado por um longo, longo tempo, e ele está muito irritado com isso, mesmo que ele tente fingir que não quando estamos conversando. Eu acho que se eu deixá-lo sair, ele poderia machucar muitas pessoas antes de ir embora. Eu não quero machucar muitas pessoas.
"Então, Marina era essencialmente uma boa pessoa em um momento, mesmo se ela estivesse tomando decisões acadêmicas ruins", disse Zimone.
"Parece."
"Algo deve ter mudado", disse Zimone. Ela esfregou a parte de trás de sua cabeça. "Meus pensamentos estão começando a coçar. Vamos ser nós mesmos por alguns segundos?"
Tyvar assentiu, desfazendo a transmutação. O peso esmagador da atenção da Mansão retornou apressadamente, e depois de um momento, Zimone disse:
"Ok, coloque de volta. Eu não quero continuar lendo enquanto a Mansão puder nos ver."
Hoje foi o pior dia até agora. Algumas das garotas na minha aula de necrobiologia decidiram me encurralar depois da aula e elas —
O que elas — me chamaram — me empurraram — a parede.
"Um monte de coisas disso foi rabiscado", disse Zimone. "Mas o que sobrou parece muito ruim. Há manchas de lágrimas no papel. Eu acho que elas a machucaram o suficiente para fazê-la chorar."
Val diz que ele pode fazê-las pagar pelo que elas fizeram. Ele pode fazê-las sofrer. Eu não me importo mais. Eu não posso viver assim.
Eu vou convidá-las para virem amanhã depois da escola.
Zimone folheou para a próxima entrada, mal respirando:
O que eu fiz?
Ele as pegou. Mãos se estenderam das paredes e as agarraram, e elas estavam gritando e gritando e mudando, como se ele estivesse se movendo debaixo da pele delas, e então elas pararam de gritar e ele as puxou para dentro das paredes e elas se foram. Não sobrou nada.
Eu fiz isso. Ele está preso: não importa o quão irritado ele esteja ou o quanto ele queira machucar as pessoas, ele não poderia ter feito isso sem mim. Eu fiz isso com elas. Eu deixei isso acontecer.
Eu não consigo dormir. A casa continua rangendo, e as paredes estão pulsando, como se elas estivessem tentando respirar. Eu continuo pensando que posso ouvi-las se movendo lá dentro, presas dentro da casa, tentando escapar.
Eu fiz isso.
Zimone olhou para cima. "Oh, não."
Ela virou para a próxima entrada:
As casas de ambos os lados sumiram, e nossa casa está maior agora. Eu acho que Val é a casa, de alguma forma, depois de todo esse tempo, e ele está faminto e ele está irritado e eu dei a ele o poder de começar a comer o mundo ao seu redor. Eu não posso deixar isso continuar. Eu tenho que falar com ele. Eu tenho que encontrar um jeito de salvar a mim mesma, de salvar meus pais. Talvez eu não possa salvar o mundo, mas eu não preciso ser inteiramente um monstro, não é?
Não é tarde demais.
Zimone fechou o diário, encarando a parede enquanto o deixava de lado. "Aqueles rituais que ela estava pesquisando... com o poder de quatro vidas, Valgavoth teria sido capaz de expandir seu alcance exponencialmente. Prender mais pessoas dentro de si mesmo, e então fazer isso de novo, e de novo, e de novo. Até que não houvesse mais nada do lado de fora."
"O que você quer dizer?"
"Eu não acho que exista um plano restante do lado de fora da Mansão." Zimone virou para olhar para Tyvar, rosto estranho sob sua máscara de casa-do-horror, olhos arregalados e aterrorizados. "Eu acho que a esse ponto, matematicamente falando, Valgavoth é tudo."
A "sala" externa onde eles haviam encontrado os homens de vime dançantes estava conectada a mais do mesmo, "salas" contendo florestas e quebra-espinhos e encostas desoladas. Nashi os conduziu cada vez mais fundo, através de ambientes que nunca deveriam ter sido contidos desta maneira. A Errante achou ter ouvido um rio correndo à distância, água quebrando sobre pedras, e por mais impossível que fosse o som, ela queria segui-lo até a sua fonte. Ela queria saber .
Toda vez que começava a parecer que eles tinham conseguido sair da Mansão, haveria um vislumbre de parede ou um brilho de luz em uma janela semiescondida; por mais naturais que esses ambientes parecessem, todos eles estavam totalmente contidos. Niko estremeceu ao ver um monte de terra cravejado de ossos e cercado por árvores, tão parecido com os marcos de pedras de Kaldheim, tão diferente das tumbas de Theros. As diferenças não importavam. Eles olharam para as semelhanças, e eles reconheciam um cemitério quando viam um.
O grupo continuou a andar, Nashi ainda liderando o caminho, embora Winter assentisse encorajadoramente quando alguém olhava para ele, indicando que eles estavam no caminho certo. A floresta sangrou para bosque para urze, até que eles emergiram em um amplo prado demasiadamente grande para ser contido. Cabanas estavam espalhadas através das colinas onduladas, algumas com fumaça subindo de suas chaminés, fazendo estrias cinzas no ar pálido. Em algum lugar durante a jornada deles, as luzes haviam voltado, lentamente a princípio, ficando mais brilhantes gradativamente, até que eles pudessem ver cada polegada da paisagem terrível ao redor deles.
Mesmo no "lado de fora", a Mansão continuou a assombrá-los. Rostos gritando estavam gravados na casca de árvores ameaçadoras — e depois dos homens de vime, era impossível dizer se as árvores gritavam porque elas tinham crescido daquele jeito, ou porque elas outrora tinham sido sobreviventes e ainda estavam inteligentes e cientes de seus destinos congelados. O mato que subia da encosta em aglomerados atrofiados era suspeitamente ósseo, dando a impressão de que poderia se fechar em um pé ou prender uma bainha a qualquer momento.
Este não era um bom lugar, não importa o quão fresco o ar parecesse, ou quão alegremente os rios corressem.
Winter fez um som pequeno e infeliz. A Errante e Niko olharam para ele, e ele balançou a cabeça. "Este é o Vale da Serenidade", ele disse. "O Culto de Valgavoth vive aqui. Nós deveríamos voltar."
"Minha mãe tem estado me chamando desta direção", disse Nashi. "Eu sei que nós estamos no lugar certo."
"Mas—"
"Você não precisa vir. Eu não pedi para você me seguir aqui."
"Nós estamos indo com você, não importa o que isso signifique", disse a Errante. Ela lançou a Winter um olhar desafiador.
Winter suspirou. "Não diga que eu não avisei", ele disse, e o trio continuou andando.
O brilho da Errante ainda flutuava ao redor de seus ombros, circulando-a enquanto ela andava. Niko puxou um fragmento do ar, girando-o entre seus dedos e olhando pensativamente para Winter.
"Quem é esse culto de que você está falando?" eles perguntaram.
"O Culto de Valgavoth", disse Winter. "Eles alegam que Duskmourn foi criada por uma entidade invocada por seus ancestrais, uma que se enraizou nesta Mansão e cresceu para engolir tudo. O demônio chamado Valgavoth está tão preso aqui quanto o resto de nós, mas ele não se importa tanto mais, já que ele come bem. Este é um campo de alimentação perfeito para algo como ele, fértil e florescente. O culto caça sobreviventes, tanto os que nasceram aqui quanto as pessoas como eu e meus amigos — ou vocês. Eles nos pegam quando podem, e nos arrastam para longe para sermos convertidos ou entregues a Valgavoth. De qualquer forma, os que eles capturam nunca voltam."
"Eles parecem ser pessoas encantadoras."
"Eles não são."
"Eu estava sendo sarcástico."
"Eu sei."
"Então por que—" Niko se conteve, balançando sua cabeça. "Deixa para lá. Este culto é uma má notícia, então?"
"A pior de todas", disse Winter de forma terrível.
Niko olhou para ele. "Depois dos homens de vime, dos povonavalha, e dos fantasmas do glitch, isto é o que você quer chamar de a pior de todas?"
"Vocês verão", disse Winter. Ele suspirou. "Eu estava esperando que nos levasse mais tempo para encontrá-los."
"Então, você sabia que nós iríamos encontrá-los."
"Eles são inevitáveis em Duskmourn. Eles, como seu Pai Devorador, estão em toda parte."
Niko franziu a testa e seguiu Nashi e a Errante através de um túnel de pedra moldado como um batente de porta, para a próxima sala.
Parecia uma caverna natural desgastada da rocha por séculos de erosão, as paredes ásperas e desiguais, o teto eriçado com estalactites. Algumas estalagmites correspondentes cresciam a partir do chão, mas a maioria destas mostrava os sinais de remodelação intencional, seus topos lascados e alisados para criar superfícies planas suportando lanternas sacramentais, tigelas, e até mesmo um grande altar de laje de pedra feito colocando uma placa de quartzo lascada à mão no topo de quatro estalagmites niveladas.
Todas aquelas coisas eram decorações de cenário, fatos imutáveis do ambiente, e nem de perto tão perturbadoras quanto o que a sala continha. Meia dúzia de figuras humanoides em vestes longas moldadas como asas de mariposa, limpas e bem remendadas mas esfarrapadas nas bainhas. Levou um momento para Niko perceber por que a condição da roupa deles era tão sinistra.
Não havia remendos. Sem manchas. Eles tinham o luxo de cuidar de si mesmos de uma maneira que Winter nunca teve, e por extensão, ao resto dos sobreviventes vagando pela Mansão teria sido negado. Neste lugar, limpeza era virtualmente uma declaração de poder.
Crisálidas pendiam pelas bordas da sala, coisas duras e angulares que davam a impressão de geometria natural e não natural ao mesmo tempo, como se elas fossem moldadas de sólidos platônicos dragados de outra dimensão. Elas estavam pintadas em tons de verde e marrom, e enquanto Niko assistia, uma delas se contorceu, movida por algo de dentro. Era perturbador. Doía os olhos deles olhar por muito tempo.
Três pessoas em roupas mais como as de Winter estavam presas no centro da sala, lutando fracamente contra as cordas que as prendiam. Uma tinha um corte de aparência perversa em sua perna, cortando através de camadas de tecido para a carne abaixo; os outros dois pareciam estar ilesos. Uma das figuras de vestes — que segurava um livro encadernado em couro perto do peito dele — estava pregando para eles.
"O Pai Devorador ainda não recusou seu serviço", ele disse, com voz sonora e ressonante, claramente entoada para seduzir. "Sejam renascidos em seu nome, e vocês ainda podem ser transformados em glória, limpos do seu medo pela Dádiva do Limiar. Não seria glorioso, crianças, não ter mais medo? Não andar mais envoltos nas correntes da sua fraqueza, incapazes de se manterem de pé orgulhosos e confiantes sob seus beirais?"
A sobrevivente machucada começou a chorar, ruidosamente. "Sim", disse ela, através de suas lágrimas. "Seria tão bom. Eu tenho tido tanto medo."
"Silêncio", chiou um de seus companheiros. "Eles têm nosso equipamento, mas nós ainda podemos sair daqui. Nós podemos sobreviver a isso."
"Nós não podemos ! Eu te disse e eu te disse, mas você não ouviu, porque você queria ser corajoso. Bem, ser corajoso não é a mesma coisa que não ter medo." Ela olhou para o orador, olhos grandes e molhados. "Eu não quero mais ter medo."
"Levem-na", disse o orador.
As outras figuras — cultistas — se moveram para a frente, cortando-a livre. Um deles beijou sua testa. Outro pegou seu braço. Como um grupo, eles a puxaram em direção à crisálida mais próxima, que estava dividida ao meio, e começaram a ajeitá-la lá dentro.
Niko não conseguiu assistir mais. Eles saltaram para a estalagmite mais próxima, um fragmento aparecendo em cada mão. "Ei!" eles gritaram. "Deixem ela em paz!"
Lento e deliberado, o orador virou para olhar para eles, e depois para seus companheiros. "Incrível", ele disse. "Você realmente fez isso."
A Errante começou a dar um passo à frente, apenas para sentir uma sensação estranha e plácida penetrar sobre ela. Não foi o suficiente para derrubá-la — ela tinha mais força de vontade do que isso — mas fez com que as mãos que de repente agarraram seus braços de cada lado parecessem feitas de ferro. Nashi se moveu para o lado dela, e foi contido de maneira semelhante, assim como os outros nezumi, deixando apenas Niko e Winter livres.
Niko desceu da estalagmite e se moveu para flanquear Winter, claramente com a intenção de ajudar o homem a evitar a captura. Winter apenas abaixou a cabeça, não dizendo nada, enquanto os cultistas se levantavam e agarravam Niko por sua vez.
O orador moveu-se em direção ao par enquanto Niko se debatia, tentando se libertar. Ele sorriu e colocou uma mão de aprovação no ombro de Winter. "Você será muito favorecido", disse ele.
"Neste ponto, é melhor que eu seja", disse Winter, e deu um passo para trás, puxando uma pedra solta da parede. Uma laje de granito sólido desabou entre ele e os outros, selando-os na sala com os cultistas.
Era uma luta injusta para começar. Uma das maiores espadachins no Multiverso, um lançador de dardos que não podia errar, e Nashi, que tinha aprendido a sobreviver nas ruas de Kamigawa, correndo com pessoas que não tinham o seu lar seguro para recuar, contra sete cultistas. Não havia jeito de eles perderem.
Mas então, seu líder ergueu seu livro e soprou pelas páginas, e uma grossa camada de poeira rolou do papel, brilhando como prata na luz enquanto cobria tudo ao redor. Seus membros se tornaram pesados, e seus movimentos se tornaram lentos, e então eles desmaiaram brevemente, caindo em um nada que era puramente exterior e distinto do sono.
A Errante foi a primeira a acordar. Ser sacudida de um lado para o outro através do Multiverso por sua própria centelha durante anos a deixou mais bem equipada do que a maioria para se recuperar de choques repentinos ao sistema, e ela foi capaz de se livrar dos efeitos prolongados da poeira sedativa para se encontrar presa por laços de algum material branco e algodoado, prendendo-a firmemente a um poste. Eles estavam em uma caverna diferente agora, esta maior e mais escura, com afloramentos irregulares de rocha na parede. Ela podia ver seus companheiros, amarrados aos seus próprios postes de pedra nas bordas da sala.
Uma parede era ocupada por um casulo vasto e pulsante que latejava como a batida de um coração, o som suave como sussurro de suas contrações e expansões ecoando através da câmara.
No centro da sala havia outro altar, e no altar, um dispositivo quadrado como o que Winter carregava, como os que eles tinham visto abandonados pela Mansão. O topo estava aberto, e o eco do pergaminho de Tamiyo flutuava lá, piscando para dentro e fora de foco, como se doesse a ela estar manifestada. Seus ombros estavam caídos, e sua cabeça estava abaixada, e ela falava em uma voz muito suave para a Errante ouvir para o homem na frente dela, que estava anotando cada palavra dela.
"Histórias tão deliciosas", disse uma voz à sua esquerda. Ela virou a cabeça rapidamente, o mais longe que pôde, e viu o homem que esteve liderando o ritual na primeira caverna em pé ao lado dela, o livro ainda nas mãos. "Ela foi uma descoberta gloriosa, uma joia além de qualquer preço, e nós estamos além de honrados de tê-la."
"Ela não é uma coisa a ser tomada ", cuspiu a Errante.
"E ainda assim nós a tomamos", disse o homem, quase jovialmente. "O Pai Devorador não tem nenhum interesse em deixar Duskmourn. Este tem sido um casulo glorioso para alimentá-lo e nutri-lo, e ele cresceu forte. Mas o espaço do lado de fora das paredes mudou recentemente, e agora ele pode espalhar suas bênçãos ainda mais longe, para mais e mais mundos novos. Ele não precisa mais se esforçar com todas as suas forças para abrir uma porta. Tudo o que ele precisa é saber que eles existem."
A Errante tentou se debater contra suas amarras. Ela podia ouvir Nashi e Niko começando a se mexer. "Vocês estão roubando as histórias dela. Vocês estão dando elas a um monstro ."
"Se vocês desejam continuar sendo hereges, eu não posso salvá-los, mas nós ficaríamos gloriosamente felizes se vocês se juntassem a nós", disse o homem, soando quase arrependido. "A oferta está feita. Você só precisa aceitar."
A Errante franziu o cenho, balançando a cabeça. O homem suspirou.
"Uma pena e um desperdício, mas vocês têm tempo para mudar sua resposta."
Com o livro debaixo do braço, ele se afastou dela, em direção ao altar onde a memória de Tamiyo relatava impotentemente o trabalho da vida dela para um público cruel.
Os sons de Ravnica eram como um ataque depois da quietude sinistra de Duskmourn. Kaito girou ao redor, cauteloso com a possibilidade de ataque. Ele estava no beco onde ele tinha conhecido Zimone pela primeira vez, onde tudo isso tinha começado — ele estaria mirando em Ravnica? Ele estaria mirando em alguma coisa? Ele esteve desesperado para escapar antes que fosse tarde demais…
Algo mordeu em sua palma fechada. Ele forçou-a a abrir. Um pedaço de madeira manchada de sangue descansava em sua mão, um presente de despedida de Duskmourn. Kaito franziu a testa para ele, então lançou sua consciência através das Eternidades Cegas, procurando pela fundação corrompida da Mansão. Agarrando-se firmemente, ele tentou atirar a si mesmo através do vazio, para fora em direção ao infinito —
E nada aconteceu. O pânico o dominou momentaneamente, a mão se fechando num estalo sobre a farpa enquanto o medo borbulhava do fundo de seu estômago. Teria chegado a hora de sua centelha se apagar também, deixando-o tão dependente dos Caminhos dos Presságios como tantos dos outros? Ele estava preso? Kamigawa estava sem um defensor que pudesse reagir com a velocidade adequada?
O pânico colocou essa mesma velocidade em seus calcanhares enquanto ele se apressava pelo beco em direção ao local onde Niv-Mizzet e os outros haviam montado acampamento. Aminatou e Etrata o viram e acenaram para ele parar, mas ele continuou em frente, indo para a zona de quarentena.
Ele estava quase lá quando Niv-Mizzet fechou uma grande garra em seu ombro, puxando-o para parar.
"Kaito, o que aconteceu?" ele perguntou, quase gentilmente.
Kaito parou. "Nós fomos separados, e então Jace... Jace estava lá."
"Beleren ?" exigiu Niv-Mizzet.
"Ele me deixou ." Kaito olhou para Niv-Mizzet, ofendido. "Ele disse que sentia muito, e ele me deixou ."
Aminatou e Etrata tinham alcançado eles àquela altura, Yoshimaru nos calcanhares de Aminatou. Ela estendeu a mão para Kaito, depois pareceu pensar melhor sobre isso e recuou a mão. "O que você teme não aconteceu", ela disse. "Você ainda está aceso, e não reduzido a brasas ainda. O problema não está em você. Está na Mansão."
"A Mansão?" perguntou Kaito.
"Ela conhece você agora. Ela sabe que você dá mais problema do que vale. Ela não quer você dentro de suas paredes. O destino do seu amigo depende das pessoas que já estão com ele. Se você escolheu com sabedoria, ele será livre."
Proft caminhou até o pequeno grupo, movendo-se com menos urgência do que os outros. Ele olhou para a mão de Kaito, que ainda agarrava o pedaço quebrado de Duskmourn.
"Se você vier comigo, eu acho que tenho uma ideia que pode nos ajudar", ele disse, e gesticulou Kaito para frente.
Faltando quaisquer ideias melhores, Kaito seguiu-o de volta às estações de trabalho do outro lado do pátio. O tempo estava passando. E não estava do lado deles.
29/08/2024 | Por Mira Grant
Beco sem Saída
A manhã raiou, o sol menor nascendo solitário no céu ocidental e fazendo o pouco que podia para afastar a escuridão onipresente. O sol maior havia desaparecido há meses, engolido por aquela terrível … coisa … que brotara da cidade. De acordo com aqueles que conseguiram escapar das garras da cidade, tinha sido uma casa no começo, tão simples e não natural quanto qualquer outra. Ela possuía paredes, tetos, janelas, um telhado. Talvez ainda fosse uma casa, em algum lugar dentro do emaranhado de pesadelo de gavinhas e protuberâncias no qual havia se transformado. Talvez ela ainda tivesse todas essas peças, todas aquelas coisas para as quais uma pessoa da cidade olharia e diria "casa". Mas se esse fosse o caso, a Mansão não as mantinha mais em exibição.
Ah, a Mansão tinha janelas, olhos de vidro que se abriam e fechavam ao longo de sua massa, parecendo observar o estreito protetorado remanescente do mundo natural. E ela tinha paredes, pois o que é uma parede senão uma distinção entre uma coisa e outra? Uma pele é uma parede, se observada da direção certa.
Shevara estava no alto de uma das antigas faias sonhadoras, contando as janelas enquanto elas refletiam a luz pálida do sol menor pela paisagem. A Mansão a observava em uma quietude silenciosa e ameaçadora. Ninguém nunca a vira se mover. Essa era a necessidade das vigias. Eles perdiam a visão do grande edifício à noite, quando nem mesmo as fogueiras de sinalização podiam permitir uma vista de todos os ângulos, mas durante o dia, eles podiam alternar seus pontos de observação e suas torres de vigia, eles podiam manter seus olhos abertos, e eles podiam contar as janelas incrustadas na pele da Mansão, usando-as para fazer suposições sobre qual direção ela poderia tentar tomar à luz do dia.
Tudo tinha acontecido tão rápido. Quando tudo isso começou, há escassos anos, os elfos do Bosque de Rotrue tinham visto isso como uma doença da cidade, nascida para a cidade, engolindo a cidade por seus crimes contra o mundo natural. Certamente, o horror crescente que observavam de suas fronteiras iria parar quando terminasse de consumir seus criadores. Certamente, não se aproximaria mais das árvores antigas e emaranhadas.
E por um tempo, ela se comportou exatamente como esperavam. Ela engoliu a cidade e então cresceu para fora, seguindo estradas e trilhos e rodovias para campos de alimentação mais ricos. Os elfos de outros bosques enviaram a notícia quando a Mansão foi vista pela primeira vez em seus territórios, quando cobriu as montanhas, quando consumiu o mar. Eles avisaram os elfos de Rotrue, repetidas vezes: "Vocês não estão seguros". A Mansão estava chegando.
Um por um, esses avisos cessaram, seus mensageiros desaparecendo do céu, mensagens enviadas sem retorno. Os elfos de Rotrue poderiam muito bem ser os últimos ainda vivos fora das paredes da Mansão. O pensamento era terrível, e Shevara hesitou, quase perdendo a conta das janelas. Que eles pudessem ser os últimos elfos em todo o mundo … era um horror além de qualquer consideração, uma ideia terrível demais para suportar.
Mas suportá-la ela devia. Suportá-la todos deviam. Se eles fossem tudo o que restava do mundo natural, então manteriam suas cabeças erguidas e se lembrariam de que a vida sempre vencia, no fim. A morte e a decadência eram coisas naturais, e delas, uma nova vida começaria. A Mansão não poderia derrotá-los enquanto eles se apegassem ao ciclo.
Tinha se passado um ano no que Shevara só podia considerar o cerco, quando a Mansão havia esticado uma torre alta e terrível em direção ao céu, uma coisa espigada e com lados de vidro, mais alta do que qualquer árvore jamais havia crescido, perfurando as nuvens. A janela de uma torre se abriu largamente, tão grande que era visível até mesmo do chão, e então bateu com força, e o sol maior se foi, deixando o sol menor brilhar sozinho, como nunca foi sua intenção.
A Mansão era uma entidade em constante mudança, sempre mutável. Por um tempo, a luz do sol maior brilhou através das paredes da torre, até que gradualmente a torre foi puxada cada vez mais perto do chão, sendo absorvida de volta para a massa da Mansão. Até que finalmente, um dia, a torre se foi, e a luz do sol maior também se foi, e a tristeza eterna, que era tudo o que restava, caiu sobre eles.
Os últimos refugiados da cidade haviam chegado naquele mesmo dia, feridos e ofegantes, mancando para a segurança das árvores com os poucos pertences que conseguiram salvar agarrados firmemente em seus braços. A liderança do clã estava lá para recebê-los e explicar os termos do santuário.
"Seja lá qual for essa praga, a cidade a trouxe para si mesma," disse o rei, sua voz antes estrondosa, agora oca e pálida por meses de terror e privação. As plantações não cresciam sem a luz do sol maior, e a caça da floresta estava cada vez mais subnutrida e difícil de capturar. Os recursos estavam acabando, e o rei comia apenas depois que os mais vulneráveis fossem alimentados. "Sem máquinas. Nenhuma de suas criações inteligentes. Elas não são permitidas entre nossas árvores."
Alguns dos refugiados protestaram, como sempre faziam. Eles amavam seus confortos e a prova de sua engenhosidade. Eles amavam se sentir melhores do que o mundo ao redor deles. Bem, olhem o que o amor deles forjou. O rei manteve-se firme, como sempre fazia, e no final, apenas um punhado escolheu arriscar ser engolido pela Mansão em vez de deixar seus brinquedos na beira da floresta. O resto abandonou sua maquinaria proibida e se juntou aos elfos no verde desbotado, e a partir deles, muito foi aprendido sobre a Mansão, pois eles eram os que tinham sobrevivido por mais tempo em seus campos de caça.
Ela engolia o mundo ao redor como um fungo consome um pedaço de fruta madura, espalhando-se primeiro pela pele e depois devorando mais fundo, até não restar nada de sua forma original. Suas primeiras incursões eram por vezes arquitetônicas e estranhas; uma porta onde nenhuma porta deveria estar, a moldura de uma janela emaranhada nos galhos de uma árvore; um rodapé sem uma parede. Mas aqueles pequenos fragmentos da Mansão começariam a crescer quartos ao redor de si mesmos, e o que a envolvia, ela possuía.
Outros sinais eram menos claros, embora não menos perigosos. Mariposas que voavam no meio do dia, com asas como brocado ou intricadas como flocos de neve. Crianças humanas que apareciam do nada, sem ninguém para supervisioná-las, brincando de bater palmas e pular corda, seus cânticos cheios de crueldades ameaçadoras. As crianças eram o pior sinal de todos, de acordo com os refugiados; uma vez que se via as crianças, a Mansão estava quase sobre você, como uma víbora pescadora que não conseguia resistir a exibir sua isca para uma presa já bem emaranhada.
Shevara terminou sua contagem, descobrindo que o número de janelas era o mesmo da noite anterior, embora um pouco mais concentradas ao norte, e desceu em direção ao chão, caindo de galho em galho com facilidade. A Rotrue poderia ser a última floresta livre do mundo, mas ainda era bonita. As árvores sempre haviam bloqueado a maior parte da luz que alcançava o chão; as plantas que cresciam lá estavam acostumadas a fazê-lo na escuridão, envoltas em sombras enquanto geravam flores e frutos. E a caça poderia ser magra e escassa, mas havia o suficiente. Seus druidas se certificariam disso. A floresta proveria, como sempre havia provido, e a Mansão, sem ter mais nada a reivindicar, certamente murcharia em uma amarga memória.
Ela ainda estava a alguns galhos de distância do chão da floresta quando ouviu palmas rítmicas e não familiares. Os pelos da nuca se eriçaram, a carne de seus braços se retraindo em calombos duros e desconfortáveis. Ela estremeceu e começou a se mover em direção ao som, mais lentamente do que antes. Ela era uma guerreira dos Rotrue. Tinha responsabilidade perante o seu clã.
Olhando para baixo, ela viu um pequeno círculo de crianças humanas, cinco no total, vestidas com roupas de verão, muito leves para o frio atual, seus rostos repuxados em expressões de séria concentração enquanto batiam palmas em um padrão intrincado, cada uma estalando as palmas com as duas crianças de cada lado.
"Toc, toc, toc na porta escondida: #linebreak Ela não está mais escondida. #linebreak Ela leva suas vítimas, duas, três, quatro. #linebreak Você não pode escapar da porta escondida.
Toc, toc, toc na porta faminta. #linebreak Não há sentido em correr mais. #linebreak Você aprenderá o que ela lhe reserva #linebreak Quando você destrancar a porta faminta …"
As crianças. Shevara sentiu um frio, o medo tornando-se quase uma coisa física. Se as crianças estivessem ali, então a Mansão estava na floresta. Eles haviam perdido algo. A vigia, ou as patrulhas diárias da fronteira, haviam deixado algo passar.
Shevara agarrou o galho mais próximo, içando-se mais alto na árvore, e começou a correr por entre as árvores, escolhendo a velocidade em vez do silêncio. Galhos estalados e folhas sussurrantes marcavam seu progresso em direção ao centro da Rotrue, até que ela saltou do lado de fora do círculo dos anciãos, caindo imediatamente em um agachamento respeitoso, um joelho pressionado contra a terra boa e honesta, o outro provendo apoio para a sua testa. Ela se suplicou diante da floresta e apenas esperou que ela a protegesse.
"Shevara?" A voz do rei, insegura e inquieta. "Você se curva perante mim, filha? O que aconteceu?"
"A Mansão." Ela levantou a cabeça. "A Mansão está na floresta. Eu vi as crianças brincando de seu jogo de palmas, em uma clareira próxima à linha das árvores ocidental. Deixamos algo passar. A Mansão está aqui."
"A Mansão nunca ousaria," ele disse, oferecendo sua mão para puxá-la do chão. "Nós somos amados pelas árvores, e nenhuma semente de cidade da Mansão foi carregada tão fundo."
"Nós deixamos passar algo," ela insistiu. "A Mansão está aqui."
"Paz, criança. Paz." Ele suspirou. "Vamos esperar os outros batedores retornarem e ver quantos deles viram a Mansão."
"Mas senhor—"
"Nós esperamos."
Arte de: Josu Hernaiz
Ele a puxou consigo para dentro do círculo, e ela se sentou, carrancuda com o conhecimento de que tinha feito o seu dever e fora recompensada com ócio, quando sabia o que havia visto. A vegetação rasteira emaranhada ao seu redor parecia subitamente cheia de formas que ela não podia explicar—o contorno de uma porta, a nitidez de quatro painéis de uma janela. Estremecendo, ela se abraçou e desviou o olhar.
Um por um, os outros batedores voltaram. Nenhum deles tinha visto nada do que ela relatara. Todos estavam nervosos, vacilando e olhando para trás enquanto se reuniam, esfregando os braços como se estivessem afastando um calafrio. Um jovem caçador pausou perto de Shevara, e ela se inclinou para ele, perguntando: "Você tem certeza de que não viu nada?"
Ele olhou para ela com os olhos arregalados de um potro assustado e se apressou para se afastar e ficar com os outros.
O rei caminhou de volta até ela, uma expressão de pesar em seu rosto. "Shevara …"
"Eu sei o que eu vi!" Ela se levantou enquanto falava, como se a altura lhe conferisse autoridade. "A Mansão está aqui !"
"A Mansão nunca estará aqui", disse ele. "Nós temos árvores fortes para nos proteger, e nenhuma mácula de cidade debaixo de nossos ramos. Acalme-se, para que você não dê vida aos seus pesadelos."
Não haveria compreensão aqui. Shevara cerrou os punhos e virou o rosto para longe antes que pudesse desrespeitar seu rei e, assim, se envergonhar ainda mais do que já havia feito.
Os batedores diurnos estavam em seus postos. Os batedores do amanhecer haviam sido todos chamados de volta. Quando começaram a fazer seus relatórios da noite, ela se afastou, esgueirando-se para o matagal emaranhado. Ela sabia o que tinha visto. Ela sabia o que estava por vir. Mas ninguém queria ouvir .
Depois de vagar por um tempo, ela os viu, outro círculo de crianças humanas desacompanhadas, com os rostos voltados para a fraca luz do sol filtrada pelas árvores, de olhos fechados e mãos batendo palmas rápido o suficiente para se tornarem um borrão.
"Havia uma casa ao lado. #linebreak Não há mais uma casa lá. #linebreak Duskmourn ficou inquieta, alcançando mais além, #linebreak Ela seguiu o medo, ela seguiu a dúvida. #linebreak Ela devorou aquela casa, com pregos e tudo. #linebreak Ela devorou as janelas e as paredes. #linebreak Ela devorou o telhado — quando ela terminou, #linebreak Ela arreganhou os dentes e me devorou também. #linebreak E logo a Mansão engolirá você."
Na palavra final, elas abriram os olhos como um só e se voltaram para Shevara, que estava em pé e silenciosa entre as árvores. Ela recuou, então se virou e correu enquanto o som das palmas começava de novo.
Ela retornou ao círculo dos anciãos para encontrá-lo quieto e parado, os caçadores e o rei caídos com os olhos fechados e mariposas pousando em seus cabelos. Ela correu para o rei, espantando freneticamente as mariposas, até que elas se foram e ele agarrou os braços dela, levantando a cabeça.
"Shevara?" ele perguntou, parecendo perplexo. "O que—?"
"A Mansão está aqui," disse ela, a resignação a asfixiando. Ela gesticulou para os caçadores imóveis ao redor deles, as mariposas ainda repousando em seus cabelos. "É tarde demais. Nós éramos a última floresta no mundo, e nós perdemos. Rotrue caiu."
O rei se endireitou, virando-a para que suas costas ficassem encostadas em seu peito, e pôs os braços ao redor da cintura dela, segurando-a junto a ele enquanto a delicada filigrana de madeira prateada que tinha começado a crescer pelas árvores ao redor deles se entrelaçava em um pináculo no alto, com os espaços entre as trepadeiras já começando a se preencher com vidraças enquanto a Mansão construía sua estufa, com os últimos elfos lá dentro. A luz do sol através do vidro criaria um verão artificial; o inverno nunca chegaria. O ciclo estava quebrado, e assim o mundo havia perdido, e a Mansão havia vencido.
As paredes ficaram fortes. O vidro engrossou. Os elfos de Rotrue se juntaram aos outros sobreviventes, lutando para sobreviver dentro das paredes da Mansão, e a Mansão era o mundo, e o mundo estava preso dentro daqueles corredores, daquelas salas, como uma mão cruel e apertada.
Ninguém notou no dia em que a Mansão tomou o sol menor.
Não sobrou ninguém lá fora para ver.
30/08/2024 | Por Mira Grant
Episódio 6: Não Morra
Tocar tambor não era realmente uma forma de arte em Meletis. Diferente de tantos outros lugares em Theros, os tambores de guerra nunca foram conhecidos por soar lá; quando havia um chamado para lutar, era definido ao ritmo de pés batendo e espadas colidindo, não de batedores em peles. Niko quase pulou fora de sua pele a primeira vez que ouviu os tambores de Kaldheim começarem a bater, chamando as pessoas do plano para a guerra.
E agora mesmo, sua cabeça parecia um daqueles tambores, sendo batido tão forte que era fisicamente nauseante. Eles gemeram, tentando se mover. Ao mudar de posição lentamente, movendo-se apenas entre as batidas do tambor, eles foram capazes de levantar a cabeça. De lá, foi uma coisa simples forçar seus olhos a se abrirem, piscando através da dor.
Eles ainda não conseguiam mover suas mãos ou pés. Aqueles estavam amarrados de forma segura à cadeira em que eles tinham sido posicionados, pés pressionados contra o chão de pedra dura e pulsos afixados um ao outro com cordas de cânhamo áspero que mordiam sua pele quando tentavam mover seus braços. Eles estavam bem e verdadeiramente pegos.
Rangendo os dentes através da batida contínua, eles se viraram lentamente, lentamente para olhar ao redor. Nashi estava amarrado a uma cadeira à sua esquerda; as pessoas responsáveis por prender o jovem nezumi o envolveram em tanta corda que ele parecia quase como um casulo com uma cabeça de rato espiando no topo. A imagem era de alguma forma perturbadora, e Niko desviou o olhar, mais rápido do que pretendiam: o movimento enviou uma nova onda de dor espirrando por sua cabeça, fazendo seu estômago revirar ao mesmo tempo. Eles engoliram um gemido. Se seus captores não os tivessem notado acordando ainda, eles não queriam alertá-los.
A Errante estava amarrada à sua direita, seus braços e pernas amarrados de uma maneira como os de Niko. Havia uma mesa a alguns pés além dela, empurrada contra a parede da sala para a qual todos haviam sido movidos, e nela suas armas estavam dispostas, colocadas com cuidado ritualístico. A parede em si era algum tipo de madeira escura, crua o suficiente para estar chorando trilhas de seiva vermelho-dourada que cheirava a açúcar e morte.
Os olhos da Errante tremeram. Niko arriscou outro olhar ao redor, absorvendo o resto da sala. Havia um plinto de granito no centro, mais ou menos da altura da cintura de Niko, e um grande altar de pedra contra a parede distante, riscado e manchado com seiva, e com borrões de algo escuro demais para ter saído das paredes. Niko estremeceu.
Aquelas crisálidas duras e angulares que eles tinham visto na sala anterior também estavam lá, penduradas ao redor do topo das paredes em ninhos de seda branca algodonosa, se contraindo ocasionalmente enquanto seus ocupantes se mexiam, seja profundamente no sonho ou se preparando para acordar.
Niko não queria estar aqui quando elas eclodissem.
Não havia outras pessoas à vista: os três estavam sozinhos. Niko olhou de volta para a Errante.
"Psst", eles disseram.
Ela abriu os olhos.
"Você pode me ouvir?" eles sussurraram.
"Sim", ela respondeu, sua própria voz mal audível. "Assim como outros podem. Fique em silêncio."
Niko franziu a testa. Ela estava certa, mas o tom dela não caiu bem para eles. Não quando a cabeça deles estava latejando e eles haviam sido traídos pelo seu único aliado dentro da Mansão. Ainda assim, eles podiam ver quão bem ela estava presa à sua cadeira; assumindo que eles estivessem similares, alguns momentos para se reagrupar e tentar descobrir os nós não fariam mal.
Não parecia haver nenhuma folga nas cordas; Niko puxou sem sucesso antes de invocar um pequeno fragmento, não maior que seu dedo mindinho, e começar a serrar as cordas, não fazendo nenhum progresso real enquanto os segundos passavam. Eles olharam para Nashi novamente. Seus olhos estavam abertos, refletindo a luz fraca, aparentemente sem fonte que enchia a sala. Ele não parecia assustado. Mais resignado a qualquer coisa que estivesse prestes a acontecer.
"Nashi?" perguntou Niko. "Você está bem?"
"Eles todos se foram", disse Nashi. Sua voz estava apática, quase oca.
"Os cultistas? Isso é bom. Nos dá alguns minutos para descobrir o que acontece a seguir."
"Não. Meus amigos. Minha mãe. Eles todos se foram." Nashi lhes deu um olhar repentinamente feroz. "Eu entrei aqui com quatro dos Acertadores de Contas que eu conhecia de casa. Eles não me deixariam ir sozinho. Eles eram todos inteligentes, e rápidos, e perigosos, e eles se foram. Esta Mansão os pegou, mas eu os liderei até aqui. Sem mim, eles estariam seguros com suas famílias, e nada disso estaria acontecendo."
"Você disse que eles não o deixariam ir sozinho. Isso significa que a culpa não é sua."
"Se eu sou o motivo, a culpa é minha", insistiu Nashi. "Quando o pergaminho da Mãe desapareceu, eu apenas—eu não podia me recusar a segui-la."
"Você a seguiu, e eles seguiram você", disse Niko. "Parece para mim que aqueles que roubaram o recipiente de sua mãe são os culpados."
"E alegremente assim", disse uma nova voz. Niko enrijeceu, virando a cabeça o máximo que as cordas permitiam em uma tentativa vã de ver atrás deles. Não funcionou, mas então, não precisava, pois quase imediatamente, o cultista chefe andou entre eles e a Errante, ainda carregando seu livro. "A mariposa é atraída para a luz, mas a luz não tem culpa. A mariposa está apenas fazendo o que deve. Instinto e fome controlam todas as coisas. Abençoada seja a soleira, abençoada seja a chama."
Um murmúrio baixo irrompeu atrás dele, os outros cultistas ecoando suas palavras. Niko estreitou os olhos. Eles não podiam dizer se a voz de Inverno estivera entre os falantes.
"Vocês vão receber uma grande bênção", disse o cultista chefe. Ele era uma figura não imponente, de fala mansa e de estatura mal mediana, seus óculos embaçados por pequenos arranhões. Ele parou entre seus cativos e o plinto, abrindo seu livro. "O conhecimento de vocês será adicionado à grande lista, e com ele nós guiaremos o Pai Devorador para seu próximo local de banquete. Todas as coisas conhecerão a luz de sua atenção."
"O que você quer dizer?" perguntou a Errante, falando pela primeira vez desde que advertiu Niko ao silêncio.
O cultista chefe voltou sua atenção para ela, enquanto outros três andavam entre ela e Niko, indo para o plinto. Eles carregavam uma caixa quadrada. Quando eles a colocaram no chão, o topo se abriu com um estalo, e a sombra de Tamiyo apareceu.
"Mãe!" chorou Nashi.
A sombra de Tamiyo virou o rosto.
"Vocês carregam a poeira de tantos mundos quanto existem salas no paraíso", disse o cultista chefe, focando em Niko. "Lugares que ainda não conheceram a soleira, ainda não sentiram a chama. Através de vocês, nós seremos levados a eles. Através de vocês, nosso Pai será capaz de plantar Suas fundações, e ele fará um banquete."
Niko encarou o homem antes de puxar com mais força contra suas cordas. Nada se moveu.
"Histórias são uma coisa, mas fazer um banquete com a carne daqueles que andaram de tão longe—vocês são uma bênção, e porque este aqui", ele voltou sua atenção para Nashi, sorrindo serenamente, "chamou vocês para nós, nós concederemos a ele o dom do renascimento. O casulo dele foi preparado, e ele viverá eternamente a serviço do Pai Devorador."
Nashi arreganhou os dentes. De trás deles veio uma comoção, terminando quando Inverno abriu caminho para a frente da sala, parando diretamente na frente do sacerdote chefe.
"E quanto a mim?" ele exigiu. "Você me prometeu—"
"Eu prometi a você o que eu prometi à minha Marina, tantos anos atrás", sussurrou uma nova voz. Ela era fina e rala como a seda ao redor das bordas da sala, fatiada em centenas de camadas que se juntavam para formar um coro terrível. O latejar na cabeça de Niko silenciou, extinto pelo sussurro. Nenhum outro som poderia sobreviver onde aquela voz falasse.
Os cultistas caíram de joelhos, todos eles, curvando-se para pressionar suas testas contra o chão. Apenas Inverno permaneceu de pé, embora não tenha se virado.
"Eu prometi a você o desejo do seu coração", continuou a voz. Uma iluminação lenta amanheceu nas sombras acima deles, emanando do corpo do que parecia ser uma mariposa enorme tecida a partir do tecido de pesadelos. Suas asas estavam fundidas com as paredes ao redor dele, sua substância mergulhando para dentro e para fora da pedra como se tivesse crescido ao redor dele, e a visão dele era acompanhada por um frio frígido e congelante que afundou nos ossos de Niko em um instante. O falante virou sua cabeça maciça, olhos facetados brilhando enquanto ele olhava solenemente para Inverno.
"É você", disse Inverno, tom preso entre temor e horror.
Valgavoth não tinha lábios para sorrir, mas ele ainda assim conseguiu parecer satisfeito enquanto acenava com a cabeça, antenas emplumadas se contraindo no tempo do gesto. Ele estendeu uma gavinha fibrosa de sua própria substância em direção ao seu sumo sacerdote, cutucando o homem. Não foi um chute. O sacerdote ainda levantou a cabeça e se pôs de pé, ficando ao lado de seu deus.
"Sim", disse Valgavoth. "Você me conhece. Você me conhece desde que eu chamei por você na escuridão, pois aqui eu sou a única fonte de luz. Você é o primeiro desde a minha Marina a responder ao meu chamado com um sacrifício apropriado."
"Sim", sussurrou Inverno.
"Quatro vidas para garantir o desejo do seu coração. Quatro soleiras para eu cruzar."
A cabeça de Niko se ergueu bruscamente. "A amiga sobre a qual você me contou na floresta", eles disseram, não fazendo nenhum esforço para manter a voz baixa. "Aquela que se foi agora. Sua melhor amiga."
"O que tem ela?" perguntou Inverno.
"Há apenas três de nós."
Inverno ficou em silêncio.
"Você a sacrificou a um monstro pelo desejo do seu próprio coração."
"Você faria o mesmo", disse Inverno. "Passe tempo suficiente perdido em Duskmourn, e não há nada que você não faria para encontrar sua liberdade."
"Mentiras", disparou a Errante.
"Verdade", disse Inverno. "Quando toda esperança se vai, apenas a verdade permanece." Ele retornou seu foco para Valgavoth. "Eu teria dado qualquer coisa para finalmente sair, então eu dei algo melhor."
"O quê?" perguntou Niko.
"Eu dei tudo. Agora me deixe ir."
Valgavoth riu, um som retorcido e esfarrapado, e abriu suas asas o mais amplo que a fusão delas com as paredes permitiu. Quando ele as dobrou novamente, havia uma porta cravada na base de seu corpo, o ponto onde seu abdômen encontrava o topo das escadas que desciam mais fundo na carne da Mansão.
Esta porta era feita da mesma madeira de cerejeira das outras, o caixilho esculpido com mariposas e guirlandas de colheita, uma lua cheia onde o olho mágico deveria estar, os traçados de tentáculos espiando pelas bordas. Inverno olhou para ela como um homem faminto de frente para um banquete, mas não se moveu. Ele olhou para Valgavoth em vez disso.
"Eu posso ir?" ele perguntou. "Você promete?"
"Eu mantenho minha palavra", disse Valgavoth. Inverno correu para a porta. Rápido demais — ele tropeçou em uma rachadura no chão e caiu pesadamente, aterrissando de mãos e joelhos. Nem Valgavoth nem os cultistas se moveram para ajudá-lo enquanto ele se levantava. Eles apenas assistiram, silenciosamente críticos.
Niko se esticou contra as amarras. Elas ainda estavam tão apertadas quanto no começo e não mostravam sinais de afrouxar. De trás deles, eles ouviram o som distinto de madeira batendo contra carne, acompanhado por um ganido, e então uma voz familiar abafou tudo o mais, quando Tyvar estrondou, "Má forma, começar a batalha sem nós!"
Um cultista voou passando por Niko para se esmagar na parede, claramente tendo sido atirado através da sala, e uma figura terrível apareceu perto deles. Ela tinha o formato de Zimone, mas diferente de Zimone, tinha pele feita de madeira lascada danificada pela água e pregos enferrujados no lugar dos dentes. Ela estendeu a mão para eles com suas mãos horríveis, dedos como dobradiças tortas e palmas como telhas quebradas, e Niko tentou se afastar, movendo-se o mais longe que as cordas permitiam.
"Acalme-se", disse a figura, e sua voz era a de Zimone, e a figura era Zimone, de alguma forma transformada como o povo-de-vime. Ela estendeu a mão para eles novamente, e desta vez eles não se moveram enquanto ela enganchava aqueles dedos de dobradiça sob a primeira laçada de corda e começava a serrá-la, cortando a fibra simplesmente flexionando a mão.
Outro cultista voou pela sala, enquanto o ar atrás deles era estilhaçado por gritos e gargalhadas. Tyvar, ao que parecia, ainda estava tendo o momento de sua vida. "Ao menos alguém está tendo um dia bom", murmurou Niko.
Zimone ofereceu a eles um sorriso horrível, a expressão tornada assustadora pelos ângulos não familiares de seu rosto. "Eu não acho que ele sabe como ter um dia ruim por muito tempo", ela disse.
As cordas nos braços de Niko caíram enquanto Zimone se movia atrás deles, tateando por seus pulsos. Valgavoth rugiu, batendo as asas e fazendo as paredes ao redor dele tremerem e se contorcerem, a mansão inteira parecendo ter espasmos com uma súbita vitalidade terrível. Inverno avançou para a porta novamente, apenas para recuar tropeçando quando um cultista bateu contra ela, impedindo-o de abri-la.
As cordas nos pulsos de Niko se afrouxaram, e eles puxaram as mãos livres, chicoteando dois fragmentos do ar e atirando-os na Errante. Eles cortaram as cordas segurando seus braços e pernas na cadeira, e ela rolou da cadeira para o chão. Niko estava pronto com outro fragmento, cortando as mãos dela livres enquanto Zimone trabalhava nas cordas segurando as pernas deles na cadeira. A Errante pisou de forma rápida e leve até a mesa com suas armas, recuperando sua espada.
Bem a tempo: Valgavoth havia parado de rugir e estava cuspindo nuvens de teia branca ácida no ar. A Errante cortou facilmente pelas teias enquanto ela praticamente dançou pelo chão até Nashi, cortando-o livre e pressionando um objeto pequeno e duro na mão dele. "Você pode mudar seu destino", ela sussurrou, e então ela havia partido, investindo na direção do corpo da gigantesca mariposa demoníaca.
Inverno tentou a porta uma terceira vez, apenas para um dos fragmentos de Niko acertá-lo em cheio nas costas e envolvê-lo, selando-o longe da liberdade que ele havia tanto desejado. Niko olhou para trás para os sons da briga em andamento.
Tyvar estava se garantindo contra meia dúzia de cultistas, a pele ondulando de carne para pedra e de volta de novo tão rapidamente que era quase como assistir a uma nuvem deslizar através do sol. Ele estava rindo. Niko se voltou para Zimone.
Um cultista tentou agarrá-la, e ela cortou ele com dedos de dobradiça, fatiando sua bochecha e empurrando-o para trás, o rosto dele jorrando sangue. Ela se moveu na direção de Tyvar, puxando a caixa de Niv-Mizzet ao redor para a frente dela e começando a apertar botões rapidamente. Uma vez que ela estava perto o suficiente, Tyvar tocou seu ombro, e a composição normal de seu corpo veio inundando de volta, afugentando os horrores temporários.
A caixa imediatamente derramou uma cascata geométrica de linhas azuis e verdes no ar. Elas se enrolaram no cultista mais próximo e correram sobre a pele dele, multiplicando-se exponencialmente, até ele ser engolido pela luz.
"Boa captura!" gritou Tyvar de forma encorajadora.
"Eu fui a melhor da minha turma em matemática de combate teórica", disse Zimone. Ela puxou outra cascata de linhas da caixa, atirando-a descuidadamente para Tyvar. Quando ela atingiu a pele dele, começou a se entrelaçar formando uma espécie de armadura com nós, a qual desviou o próximo golpe que o teria acertado. Tyvar piscou, então abriu um sorriso largo.
"Contemplem o poder da matemática!" ele proclamou, virando-se e socando o cultista em cheio no rosto.
Valgavoth rugiu. A Errante havia saltado para cima do altar de pedra, e estava duelando com a gigantesca mariposa demoníaca, cortando através de suas nuvens de teia cáustica, bloqueando suas tentativas de golpeá-la com membros com garras. A espada dela não cortava através das pernas dele enganosamente finas, mas as nocauteava para longe dela, e conforme absorvia mais e mais da energia dos ataques dele, a lâmina começou a brilhar com um branco flamejante e brilhante.
Abaixo dela, Nashi correu para o plinto, agarrando a caixa acima da qual a imagem de Tamiyo pairava. Ele enfiou a mão dentro dela, e enquanto seus dedos estavam prestes a se fechar em torno do pergaminho dela, ela se virou para enfrentá-lo.
"Espere!" ela gritou.
Nashi congelou.
"Eu estou aqui para salvar você", ele disse. "Mãe, você tem que me deixar salvar você."
"Eles têm roubado minhas histórias, Nashi", ela disse. "Desmontando-as e levando-as embora. Eu não me lembro das coisas que eles roubaram de mim. Mas eu me lembro de você. Eu vou sempre, sempre lembrar de você."
"Mãe..."
"Aquelas histórias foram o que me permitiu existir nesta forma. Elas foram meu sangue e fôlego e ossos depois que todas aquelas coisas foram perdidas, e agora elas foram levadas. As pessoas que me levaram me deixaram conectada a esta armadilha-de-fantasma para me manter aqui—isso é a única coisa me mantendo aqui, Nashi. Eles são a única coisa me mantendo aqui. Você não pode me salvar desta vez."
"Mãe. Não." Nashi olhou para ela, bigodes retos e orelhas pressionadas apertadas contra o crânio, tremendo em sua confusão e mistério.
"Oh, meu menino mais doce, existem histórias cujos finais podem ser mudados, e aquelas que não podem. Meu final foi escrito anos atrás. Sua mãe—sua mãe real—amou muito, muito você, Nashi, ela amou tanto você que a história do amor dela é uma das únicas que eu não esqueci. Quando eles tentaram levá-la, eles descobriram que sem ela, o resto de mim se desfaria e desapareceria imediatamente. Eles me fizeram chamar por você, Nashi, porque você era a história que pendia no meu coração. Eles me fizeram atrair você para cá, caçadores encurralando a lua, e eu sinto muito. Eu sinto muito, muito."
"Mãe..." As lágrimas de Nashi transbordaram de seus olhos. A luta ao redor deles havia se desvanecido em um pano de fundo de gritos e armas colidindo, menos importante do que a sombra bruxuleante de sua mãe. "Por favor. Eu preciso de você."
"Você não pode me salvar, mas não precisa. Você não precisa de mim, Nashi, não mais. Olhe para o que você conquistou! Você fez uma investida de herói no coração de uma mansão demoníaca para salvar o insalvável. E olhe para as pessoas que vieram para ajudar você, simplesmente porque você precisou delas. Você é mais amado do que pode saber. Agora vá, Nashi. Vá, e seja tão espetacular quanto ela sempre soube que você seria."
Arte de: Miranda Meeks
Nashi ergueu o pequeno objeto que a Errante havia pressionado na sua mão. "Ela me disse que eu poderia mudar meu destino. Ela me disse... eu poderia..."
"Não, meu amor. Não alcança longe o bastante para isso. Meu livro está fechado; meu conto está terminado. Eu só peço mais uma coisa a você."
"O quê?"
"Deixe-me ir."
Nashi encarou ela, silencioso e horrorizado.
"Eu ainda tenho histórias que eles poderiam roubar de mim. Por favor, amor, por favor. Deixe-me ir, para que o trabalho que foi a minha vida não seja transformado em maldade por mais tempo. Liberte-me, meu querido. Liberte-me."
Nashi virou o rosto para longe, de volta na direção do caos atrás dele.
Niko estava lutando para abrir caminho para a porta, atirando fragmentos nos corpos dos cultistas e passando por cima daqueles que Tyvar já havia derrubado. Tyvar ainda estava brandindo com abandono imprudente, finalmente em seu elemento enquanto batalhava contra a horda aparentemente interminável. Zimone seguia bem atrás dele, guardando as costas dele com sua magia e máquina.
Valgavoth rugiu, as asas flexionando. As paredes estremeceram, e crias-do-porão e pesadelos derramaram delas, invadindo a sala. Tyvar agarrou Zimone, e o horror da Mansão varreu sobre ela novamente, transformando-a. A magia parou de jorrar de sua caixa. Ela lançou a Tyvar um olhar ferido.
"É a única maneira de mantê-la segura", ele explicou.
"Nenhum de nós está seguro", retrucou Zimone.
"Verdade seja dita", disse Tyvar, e se virou para rebater a criatura lula de pesadelo que estava fluindo em direção a eles, os tentáculos agarrando o ar.
Niko agarrou a maçaneta — um plano desconhecido seria melhor que isso. Eles poderiam encontrar um Caminho do Pouso para tirá-los de lá. Valgavoth rugiu novamente, e a porta sumiu, caindo a pó sob os dedos de Niko. Eles ergueram a cabeça para encarar o gigantesco demônio mariposa, preparando outro fragmento.
A Errante estava meio envolvida em fios brancos pegajosos, os braços ainda livres e a espada ainda em movimento, mas a mobilidade dela estava muito reduzida pela sua situação. Niko começou a ir na direção dela, apenas para ser agarrado pelo lado. Eles se viraram e se encontraram olhando para baixo pela lâmina de uma faca cruelmente enganchada, a apenas polegadas do seu rosto.
"Pela soleira!" gritou o cultista e apunhalou implacavelmente para baixo.
Niko sentiu a lâmina perfurar seu olho e continuar através da fina barreira de seu crânio, cortando músculo e osso com igual facilidade, até penetrar o tecido do cérebro de Niko, interrompendo o pensamento e fatiando a memória fora, até que tudo era escuridão, e silêncio, e eles estavam morrendo tão longe de Theros, eles nunca veriam o submundo, eles nunca chegariam ao pós-vida—
O mundo estalou como uma corda de arco esticada, e Niko estava olhando para cima para Valgavoth. Eles dançaram para longe antes que o cultista pudesse agarrá-los, arremessando um fragmento que aprisionou o homem em magia brilhante. Eles estavam preparando mais dois quando foram agarrados por trás, puxados para fora de equilíbrio.
Com um rugido de fúria triunfante, Valgavoth arrancou uma asa parcialmente para fora da parede, derrubando a Errante no chão antes dela ser puxada de volta para dentro da madeira e pedra. Ele empurrou a espada caída dela para longe com uma gavinha, o teto parecendo mergulhar até o chão enquanto ele se inclinava para mais perto para se dirigir a ela.
"Eu engolirei tudo que você é, e eu desfarei seu mundo à minha própria imagem", ele sibilou, a voz de repente suave. "Você perde."
"E você também!" gritou Nashi. Valgavoth olhou para o jovem nezumi bem a tempo de vê-lo enfiar a mão na armadilha-de-fantasma e levantar o pergaminho de Tamiyo livre. Ela sorriu para ele, lágrimas correndo pelo seu rosto translúcido, antes que ela se dissolvesse em luz da lua e sumisse.
"Nós não precisamos dela", disse Valgavoth. Ele voltou a atenção para a Errante presa e se debatendo. "Agora eu tenho todos vocês."
Ele abriu a boca, revelando uma bocarra cheia de dentes como agulhas quebradas e cacos de vidro, então se inclinou em direção à Errante novamente, preparando-se para morder.
Houve um vislumbre de luz azul-esbranquiçada vinda da parede atrás dele, perceptível apenas por estar tão fora de lugar, e Valgavoth congelou. Ele fez um pequeno som de engasgo e se endireitou novamente, preenchendo o mundo inteiro. A Mansão ficou quieta ao redor dele. Ele olhou para baixo para o seu peito. A lâmina de uma katana se projetava dele, reluzindo com icor e hemolinfa, brilhando com luz mágica azulada.
Valgavoth tentou falar mas não fez nenhum som.
A lâmina se retirou, deixando um ferimento vazando para trás, e Valgavoth foi puxado para cima quando a teia que o suportava esticou e o puxou violentamente na direção do teto. A remoção do grande demônio revelou Kaito, segurando a katana em ambas as mãos e respirando pesadamente. Atrás dele na parede estava uma porta formada de luz azul-esbranquiçada; o caixilho era coberto em um padrão de triângulos entrelaçados, dragões estilizados, e mariposas minúsculas que de alguma forma invocavam esperança, onde as mariposas espalhadas pela Mansão invocavam apenas desespero. Todo o padrão ardia brilhantemente, rebatendo a penumbra.
A porta escancarou-se abruptamente, revelando um corredor curto do outro lado, conectando-se a uma segunda porta. Proft apareceu na entrada, gesticulando violentamente.
"Por aqui!" ele gritou. "Eu não posso segurar isso por muito tempo!"
Niko agarrou a espada da Errante, usando-a para cortá-la livre do casulo antes de devolvê-la e puxá-la para ficar de pé. Juntos eles correram para a porta. Nashi seguiu, a concha vazia do pergaminho de sua mãe debaixo do braço. Do outro lado da sala, Zimone puxou o braço de Tyvar e gesticulou para os outros. Ele a ergueu do chão, levantando-a no seu ombro enquanto corria atrás deles.
Eles estavam quase lá quando um pesadelo atacou, a mão com garras arqueando na direção da cabeça de Tyvar. Zimone gritou. Meia dúzia de shurikens bateram contra a mão, depois se puxaram livres e voaram de volta para Kaito, remontando-se na espada dele enquanto ele acenava com a cabeça para Tyvar e passava pela porta.
Tyvar mergulhou através, Zimone carregada em seus braços, e a porta bateu fechando-se atrás deles.
"Depressa, depressa", disse Proft, gesticulando para que os outros se movessem rapidamente pelo curto corredor. "Este espaço não é exatamente estável."
"O que é isso?" perguntou Niko.
"Um Caminho do Pouso artificial", disse Kaito. "Minha centelha, a magia mental de Proft, as distorções do destino de Aminatou e um pedaço da Mansão que levei comigo quando tive que transplanar para longe. Assim que Proft soltar, ele se dissolverá de volta para as Eternidades Cegas e estará perdido. Eu prefiro que não nos percamos com isso."
Nashi parou de andar.
Os outros estavam quase na segunda porta antes que a Errante olhasse para trás, franzindo a testa.
"Nashi?" ela perguntou.
Nashi olhou para o pergaminho vazio em suas mãos. "Seu corpo está em Kamigawa, conosco", ele disse a ele. "Mas o seu espírito pertence às Eternidades Cegas. Eu sei disso. Eu espero que você possa descansar agora. Eu espero que saiba que fez a coisa certa. Sua história terminou, mas a minha está apenas começando. Eu te amo."
Ele colocou o pergaminho no chão do corredor e correu atrás dos outros, saindo com eles para a luz da tarde de Ravnica.
Proft foi o último a sair. Assim que o resto deles estava livre, ele fez um gesto brusco e a porta bateu, desaparecendo num spray de luz branca em formato de minúsculas e cintilantes mariposas.
"Você pode me colocar no chão agora", disse Zimone.
"Desculpe", disse Tyvar, sem arrependimento.
"Tyvar, o que você está vestindo?" perguntou Kaito.
Tyvar olhou para o seu colete, depois deu de ombros. "Zimone disse que isso me ajudaria a me esconder dentro da Mansão. Mas não há necessidade de se esconder agora."
Ele tirou o colete, deixando-o escorregar pelos ombros, olhando para onde a Errante e Kaito estavam parados com Nashi e Aminatou, Yoshimaru dançando ao redor deles no êxtase da reunião, seu rabo emplumado abanando descontroladamente.
"Parece que tudo foi revelado", disse Tyvar, quase filosoficamente.
Valgavoth se arrastou do teto, olhando para os destroços da câmara cerimonial. Corpos de cultistas cobriam o chão; as crias-do-porão já haviam apodrecido onde caíram, e os pesadelos estavam recuando, incapazes de encontrar qualquer medo para se alimentarem.
O ferimento no peito do grande demônio ainda vazava fluidos viscosos e indizíveis, e Valgavoth sibilou. Ele precisaria se alimentar, depois retornar ao seu casulo para se curar. A vida o renovaria, e as histórias que os seus fiéis colheram definiriam âncoras para as suas iscas de busca. Tudo que ele precisava era paciência, e a presa viria. A presa sempre vinha.
E nem todos os seus prêmios haviam escapado dele. Ele estendeu a mão para o sótão acima dele, envolvendo uma gavinha ao redor de um embrulho peludo, laranja, se contorcendo e tremendo e puxando-o para baixo para sua visão. A criatura rosnou e arreganhou os dentes. Valgavoth deu uma boa chacoalhada nela, até que parou de tentar ameaçá-lo. Esta coisa era valiosa. Iria servi-lo bem.
Logo o suficiente. Agora mesmo, ele precisava estancar o sangramento. Ele olhou ao redor da câmara, buscando um cultista com mesmo que um lampejo de vida restando, e pausou ao ver Inverno, encolhido contra a parede onde a porta para a terra mergulhada na escuridão da lua amaldiçoada tinha sido aberta e abandonada. O homem estava solto, de alguma forma, e desarmado. Ele serviria muito bem.
Inverno pegou o movimento pelo canto de seu olho e se virou para ver as gavinhas de Valgavoth estendendo-se na sua direção. Ele gritou e engatinhou para se pôr de pé, mas não rápido o suficiente; elas o agarraram pela cintura, puxando-o para fora de seus pés para ficar pendurado suspenso no ar, indefeso.
"Eu prometi a você a liberdade", disse Valgavoth, numa voz como o ranger de uma fundação ancestral, pesada e velha. "Eu vou dar a você a liberdade. De um certo modo."
Puxando Inverno mais alto para o seu peito vazando e perfurado, Valgavoth derreteu-se no teto, e tudo na Mansão era silêncio.
A Errante ficou na beirada do pátio, Yoshimaru de um lado, Kaito do outro, assistindo enquanto Nashi tecia a história das suas aventuras para uma multidão de jovens arrebatados. "Ele tem um dom", disse a Errante.
"Sim, ele tem", disse Kaito. "Nenhuma destas crianças vai sair abrindo portas misteriosas."
Olhos brilhando com travessura, a Errante olhou para ele. "Uma historinha de horror teria te parado, antigamente?"
Kaito riu.
Nashi olhou ao redor, sorrindo para o par, depois retornou para a sua história. Yoshimaru empinou-se no lugar, o rabo abanando, então partiu pelo pátio até o grupo de crianças, esparramando-se na grama perto de Aminatou, que bagunçou seu pelo com uma mão enquanto continuava a escutar. Os outros tinham ido com Zimone de volta para Strixhaven; Tyvar e Niko tinham parecido animados sobre a perspectiva de um jogo chamado "Torre do Mago". Por um momento, eles podiam fingir que tudo estava certo no Multiverso. Que tudo estava bem.
Pelo menos, era um dia lindo em Kamigawa.
Com o projeto de mapeamento de Niv-Mizzet terminado e os Caminhos do Pouso amplamente seguros, Proft e Etrata haviam sido liberados de volta para seus deveres normais, o que para Proft significava madrugadas na sua recriação mental do seu escritório idealizado, estudando as evidências do seu último caso. Uma recriação impecável de uma estátua quebrada estava disposta na sua frente em peças azuis cintilantes, posicionadas como um quebra-cabeça com várias peças faltando, precisamente como ele tinha visto no início daquele dia.
Ele não percebeu quando a superfície azul-esbranquiçada da parede atrás dele começou a se distorcer sutilmente, o formato de um caixilho de porta lentamente aparecendo a partir das prateleiras e fotografias. Enquanto terminava de se formar, o espaço no centro se alisou, tornando-se uma porta gravada com mariposas de asas brancas. As manchas de olhos nas asas delas estavam estreitadas, parecendo encará-lo com raiva a partir da imagem.
Ainda mais lentamente do que havia aparecido, a porta se abriu, e um vento frio soprou pelo escritório. Proft enrijeceu.